Ratos de Porão continua incomodando

Ícones do punk retornam a Goiânia, apresentando seu mais recente disco de inéditas

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Foto: Facebook

Júlio César Baron
Especial para o Jornal Opção Online

Neste sábado, 4 de outubro, a mais frutífera herdeira do punk nacional retorna a Goiânia: Ratos de Porão, Centro de Convenções, abertura do Goiânia Noise Festival. Mesmo sendo um aficionado, sinto-me obrigado a colocar uma “certeza impessoal”, juro: não é um show qualquer.

Frutos de uma persistência que já dura há mais de três décadas, a trupe capitaneada por João Gordo trilha um caminho expansivo e que, não à toa, lhe confere o status de banda mais importante do cenário independente nacional.

No início dos anos 80, São Paulo rastejava os primeiros passos do pós-ditadura paralelamente à chegada de um dos maiores movimentos da contracultura ocidental. Jovens operários e sem perspectiva foram então minados pela esperança do punk, encontrando na precariedade uma forma digna de manifestação. Bandas como Cólera, Olho Seco, Fogo Cruzado, Ratos de Porão, entre tantas outras, lutaram contra os resquícios coronelistas de um passado recente; discos e shows não com facilidade eram disseminados. Mas aconteciam.

Nos extremos das primeiras manifestações, os Ratos de Porão fizeram tudo, inclusive saíram de cena na hora certa. Foram em busca de uma identidade própria e de uma perspectiva construtiva, alheia à violência gratuita característica do início do punk no Brasil. Mudaram a sonoridade como uma evolução natural, conviveram com as pessoas certas (leia-se irmãos Cavalera e Sepultura), excursionaram pelo mundo, resistiram às drogas pesadas e expandiram a truculência terceiro mundista a um nível de maturidade lírica e musical que nenhuma banda nacional ousou chegar. Os discos Brasil e Anarkophobia são a prova viva disso, atuais que ainda são.

Goiânia também deve muito aos Ratos. Boa parte das bandas e iniciativas calcadas no punk, não só aqui como em qualquer parte do Brasil e mundo, são resultado de um processo de implosão por eles encabeçado. Seminais grupos locais como Morte Lenta, HC-137, Cash For Chaos e WC Masculino tem sua postura associada às iniciativas ancoradas por eles, seja na apropriação do Crossover – uma mistura “equilibrada” entre os extremos da música punk e o Heavy/Thrash Metal -, seja nas líricas, coerentes com as mazelas do mundo.

Mais interessante que a trajetória, nesse caso, é perceber a fidelidade. Manter-se ativo num cenário rico mas hostil e ora desestimulante como a música independente não é fácil; resistir ao teste do tempo e fugir dos clichês de estilo, muito menos. Mesmo assim, aqui estão eles, incomodando a mesmice e renovando as agremiações da musicalidade punk em mais um disco de inéditas, Século Sinistro, recém lançado e provável “pauta” do show de logo mais. A abertura fica a cargo das bandas Kamura, Galo Power, Atomic Winter, Coletivo Sui Generis, Baba de Sheeva, Mad Matters, DDO, Overfuzz e Boca Seca, permitindo ao público conhecer parte da produção musical independente de Goiânia.

Mais que um mero show, portanto, as festividades de logo mais permitem um panorama histórico sobre o movimento punk, suas contradições e suas possibilidades.

Júlio César Baron é estudante de jornalismo da PUC-Goiás.

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