Retrospectiva de 2019 e perspectivas para 2020 na área ambiental

Confira a lista com os principais acontecimentos de 2019 e o que podemos esperar para 2020 em relação a questões ambientais

Foto: Reprodução / ST Dennis / CBMGO

No Brasil, a pauta ambiental em 2019 foi conduzida principalmente por desastres que atingiram tanto o desenvolvimento econômico como bem-estar da população. Em comparação com o ano anterior, a área desmatada na Amazônia registrou um aumento de 29,5%, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em 2018, foram registrados cerca de 7,5 mil km² desmatados. A área aumentou para 9,7 mil km² em 2019.

Levantamentos do Inpe também revelam que cerca de 113 mil km² de áreas naturais foram queimadas na Amazônia, Cerrado e Pantanal, aumento de 87%  em comparação com o ano anterior. No total, um equivalente a duas vezes o estado da Paraíba foram queimados. Entre as principais causas para as queimadas são o desmatamento, a preparação do solo para a agricultura e os incêndios acidentais.

“O Brasil é um País muito truculento quanto ao uso de seus recursos naturais”, afirma o diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Clóvis Borges. “Temos 500 anos de história de um extrativismo irresponsável e que segue muito forte. Exploramos como um bem grandioso  sermos o País das florestas, o País campeão em biodiversidade, mas não respeitamos isso na prática”, diz Clóvis Borges.

Um dos principais incidentes que marcaram o ano ambiental foi o rompimento de uma barragem da Vale, em Brumadinho (MG). A tragédia ocasionou 270 mortes, sendo que 13 vítimas seguem desaparecidas. Ao todo, 9,7 milhões de m³ de rejeitos vazaram do reservatório, atingindo uma área de 290 hectares ao longo de 9 quilômetros de distância até chegar ao Rio Paraopeba.

Foto: Reprodução/ Instituto Ambiental do Paraná (IAP)

Também foi anunciada a extinção de áreas de preservação (APPs) brasileiras, com a redução de mais de 60 unidades de conservação com estradas federais, ferrovias, portos e aeroportos dentro de seus limites. A ação ainda não foi concretizada, mas a justificativa apresentada foi a de eliminar “interferências” com estruturas existentes e dar “segurança jurídica” para os empreendimentos. O assunto deve continuar em pauta em 2020, com a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados aprovando recentemente um projeto que torna obrigatória a consulta pública e a realização de estudos técnicos para reduzir ou extinguir unidades de conservação. O projeto está em avaliação na Comissão de Constituição e Justiça. 

Níveis dos três principais gases-estufa captadores de calor (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso) atingiram concentração recorde, segundo a Organização Mundial Meteorológica (OMM). Publicação da entidade também afirma que isto deverá acelerar ainda mais os efeitos das mudanças climáticas, com consequências como condições climáticas extremas, escassez hídrica e aumento do nível do mar.

No início de agosto, praias do Nordeste foram atingidas por derramamento de óleo. Com o decorrer de 2019, pelo menos 900 praias foram atingidas pelas manchas que chegaram ao Espírito Santo e Rio de Janeiro. O desastre afetou a biodiversidade marinha, o turismo, a economia local, a saúde e o bem-estar da população.

Macha de óleo no Nordeste | Foto: Simone Santos/ Projeto Praia Limpa

2020

O gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti, afirma sobre o novo ano: “Em 2020, durante a COP 26, vamos fechar as regras do Acordo de Paris e apresentar de fato as ambições para conter o avanço das mudanças climáticas. Será um ano para os países darem o exemplo e os cientistas clamarem por metas mais ambiciosas. As negociações climáticas serão intensas durante todo o ano e devem ganhar grande espaço no noticiário, nas negociações bilaterais entre países, nas mobilizações sociais, nos eventos científicos e nos fóruns empresariais”.

Clóvis Borges diz sobre a mobilização de jovens acerca da área ambiental: “O fenômeno Greta Thunberg é muito interessante e afeta de uma forma bastante sensível alguns movimentos de jovens aqui no Brasil. Isso mostra uma sensibilidade e uma necessidade de protagonismo dos jovens, que reconhecem nos adultos uma incapacidade de tomada de decisão mais consistente com os desafios existentes, além de identificarem uma falta de propósitos mais sérios dos gestores atuais”.

Sobre o Aumento das queimadas na Amazônia, André Ferretti, que também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, diz: “Em 2020, veremos novamente a questão ligada ao desmatamento e às queimadas. No ano que vem, próximo ao meio do ano, tudo indica que vamos ter um novo número de desmatamento na Amazônia, que tende a ser maior do que o de 2019. Como o fogo é utilizado para limpar o terreno depois de desmatar, há uma tendência também no aumento das queimadas”.

Queimadas | Foto: Adailton Glória

Ferretti lembra que, com eleições municipais em 2020, os eleitores devem ficar atentos aos planos de governo dos candidatos ao executivo municipal. “É importante que os futuros prefeitos tenham em mente a necessidade de os centros urbanos serem resilientes a tempestades, períodos de estiagem, vendavais, calor e frio intensos. Enquanto a crise climática é uma preocupação global, a adaptação e a resiliência aos eventos climáticos extremos devem ser uma preocupação local. Os futuros prefeitos devem estar atentos a isso”, diz Ferretti.

2020 está às vésperas da Década do Oceano, definida pela Organização das Nações Unidas (Onu) para o período de 2021 a 2030. Com aumento das discussões sobre o tema, “é o momento do País intensificar investimento na conservação e restauração da biodiversidade marinha, pensando em aspectos ambientais, econômicos, sociais e no bem-estar da população”, como conclui Ferretti. 

 

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