Durante mais de duas décadas, quem passava pelos corredores do Goiânia Shopping aprendeu a reconhecer uma figura que parecia pertencer àquele lugar tanto quanto as lojas, os restaurantes e as escadas rolantes. Aos fins de semana, chegava cedo, sempre bem vestido, de gravata, chapéu e com o crachá preso ao peito. Ele se sentava diante de um tabuleiro de xadrez e esperava. Às vezes, esperava pouco. Bastava algué olhar para a mesa para que Dionísio Sganzerla, o Seu Dionísio, puxasse conversa e convidasse para uma partida.

Aos 96 anos, morreu neste sábado, 12, deixando no Goiânia Shopping uma mesa vazia que se tornou parte da paisagem da cidade. Não era apenas uma mesa. Tinha o tabuleiro estampado, como se o móvel tivesse sido transformado em território permanente de Seu Dionísio. Ali, durante anos, ele jogou com crianças, adultos, idosos, funcionários e desconhecidos que, depois de uma partida, raramente permaneciam desconhecidos.

“Xadrez é vida, xadrez é tudo na vida de alguém”, dizia ele, segundo o assistente social Gleiçon Bruner, que conviveu com Dionísio durante cerca de sete anos, explicou ao Jornal Opção. Para o velho enxadrista, o jogo não servia apenas para testar estratégias. Era uma maneira de atravessar o tempo, espantar preocupações e, sobretudo, encontrar pessoas.

Seu Dionísio aprendeu a jogar ainda jovem, segundo contava a pessoas próximas. O pai teria sido seu primeiro parceiro. Nascido na Itália, foi registrado no Brasil, e passou parte da vida no Sul do país antes de percorrer diferentes lugares. Falava de viagens pela Europa, de passagens por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília e de uma vida profissional ligada ao jornalismo e aos círculos empresariais da comunicação.

Também carregava uma história marcada pelas turbulências políticas do Brasil. Contava que havia sido exilado durante a ditadura militar e que esteve na Argentina no mesmo período em que Dilma Rousseff também viveu no país. Segundo seu próprio relato, teve bens confiscados durante o regime e passou o restante da vida inconformado por nunca ter recuperado o patrimônio.

Era uma vida que, contada por ele, parecia ter sido maior do que os últimos anos deixavam imaginar.

Em Goiânia, entretanto, o homem que um dia circulou entre empresários e jornalistas encontrou uma espécie diferente de importância. Não era mais a influência de uma redação ou de uma grande empresa. Era a possibilidade de sentar diante de alguém e dizer: vamos jogar?

Seu Dionísio chegou à Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) depois de rompimentos familiares e da separação da ex-esposa. O vínculo com os filhos ficou fragilizado e, apesar dos anos de trabalho como jornalista, ele não conseguiu se aposentar. Foi morar em uma modalidade de acolhimento independente, na qual os idosos mantinham autonomia para cuidar da própria rotina.

Ali também encontrou uma pequena comunidade para chamar de sua. Durante muito tempo, cuidou de uma horta existente no espaço do abrigo. Tratava as plantas com o mesmo zelo que dedicava às pessoas. Colhia verduras e fazia questão de levá-las às portas dos outros moradores. Era uma maneira silenciosa de estar perto. A convivência, segundo Gleiçon, era boa. Havia as diferenças naturais entre pessoas de histórias, crenças e costumes distintos, mas Seu Dionísio havia encontrado naquele lugar uma nova rede de relações.

Nos últimos anos, porém, a idade começou a impor limites. Já não preparava todas as próprias refeições e passou a receber alimentação oferecida pelo abrigo. Ainda assim, mantinha alguns rituais que pareciam inegociáveis. Em frente ao abrigo havia um pequeno ponto de café da manhã. Seu Dionísio gostava de ir até lá, comer pão de queijo e tomar leite com café. Era quase uma cerimônia diária. Outro ritual era sair carregando a bolsa cheia de balas e bombons.

Ele oferecia doces às pessoas como quem oferecia uma oportunidade de conversa. “Vou te meter uma bala”, costumava dizer, arrancando estranhamento de quem ouvia a frase pela primeira vez. Logo abria a mão e revelava uma bala de café ou um bombom. O convite vinha em seguida: vamos tomar um café? Para ele, a bala não era apenas um doce. Era uma espécie de cartão de visita. Uma forma de transformar um desconhecido em conhecido, e um conhecido em amigo.

Gleiçon conta que era comum encontrar Seu Dionísio conversando com alguém que havia acabado de conhecer. Bastava uma pessoa cruzar seu caminho para surgir uma história, uma piada ou um convite. Ele gostava de provocar sorrisos, sobretudo quando percebia que alguém não estava tendo um bom dia. A generosidade também aparecia nos pequenos gestos, como quando cuidava da horta do abrigo e distribuía o que colhia entre os demais moradores.

Havia, porém, um sonho que Seu Dionísio carregava até os últimos anos de vida. Ele jogava regularmente na Mega-Sena e dizia que queria ganhar na loteria. O dinheiro, na imaginação dele, não serviria apenas para mudar sua condição financeira. Ele queria viajar. E tinha até escolhido quem o acompanharia nessa nova vida. Gleiçon, que morou quatro anos na Itália e costumava conversar em italiano com Dionísio, seria contratado como seu assessor particular para cuidar das finanças durante a viagem. Os dois rodariam a Itália juntos.

Era um plano improvável, quase cinematográfico, mas que parecia perfeitamente possível para Seu Dionísio. Depois de uma vida marcada por deslocamentos, ele ainda se permitia imaginar novas viagens. A Itália, país onde nasceu, aparecia como destino de uma espécie de retorno às origens. Gleiçon seria o companheiro dessa aventura, responsável pelas contas enquanto os dois percorressem o país. A Mega-Sena nunca lhe entregou a fortuna necessária, mas o sonho permaneceu como uma das histórias que ele gostava de contar.

No shopping, essa capacidade de criar vínculos ganhou outra dimensão.

Rodrigo Neves, segurança do Goiânia Shopping, conheceu Seu Dionísio há cerca de 13 anos. Naquele ambiente, percebeu um homem que havia transformado o espaço em uma espécie de segunda casa. Dionísio chegava por volta das 9 horas e permanecia até o fim da tarde. Jogava com crianças, adultos e idosos. Conversava com funcionários. Cumprimentava quem passava.

“Ali todo mundo era amigo dele”, lembra Rodrigo.

Não demorou para que o shopping também passasse a tratá-lo como alguém da casa. Depois da pandemia, a relação ganhou homenagens concretas. Foi instalado o tabuleiro na mesa que se tornou seu ponto de encontro. Ele recebeu um crachá e passou a ter acesso ao shopping dentro do horário de funcionamento. Aos fins de semana, segundo Gleiçon, o próprio shopping chegou a providenciar transporte para buscá-lo no abrigo.

Seu Dionísio tinha orgulho daquele crachá. Colocava ele no peito como quem vestia uma medalha. E havia outra coisa de que gostava tanto quanto jogar: ser lembrado. Todos os anos, esperava alguma comemoração de aniversário. Às vezes chegava antes da hora, desconfiado de que alguma surpresa estava sendo preparada. Quando descobria que alguém sabia, ficava bravo. Era uma indignação quase teatral, dessas que fazem parte da personalidade de quem gosta de ser celebrado.

O shopping, de fato, havia incorporado Seu Dionísio à própria história. Funcionários e clientes passaram a reconhecê-lo. Crianças que talvez não soubessem nada sobre sua vida fora dali conheciam seu tabuleiro. Para muitos, ele simplesmente era o senhor do xadrez. E talvez isso bastasse.

Nos últimos dois anos, entretanto, até o xadrez começou a exigir mais dele. Já não tinha a mesma paciência para ensinar. Preferia jogar as partidas que conhecia, no seu ritmo. Ainda chegou a participar de uma iniciativa da OVG voltada para adolescentes, ensinando o jogo durante alguns meses, mas os próprios profissionais perceberam que ele já não tinha disposição para continuar.

No shopping, porém, aconteceu uma exceção. Uma criança autista chamou sua atenção. Seu Dionísio decidiu ensiná-la, mesmo quando já dizia que não queria mais ensinar ninguém. Três meses depois, o menino conseguiu vencê-lo. E isso, para um homem que não gostava de perder, era quase uma provocação. Ficou bravo, mas também ficou orgulhoso. “Formei um sucessor meu”, teria dito aos funcionários do shopping.

Era como se, naquele momento, Seu Dionísio percebesse que uma parte dele poderia continuar existindo depois da última partida. O xadrez que havia recebido do pai, ainda jovem, que o acompanhou por décadas e que ele transformou em instrumento para fazer amizades em Goiânia agora poderia seguir pelas mãos de outra pessoa.

Aos poucos, aquele homem que havia percorrido cidades, países e diferentes círculos sociais reduziu o tamanho do próprio mundo. Mas, paradoxalmente, aumentou a quantidade de pessoas que cabiam nele. No abrigo, havia os moradores, a horta, o café da manhã. No caminho, as balas e os bombons. No centro, o restaurante da OVG. Nos fins de semana, o Goiânia Shopping. E, sobre a mesa, 64 casas pretas e brancas capazes de fazer qualquer pessoa parar por alguns minutos.

Aos funcionários do abrigo, dizia que a OVG era uma mãe. “A OVG para mim é uma mãe”, repetia. “Ela cuida da gente, me dá casa, me dá tudo.” Talvez a frase ajude a entender a última parte de sua vida. Depois de uma trajetória marcada por viagens, jornalismo, política, relações rompidas e perdas, Seu Dionísio encontrou uma família onde menos se esperava: entre pessoas que inicialmente não conhecia.

No shopping, encontrou outra.

Quando morreu, deixou um silêncio difícil de preencher. Rodrigo conta que funcionários, lojistas, clientes e até pessoas que mal o conheciam passaram a perguntar onde estava Seu Dionísio. Alguns não sabiam da morte. Outros simplesmente estranhavam passar pela mesa e não encontrar mais o homem de chapéu e gravata diante do tabuleiro.

A ausência, nesses casos, não acontece de uma vez. Ela se instala aos poucos, no lugar onde alguém costumava estar. No Goiânia Shopping, ela está diante de uma mesa diferente das outras, marcada por um tabuleiro de xadrez e por mais de 20 anos de histórias. O shopping já havia feito homenagens a Seu Dionísio ainda em vida e, segundo relatos de funcionários, a intenção é preservar o espaço que se tornou associado a ele.

O velório foi realizado na Paz Universal, no Setor Coimbra, e o cortejo seguiu posteriormente para o cemitério Parque Memorial, na saída para Bela Vista de Goiás. Mas uma parte da despedida aconteceu antes mesmo do sepultamento, nos corredores do shopping e nas lembranças de quem aprendeu a esperar por ele aos fins de semana.

Seu Dionísio deixou partidas que terminaram, partidas que nunca chegaram a começar e uma sucessão de histórias contadas entre um movimento e outro. Deixou também um menino que aprendeu a jogar com ele e que, para seu orgulho, acabou se tornando seu “sucessor”. Deixou as balas distribuídas a desconhecidos, as conversas iniciadas sem cerimônia, a horta cultivada no abrigo, o crachá usado com orgulho e até o sonho de ganhar na Mega-Sena para voltar à Itália acompanhado de um amigo.

Talvez essa seja uma das ironias da vida de Seu Dionísio. Ele passou os últimos anos falando sobre uma viagem que nunca aconteceu, enquanto construía, sem perceber, um lugar ao qual outras pessoas passaram a querer voltar. Não conseguiu rodar a Itália com Gleiçon, mas fez do Goiânia Shopping um pequeno mundo seu. Não ganhou a fortuna que imaginava, mas acumulou algo que não cabia em nenhuma conta: histórias, conhecidos que viraram amigos e pessoas que, décadas depois, ainda saberão apontar a mesa onde um velho de chapéu costumava sentar para jogar xadrez.

Agora, o tabuleiro segue no mesmo lugar. As peças podem volta a ser movimentadas. O jogo pode continuar. O que falta é a presença daquele homem que chegava com seu crachá, puxava uma cadeira, abria a bolsa de balas e, diante de um desconhecido, encontrava mais uma oportunidade de fazer amizade e jogar o jogo pelo qual dedcou sua vida.

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