Quando o debate político abandona a razão e abraça a superstição
29 março 2026 às 17h21

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A forma como a sociedade interpreta decisões políticas diz muito sobre o grau de confiança nas instituições. Um episódio aparentemente banal — uma conversa de bar entre juristas, advogados e um cidadão comum — revela um fenômeno preocupante: o deslocamento do debate político do campo racional para o imaginário supersticioso.
A discussão começa de maneira previsível, centrada na decisão do Supremo Tribunal Federal que limitou os chamados “penduricalhos” no Judiciário. Trata-se de um tema técnico, que envolve ética pública e controle de gastos. No entanto, rapidamente, o debate abandona a análise institucional e assume um tom narrativo, quase fantasioso. A menção à figura de Márcia Sensitiva, ainda que simbólica, marca essa transição: a política deixa de ser interpretada por argumentos e passa a ser explicada por previsões, tragédias e eventos aleatórios.
Esse tipo de raciocínio não deve ser visto como mero exagero ou humor. Ele revela um sintoma mais profundo: o distanciamento entre as instituições e a percepção popular. Quando decisões complexas são traduzidas em termos de fatalidade ou misticismo, o que está em jogo não é apenas ignorância, mas desconfiança. O Supremo, nesse contexto, deixa de ser uma instância regida por წეს e passa a ser percebido como um palco sujeito ao acaso.
A lembrança de eventos trágicos, como o caso de Eduardo Campos, reforça essa lógica. O que foi um episódio real e específico passa a funcionar como modelo explicativo recorrente, como se a reorganização do poder dependesse de eventos imprevisíveis e não de processos institucionais. Esse tipo de associação enfraquece o debate público, pois substitui evidências por suspeitas e análise por narrativa.
O espaço do bar, longe de ser irrelevante, atua como um verdadeiro laboratório simbólico. É ali que ideias circulam, interpretações são testadas e sentidos são construídos. Embora esse processo seja natural em qualquer sociedade, torna-se problemático quando a informalidade substitui completamente o compromisso com a verificação e a racionalidade.
Se a política passa a ser compreendida como uma sequência de acontecimentos aleatórios ou previsões místicas, perde-se a capacidade de participação crítica. E sem essa capacidade, o próprio funcionamento democrático se fragiliza. Mais do que corrigir informações, é necessário reconstruir a confiança nas instituições e resgatar o valor do argumento no debate público.

