Ressocialização: empresários de Goiânia vencem preconceito e contratam detentos do semiaberto

Ainda exceção, setor privado colabora para que apenados do sistema prisional tenham empregos e se insiram na sociedade novamente

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Como forma de reinserção na sociedade e buscando remição de pena, detentos do semiaberto de Goiânia contam com a possibilidade de trabalhar fora dos presídios, no setor privado ou público. É o que acontece em uma lavanderia de Goiânia, que emprega três apenados. A proprietária Simone Ribeiro, entrevistada pelo Jornal Opção, disse que acredita em segundas chances e, por isso, resolveu emprega-los.

“Fazem menos de três meses que começamos a empregar os apenados e têm funcionado, eles têm trabalhado bem. Além disso, dar essa oportunidade é uma maneira de tentar fazer com que a sociedade melhore de alguma forma”, acredita a empresária, que já prevê a contratação de mais detentos.

Apesar de os reeducandos que trabalham na lavanderia de Simone terem preferido não se identificar ou gravar entrevista, eles contaram que estão felizes e gratos pelo emprego e pela possibilidade de mudar de vida.

Outra empresa que começou a contratar detentos do semiaberto há pouco mais de um mês foi a confecção do empresário Gustavo Ribeiro. Ele conta que seu negócio, que é recente, cresceu rápido, e quando descobriu a oportunidade de dar chance de trabalho a um apenado, gostou da ideia.

“Sem sombra de dúvidas é uma passo importante na vida dessa pessoa e também para sociedade. Cada um deve ajudar como pode, seja financeiramente, compartilhando conhecimento ou gerando empregos”, disse o diretor da confecção.

Acompanhamento e fiscalização

Essas oportunidades são possíveis, pois, no Brasil, qualquer empresa ou órgão pode empregar detentos do semiaberto. Quem explica é a agente de segurança prisional e coordenadora geral da Central de Acompanhamento e Fiscalização (CAF) da Diretoria Geral de Administração Penitenciária (DGAP), Roberta Priscilla Honorato.

Segundo a agente, os reeducandos podem trabalhar apenas após passarem por um processo da Coordenação de Triagem, onde conversam com psicólogos e assistentes sociais e têm um perfil traçado, para saber se podem ser encaminhados ou não a alguma vaga.

Reeducandos tem oportunidade de emprego em lavanderia de Goiânia | Foto: Fernando Leite

“Caso o reeducando não possua perfil para um trabalho proposto, ainda podemos encaminhá-lo para o EJA (Educação de Jovens e Adultos com bolsa) ou cursos profissionalizantes que tenhamos disponíveis, para que futuramente ele possa trabalhar”, esclarece a coordenadora.

Roberta pontua que os trabalhos não possuem vínculo empregatício. Ainda sim, fornecem ao apenado o pagamento de um salário mínimo, além da remição de um dia de pena a cada três dias trabalhados.

Para as empresas que querem contratar os reeducandos, como fizeram Simone e Gustavo, também há critérios que incluem triagem e análise de perfil.

“As empresas ligam já solicitando o que elas querem, como costureiro industrial, motoboy para entregas, gesseiro e outros tipos de perfil, e nós realizamos o encaminhamento daquele apenado”, informou a agente do CAF, lembrando que, às vezes, a própria DGAP procura empregadores para oferecer a mão de obra dos detentos.

Ressocialização

Além das questões burocráticas, Roberta diz que faz questão de lembrar-se do lado humano de como o projeto tem funcionado. Ela diz que aprendeu, trabalhando no sistema prisional, a não julgar as pessoas e, por isso, incentiva que cada vez mais empresas participem da parceria.

“O que cada um fez em seu passado, em sua vida, ele está pagando, e Deus sabe e conhece o coração de cada um de nós. Temos apenados que realmente precisam de uma chance para se levantar, e que pela quantidade de erros, nem a família acredita mais, quiçá a sociedade, mas que se mostram mudados”, garantiu.

A coordenadora reforça que é importante “contribuir para que essas pessoas retomem suas vidas, com sua família e sejam incluídas da sociedade através de um trabalho digno”.

As empresas que tiverem interesse em contratar os apenados podem entrar em contato pelo número (62) 3201-2487 e procurar pelo Lucas ou Raniere, do CAF.

Recuperando pessoas e parques

Divulgação

O projeto Recuperando Pessoas e Parques é outro projeto que emprega sentenciados. Firmado pelo Ministério Público (MP), Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) e pela DGPA, o programa já completou mais de cem dias e já prevê expansão.

O projeto ocupa reeducandos do sistema semiaberto com trabalho botânico nas principais praças e parques da capital. A revitalização será estendida em breve também aos cemitérios da Grande Goiânia após o ingresso de mais 50 presidiários no grupo (atualmente são 50).

O objetivo, assim como todo projeto de ressocialização de apenados, é reduzir o índice de reincidência criminal dos envolvidos.

Poucas vagas

Apesar dessas oportunidades dadas pelo Estado, ainda é pequena a quantidade de apenados trabalhando se comparado ao número de presos que existem. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), são mais de 2.500 detentos do semiaberto em Goiás.

Trabalhando pelo projeto da DGAP, em Goiânia, são 300. Destes, há os 50 que estão no convênio Recuperando Pessoas e Parques e apenas 34 em empresas privadas.

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