“Quarentena foi boa em Goiás, mas começamos a perder esse trabalho”, diz pesquisador

Professor da UFG alerta que Goiás começa a sair da quarentena antes mesmo de chegar à metade do caminho no enfrentamento à pandemia

O professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Goiás (UFG), José Alexandre Filizola Diniz Filho, falou sobre o avanço da flexibilização da quarentena no Brasil e sobre o entendimento da população sobre o pico de transmissão do vírus. “Muitas pessoas pensam que o pico é final da doença e acredita que estamos saindo da pandemia, quando na verdade ele é apenas a metade do caminho”, observa.

José Alexandre pontua que, do ponto de vista epidemiológico, a escolha de retomar as atividades em uma fase próxima ao pico pode trazer consequências muito ruins ao país. Porém, o professor destaca que a quarentena começou bastante cedo no Brasil e em Goiás e que a falta de apoio efetivo do governo federal, do ponto de vista econômico, impossibilita uma quarentena tão longa.

“A flexibilização em outros países se deu quando o pico da epidemia já havia passado. A Espanha, por exemplo, está reabrindo shoppings agora, junto com o Brasil, só que o pico lá passou há dois meses e aqui não chegou”, afirma o professor. Filizola destaca ainda que a maioria da Europa fez uma quarentena efetiva e conseguiu controlar a pandemia.

Já no Brasil, a quarentena começou em março em um cenário de instabilidade política e econômica desfavorável para uma quarentena tão prolongada. Com isso, segundo o pesquisador, acabamos ficando no pior dos mundos. “Em Goiás a quarentena foi boa, conseguimos empurrar a curva, mas por falta de adesão da sociedade começamos a perder esse trabalho”, avalia José Alexandre.

Negacionismo atrapalha

“É o paradoxo da prevenção, no qual as pessoas perdem essa noção da efetividade do isolamento. O número de casos diminuiu e isso cria uma falsa ideia de que não precisamos de quarentena. Agora vamos ter que pagar o preço”, analisa o professor, ao frisar que o negacionismo do governo federal e a desinformação criam muita confusão e atrapalham o enfrentamento à Covid-19.

Filizola também explica que o Estado, assim como restante do país, vive uma interiorização da pandemia. Esse movimento acaba diminuindo o ritmo das informações e gera uma maior subnotificação. “Estamos com um modelo de atraso grande de notificação e a mortalidade em Goiás está muito baixa. Temos também muitas pessoas assintomáticas, isso tudo nos mostra que o processamento da informação está lenta”, diz.

“Agora que muitos municípios começaram a flexibilizar, é preciso adotar um sistema de monitoramento rápido e eficiente. E tudo é muito lento, inclusive o tempo de desenvolvimento da Covid-19 no paciente. Os sintomas demoram a aparecer e a pessoa vai piorando, depois busca atendimento médico e o exame demora a ser feito. Ou seja, quando você flexibiliza e as transmissões aumentam, isso vai ser visto uns 15 a 20 dias depois. Nada é muito imediato, por isso é necessário aumentar o monitoramento”, defende.

O professor cita o caso de Aparecida de Goiânia, que fez um planejamento muito bom para flexibilizar o comércio. “Mas o número de mortos começa a aumentar e isso nos preocupa. Em Rio Verde a informação está defasada e em Goiânia vamos demorar no mínimo 15 dias para começar a sentir os efeitos da flexibilização”, afirma. “No entanto, muitas cidades não respeitaram a quarentena e isso pode resultar em um aumento não tão grande após o fim da quarentena”, acrescenta.

“Para flexibilizar com segurança é preciso realizar testes em massa, monitoramento e controle rápidos dos casos que aparecerem, isolar os casos e todos que tiveram contatos com eles. Não acredito que tenhamos no Brasil e em Goiás logística para fazer isso, nem recursos humanos e nem financeiros para fazer uma flexibilização bem controlada”, conclui José Alexandre, ao afirmar que as informações em saúde não são organizadas.

Pico de transmissão

Ainda de acordo com o professor, as pessoas precisam entender que se o Brasil hipoteticamente chegasse hoje ao pico de transmissão, com 50 mil mortos teríamos cerca de mais 50 mil mortos na queda da curva. “As pessoas têm dificuldade de entender isso. Quando o numero de mortes começarem a cair, as pessoas vão se preocupar menos ainda. Também não compreendem que ao jogar a curva para frente diminuímos o número total de casos”.

Segundo uma previsão baseada nos estudos já realizados é possível apontar que cerca de 300 morreram em Goiás por falta de isolamento. “Já as pessoas recuperadas muitas vezes apresentam sequelas, como diabetes e problemas no sistema circulatório. Ninguém fala sobre isso, mas o sistema de saúde será sobrecarregado lá na frente. Para 300 mortos poderemos ter 600 curados com sintomas graves e eventuais sequelas”, avalia o professor.  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.