Seleção brasileira tem condições reais de vencer a Copa do Mundo de futebol de 2026 ou vai ser outro fiasco?
08 maio 2026 às 16h37

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Donni Araújo
Especial para o Jornal Opção
Há décadas, o Brasil se acostumou a viver, de quatro em quatro anos, um ritual em torno do futebol que extrapola o próprio esporte. Durante muito tempo, esse costume foi festivo e, em determinadas ocasiões, chegou ao paroxismo. A Copa do Mundo nunca foi apenas um torneio. Sempre foi um momento em que o País se reconhece. Onde o Brasil para. Se olha. E, por alguns dias, parece falar a mesma língua.
Esse frisson estava diretamente ligado à Seleção. Não apenas pelos títulos, mas pela sensação de pertencimento que ela provocava. O Brasil não assistia à Copa, participava dela como protagonista natural. Havia uma confiança quase automática, construída ao longo de décadas em que vencer não era exceção, era parte da identidade.
Mas o tempo passou e com ele vieram as frustrações.
Eliminações sucessivas, promessas não cumpridas, uma distância crescente entre o que se esperava e o que se via em campo. Aos poucos, aquele sentimento de mobilização foi se diluindo. O que antes parava o país hoje já não tem o mesmo efeito. O interesse diminuiu. A conexão enfraqueceu. E, em muitos casos, deu lugar a um distanciamento que seria impensável em outros tempos.

A causa não é apenas o jejum de títulos. É a sensação de que algo se perdeu no caminho.
Ainda assim, talvez mais por hábito do que por convicção, as perguntas resistem.
O Brasil tem condições reais de vencer a próxima Copa?
Ainda é o melhor futebol do mundo?
Ainda se impõe dentro de campo como se impôs durante tanto tempo?
Ou já entrou definitivamente em um outro lugar, um que ainda reluta em reconhecer?
A construção de uma identidade
O Brasil nunca foi apenas a seleção que esteve em todas as Copas do Mundo. Isso, por si só, já seria um feito raro, mas não explica o que a Seleção Brasileira representou durante tanto tempo.
O Brasil ajudou a definir o que era uma Copa do Mundo.
Não apenas pelos títulos, mas também pela forma como jogava. Pela maneira como ocupava o campo. Pela relação quase natural com a bola. Havia ali algo que não se ensinava e, talvez por isso, não se copiava com facilidade.
Em 1958, na Suécia, o mundo viu um time que não se limitava a competir. Encantava. Garrincha desmontava defesas com uma naturalidade que parecia desrespeitosa. Pelé, ainda um menino, resolvia jogos como se aquilo já lhe pertencesse. Didi organizava tudo com uma frieza que hoje parece rara.

Quatro anos depois, no Chile, a estrutura se manteve mesmo com as dificuldades do envelhecimento natural. Garrincha assumiu protagonismo absoluto, carregando o time em momentos decisivos após a traumática contusão de Pelé. Não era apenas um sistema funcionando, era a capacidade de um jogador alterar o rumo de uma partida sozinho.
Em 1970, no México, veio aquilo que muitos ainda consideram a expressão mais completa do futebol. Não só pela qualidade individual, mas pela harmonia coletiva. Um time que jogava com leveza e precisão, como se as duas coisas não fossem incompatíveis.
Os títulos de 1994, nos Estados Unidos, e 2002, na Coreia e Japão, vieram em contextos diferentes, mas ainda dentro de uma lógica reconhecível. Em 94, o Brasil venceu com organização, disciplina e eficiência. Talvez mais pragmático, porém ainda decisivo quando precisava ser. Em 2002, voltou a reunir talento em alto nível, com jogadores capazes de resolver jogos mesmo quando o coletivo não se impunha.
Nada disso foi por acaso.
O Brasil se consolidou como potência porque produzia um tipo de jogador que não dependia exclusivamente do sistema. Quando a estrutura falhava, o indivíduo aparecia. Quando o jogo travava, alguém encontrava uma saída onde não parecia existir.
Era esse o diferencial.
Não surpreende que tenha sido o único país a disputar todas as Copas. Nem que tenha conquistado títulos em diferentes continentes, adaptando-se sem abrir mão de si mesmo.
Durante muito tempo, o Brasil não precisava escolher entre organização e talento. Conseguia conviver com os dois. Embora fosse o talento que desequilibrava.
E era isso que tornava o futebol brasileiro algo difícil de prever.
A crise de identidade
A queda de rendimento não é um acidente. É consequência.
O problema do Brasil hoje não é de geração, não é de técnico, não é de momento. É mais profundo. É uma crise de identidade.
Durante décadas, o Brasil foi um criador de tendências. O jogo passava por aqui antes de se espalhar pelo mundo. Hoje, o Brasil se comporta como um adaptador de sistemas. Já não propõe: reage. Já não dita: acompanha.
Isso não aconteceu por acaso e começa pela formação dos atletas contemporâneos.
A maior parte dos jogadores que chegam hoje à Seleção já não é formada no Brasil. Saem cedo. Muito cedo. Cerca de 85% dos atuais convocados para a Seleção Brasileira deixaram o País antes dos 20 anos. Não é apenas uma mudança de endereço. É uma mudança de linguagem.
O jogador brasileiro deixou de ser formado para o improviso e passou a ser treinado para a função.

O Brasil parou de exportar artistas e passou a vender operários de elite.
Jogadores disciplinados, taticamente preparados, capazes de cumprir com rigor aquilo que o sistema exige. Jogadores que sabem exatamente onde estar, o que fazer, como ocupar o espaço. Tudo correto. Tudo previsível.
E é justamente aí que está o problema.
Porque o futebol brasileiro nunca foi apenas correção. Sempre foi ruptura.
Quando o sistema não funcionava, o jogador resolvia. Quando o jogo travava, alguém criava uma saída onde não existia. Era isso que desequilibrava.
Esse elemento foi sendo neutralizado.
Os números mostram isso com clareza. Nas últimas duas décadas, a capacidade de drible da Seleção — especialmente contra adversários de alto nível — caiu de forma consistente. Não por falta de talento, mas por mudança de comportamento. O jogador arrisca menos. Tenta menos. Decide menos.
Foi treinado para isso.
Ao mesmo tempo, os treinadores brasileiros passaram a reproduzir modelos que não dominaram por completo. Tentaram importar a organização europeia, mas muitas vezes sem a flexibilidade que sustenta esse tipo de jogo. Nas últimas Copas, o padrão se repetiu: um plano único, mantido do início ao fim, mesmo quando o jogo pedia outra resposta, um comportamento diferente do time.
Faltou leitura. Faltou variação. Faltou aquilo que sempre foi chamado — com razão — de malandragem.
O resultado é um time organizado, mas incapaz de surpreender.
E um Brasil previsível é um Brasil comum.
O país que durante décadas obrigou o mundo a se adaptar ao seu futebol passou a se adaptar ao futebol dos outros. E, ao fazer isso, abriu mão da única vantagem que nunca pôde ser copiada.
O choque dos números
Se a discussão sobre identidade ainda pode ser tratada como interpretação, os números tratam de encerrá-la de forma mais direta.
Com a Copa de 2026 se aproximando, o Brasil aparece em um dos momentos estatísticos mais frágeis de sua história recente. E não se trata de percepção. Trata-se de medição.
Projeções da Opta Analyst, hoje uma das principais referências mundiais em análise de desempenho, colocam a Seleção com cerca de 6,23% de chance de título. Isso posiciona o Brasil apenas entre a sexta e a sétima forças do futebol mundial no cenário atual.
Não é um detalhe. É um enquadramento.
À frente, aparecem seleções que hoje operam com mais consistência. A Espanha, com algo entre 15,8% e 17% de probabilidade; a França, entre 13% e 14%; a Inglaterra, com cerca de 11%; e a Argentina variando entre 8% e 10%. O Brasil não está fora do grupo dos candidatos. Mas já não define esse grupo.
E quando se observa o desempenho recente, o quadro se torna ainda mais claro.
Desde a eliminação na Copa do Catar até o momento atual, o aproveitamento da Seleção gira em torno de 52,4%. Entre as 48 seleções classificadas para o torneio de 2026, o Brasil aparece apenas na 39ª posição em rendimento nesse ciclo.
É um número que fala por si.
Sobretudo quando comparado ao passado imediato. Antes da Copa de 2022, ainda sob o comando de Tite, o aproveitamento ultrapassava 80,7%. A queda é de quase 30 pontos percentuais.
Não é oscilação. É mudança de padrão.
As Eliminatórias Sul-americanas, historicamente tratadas como etapa protocolar para o Brasil, também deixaram de ser apenas isso. A campanha dessa vez foi a pior da história desde a adoção do sistema de pontos corridos, em 1998.
O Brasil terminou em quinto lugar, com 28 pontos, 10 atrás da Argentina, que ficou em primeiro, com 39 pontos. Mais do que a posição, o desempenho em campo revelou algo que sempre foi raro. A Seleção enfrentou dificuldades para controlar jogos contra adversários que, durante décadas, eram dominados com naturalidade.
O equilíbrio entre ataque e defesa se deteriorou. A equipe passou a sofrer gols em contextos nos quais antes se impunha. Perdeu margem.
E, no futebol de alto nível, perder margem é perder controle.
Os números não explicam tudo. Mas, neste caso, eles não deixam muita margem para interpretação.
O Brasil continua presente. Competitivo. Entre os que podem chegar.
Mas já não é mais o ponto de partida.
O antídoto
Como antídoto a essa situação incômoda em que o futebol brasileiro se colocou, a Confederação Brasileira de Futebol decidiu contratar um técnico estrangeiro. Trata-se do italiano Carlo Ancelotti.
A escolha, por si só, já diz muito. E, antes de qualquer análise, convém ajustar uma distorção que tem sido repetida com frequência. Ancelotti não é o primeiro estrangeiro a dirigir a Seleção Brasileira.
Já houve outros.
O uruguaio Ramón Platero, em 1925, comandou a equipe em quatro jogos. O português Jorgeca, em 1944, esteve à frente da Seleção por duas partidas. E o argentino Filpo Nuñez, em 1965, dirigiu o Brasil em um único jogo, em que o Palmeiras representou a Seleção contra o Uruguai.
Experiências breves, episódicas, quase esquecidas, mas reais.
É exatamente aí que reside a diferença.
Ancelotti não chega como exceção circunstancial. Chega para assumir em caráter definitivo, dentro de um contexto moderno, com um peso institucional que nenhum técnico brasileiro, hoje, conseguiria sustentar.
E não se trata de suposição.
Os números ajudam a explicar.
Ancelotti é o maior vencedor da história da Champions League como treinador, com cinco títulos. Contudo, o dado mais relevante, no contexto da Copa do Mundo, está na forma como suas equipes se comportam em torneios de eliminação direta. Nos últimos dez anos, seu aproveitamento em fases decisivas supera os 70%.
Não é um detalhe técnico. É um padrão.
A Copa do Mundo é, essencialmente, um torneio de tiro curto. E o Brasil, desde 2006, vem sendo eliminado exatamente no momento em que encontra o primeiro adversário europeu capaz de impor um problema tático mais complexo. Ancelotti construiu sua carreira justamente resolvendo esse tipo de situação.
Ao mesmo tempo, há um outro aspecto que não pode ser ignorado. Trata-se da gestão de jogadores de elite.

No Real Madrid, sob seu comando, atletas brasileiros deram um salto evidente de desempenho. Vinícius Júnior, antes criticado pela definição das jogadas, passou a operar em uma média superior a 20 gols e 10 assistências por temporada. Rodrygo deixou de ser promessa para se tornar decisivo em jogos grandes, assumindo papel de protagonista nos momentos mais críticos.
Não é coincidência.
Ancelotti tem histórico de transformar talento em resultado. De conduzir jovens jogadores até o nível de exigência do futebol de elite. E isso dialoga diretamente com o perfil atual da Seleção, formada majoritariamente por atletas jovens, já inseridos no ambiente europeu.
Há ainda um ponto que talvez seja o mais revelador: a flexibilidade.
Enquanto o futebol brasileiro recente se acostumou a trabalhar com estruturas rígidas, muitas vezes incapazes de reagir ao que o jogo exige, Ancelotti construiu sua trajetória fazendo exatamente o oposto. No Real Madrid, alternou sistemas, variou comportamentos, adaptou sua equipe ao adversário, indo do 4-3-3 ao 4-4-2 em losango, chegando, em determinados contextos, a blocos mais baixos de contra-ataque.
Não há dogma. Há leitura.
E isso atinge diretamente a previsibilidade, uma das principais fragilidades do Brasil hoje.
Por fim, existe um fator que raramente aparece nas análises mais imediatas, mas que, no caso da Seleção, sempre teve impacto decisivo. O aspecto emocional.
Ancelotti é o único treinador da história a conquistar títulos nas cinco principais ligas europeias — Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e França. Chega à Seleção sem precisar provar nada a ninguém.
E isso, no ambiente da Seleção Brasileira, não é irrelevante.
Ao contrário.
Significa reduzir a pressão interna, estabilizar o grupo, evitar a oscilação emocional que, em momentos-chave, já custou caro, como em 2014, quando o time não suportou o peso do contexto, e em 2022, quando perdeu o controle no instante decisivo.
Ancelotti não resolve tudo.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil tenta responder a um problema estrutural com alguém acostumado a lidar exatamente com esse tipo de cenário.
O limite
Entretanto, é impossível ignorar o que a escolha de contratar Carlo Ancelotti representa, em essência, uma capitulação. Não no sentido simplista da derrota, mas no reconhecimento de que o Brasil já não consegue, sozinho, responder ao futebol que ajudou a criar e que hoje é dominado por outros.

A Confederação Brasileira de Futebol – CBF – admite, ainda que indiretamente, que para competir em igualdade com o modelo europeu precisou recorrer ao seu maior intérprete. Não é apenas uma troca de comando. É uma mudança de posição.
E isso nos coloca diante de um cenário que talvez nunca tenha sido tão claro.
O Brasil pode ganhar a Copa de 2026? Pode.
Mas já não depende apenas de talento, nem de tradição, nem da camisa. Depende de algo que nunca foi central na nossa história. Precisa de uma síntese.
Se entrar em campo para ser apenas mais um time organizado, a tendência é que os números se confirmem. A eficiência da Espanha, a consistência da França, hoje, tudo isso pesa mais do que a memória de quem fomos.
Mas existe uma outra possibilidade.
A de que Ancelotti consiga fazer algo que o Brasil deixou de fazer sozinho, que é usar a disciplina que esses jogadores aprenderam fora sem abrir mão daquilo que sempre os diferenciou. Devolver ao jogador brasileiro a liberdade de decisão. O risco. O improviso.
Se isso acontecer, o Brasil não apenas volta a ser competitivo.
Volta a ser reconhecível.
Porque, no fundo, é esse o ponto.
A Seleção chega a 2026 no limite entre dois caminhos. Pode se tornar definitivamente uma versão bem executada do futebol europeu — com o risco evidente de ser apenas uma cópia inferior — ou pode usar o que aprendeu fora para resgatar o que sempre teve de único.
Não é uma questão tática.
É uma questão de identidade.
E talvez seja por isso que esta Copa não possa mais ser tratada apenas como mais uma disputa por título.
Ela será, antes de tudo, um teste.
Um teste para saber se o Brasil ainda é capaz de reinventar o jogo ou se aceitou, definitivamente, o papel de quem apenas aprende.
Donni Araújo, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.
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