Servidores da saúde denunciam péssimas condições de trabalho em Goiânia

Em meio ao caos que a saúde enfrenta, Jornal Opção ouviu servidores da pasta que apontam série de problemas

Secretária Fátima Mrué: gestão causa controvérsia até entre servidores | Foto: Câmara Municipal | Foto: Alberto Maia

Mayara Carvalho

A saúde de Goiânia vai de mal a pior. Nos últimos dias a secretária de saúde, Fátima Mrué, esteve na Câmara Municipal para prestar esclarecimentos sobre o fechamento dos Cais Jardim América e Guanabara, admitiu que a secretaria tem grande déficit mensal e anunciou a redução de contratos com laboratórios credenciados que de 80, passarão a ser no máximo 14.

Nesse contexto, o que já era ruim, conseguiu piorar. O Jornal Opção esteve em unidades de saúde da capital nesta semana e ouviu as queixas dos servidores. Por medo de represálias, os funcionários não quiseram se identificar e pediram que a reportagem sequer indicasse as unidades de saúde em que trabalham.

Exames

Um médico que conversou com nossa equipe contou que o setor de exames piorou muito na atual gestão. Segundo ele, o paciente chega a demorar dois meses para conseguir realizar um exame, e alguns sequer são autorizados pela prefeitura. “Ultrassonografia morfológica, que é essencial no pré-natal, não faz mais. A gestante que tiver condições faz particular. Quem não tem fica sem fazer porque a prefeitura não libera o exame”, denuncia.

O médico diz ainda que exames básicos como hemograma e EAS (exame de urina)  perderam agilidade. “Antes eu pedia e esses exames eram feitos aqui mesmo. No prazo de uma hora o resultado estava na minha mão. Agora, as amostras vão para outro lugar e demora um dia para chegar”, desabafa.

A biomédica que trabalha no laboratório da unidade explica que a situação acontece desde agosto por falta de material: “Não estamos mais fazendo os exames aqui porque a empresa não está mais fornecendo o reagente por falta de pagamento. Tinha um laboratório terceirizado que estava fazendo, mas agora também faltou pagamento para o terceirizado”.

Sistema

Outro ponto levantado pelos profissionais que tem atrapalhado o atendimento é o sistema eletrônico da prefeitura. Segundo os servidores, o sistema é instável. “O sistema tem dia que funciona e tem dia que não. Não adianta eu atender um paciente sem sistema porque se eu não der baixa ele não consegue pegar chequinho pra dar andamento no atendimento”, aponta o médico que não quis se identificar.

Com o sistema inoperante, a entrega de medicamentos também fica comprometida. É o caso dos remédios controlados e de uso contínuo, que não podem ser entregues aos pacientes sem dar baixa no sis tema eletrônico. “A nossa situação está péssima. Falta medicamentos, nem dipirona está vindo. O sistema cai com frequência, já chegamos a ficar uma semana inteira sem atender porque o sistema não funcionava”, denuncia a farmacêutica do Cais.

Um novo software foi adquirido pela Secretaria Municipal de Saúde sem processo licitatório no valor de mais de R$ 4 milhões. Quando esteve presente na Câmara Municipal para prestar esclarecimentos, Fátima Mrué disse que o novo sistema seria usado a partir de dezembro para marcar exames e fazer o controle de medicamentos comprados pela secretaria.

“Desde o início da gestão, identificamos uma dificuldade no sistema eletrônico da secretaria, que é bastante limitado. Entre fazer uma licitação, na qual o tempo mínimo seria de três meses, decidimos pelo contrato de urgência”, justificou na época.

A falta de vacinas e de materiais é outro problema apontado pelos trabalhadores das unidades de saúde. “Na parte de vacinas, por exemplo, não vem mais doses suficientes para atender a população. Tem faltado, principalmente a anti-rábica. No setor de odontologia, muitos pacientes não estão sendo atendidos por falta de material”, revelou uma enfermeira que pediu para ter o nome preservado.

CEI da Saúde

O caos na Saúde de Goiânia motivou, inclusive, a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito na Câmara Municipal. Comandada pelo vereador Clécio Alves (PMDB), desafeto pessoal da secretária Fátima Mrué.

A comissão teve início no último dia 16 e investiga a denúncia da falta de repasse por parte da prefeitura para Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de hospitais privados conveniados. As investigações também devem focar na questão dos contratos de compras de equipamentos e medicamentos, bem como com laboratórios e hospitais conveniados.

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