Produtores goianos citam redução de custos com a inauguração do 1º laboratório de análises de vinho no Centro-Oeste
14 abril 2026 às 14h40

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O crescimento acelerado da vitivinicultura goiana ganhou um reforço de peso com o Centro de Análises e Pesquisa da Vitivinicultura Brasileira, mantido pela Associação Nacional dos Produtores de Vinho de Inverno (Anprovin). Inaugurado em março, o laboratório começa a operar efetivamente em junho de 2026, e sua localização em Brasília já provoca reações entusiasmadas entre os produtores associados.
Afinal, pela primeira vez, os enólogos do Centro-Oeste terão acesso a uma estrutura de altíssima tecnologia a poucos quilômetros de distância, sem depender da logística custosa e demorada que antes exigia o envio de amostras para a região Sul do país.
Em conversa com o Jornal Opção, três vinícolas goianas associadas à Anprovin já começaram a mensurar os impactos positivos dessa novidade. São elas: a Vinícola Casa Moura, localizada em Nazário, sobre a Serra da Jiboia; a Vinícola Serra das Galés, em Paraúna; e a Vinícola Villa Aurum, em Corumbá de Goiás, na região da Serra dos Pirineus.
Casa Moura: tecnologia de ponta a 300 km de distância
A Vinícola Casa Moura, uma das vinícolas goianas mais premiada internacionalmente, vê no novo laboratório um alívio para sua rotina produtiva. Fundada em 2017, a empresa familiar decidiu investir em algo inovador no alto da Serra da Jiboia, em Nazário, a 50 quilômetros de Goiânia. Atualmente, são 10 hectares de uvas finas, com castas como Sinhá, Cabernet Sauvignon, Merlot e Sauvignon Blanc.
A vinícola começou com o suporte da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e, posteriormente, passou a contar com a assessoria da Anprovin, o que a enóloga Wérika Lopes, External Advisor da Casa Moura, classifica como “um casamento muito perfeito”.

A associação com a Anprovin trouxe orientações sobre a produção do topo da colheita de inverno, o que, segundo ela, oportunizou que a Casa Moura crescesse ainda mais.

Contudo, havia um gargalo: as análises laboratoriais. Para atender às normas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os vinhos precisavam ser enviados para a sede da Anprovin em São Paulo e, de lá, seguiam para laboratórios no Sul do Brasil. “Isso trazia todo um complicador, aumento de custos e havia a questão também do vinho poder sofrer modificação com esse transporte”, detalha Wérika. Além disso, a vinícola ainda arcava com análises complementares em laboratórios particulares.

Agora, com o laboratório em Brasília, a realidade é outra. “Ele aqui traz para a gente um conforto de termos agora, não só um laboratório próximo, mas que foi construído com altíssima tecnologia de ponta, com equipamentos novos”, comemora. A distância entre Nazário e a nova unidade é de aproximadamente 300 quilômetros, o que reduz drasticamente o tempo de espera e os riscos de degradação das amostras.
Para Wérika, esse avanço não beneficia apenas a Casa Moura, mas sim toda a produção de vinhos no Brasil.
Vale ressaltar que a vinícola já acumula 15 medalhas internacionais, entre duplo ouro, ouro e prata, em concursos realizados em Cannes (França), Londres (Reino Unido), Madri (Espanha) e Mendoza (Argentina). Recentemente, em 2026, a Casa Moura recebeu quatro medalhas no concurso Bacchus, o maior da Espanha: três de ouro e uma de prata.

Ao todo, o Brasil conquistou 14 medalhas nessa edição, e as quatro da Casa Moura foram as únicas de Goiás. “Os avaliadores estão sem ver o rótulo, o que é mais interessante de você entender de todo esse rigor qualitativo”, destaca Wérika. E conclui: “Quando a gente ganha o prêmio, já temos vendas internacionais, já temos procura do vinho lá fora, mais do que aqui dentro.”
Serra das Galés: o médico que se apaixonou pelo vinho do Cerrado
Em seguida, a Vinícola Serra das Galés, localizada em Paraúna, também celebrou a chegada do laboratório. Seu diretor, Sebastião Ferro de Moraes, médico de formação, decidiu na maturidade dedicar-se à viticultura como forma de prazer e realização pessoal. “Eu fiz essa opção para terminar a vida, vamos dizer assim, numa atividade que pudesse ter muito prazer e satisfação”, conta.

Para ele, o laboratório da Anprovin chega “com muito ímpeto e propriedade no sentido de atender aos vitivinicultores aqui do centro-oeste”. Sebastião explica que antes dessa estrutura, as análises se restringiam basicamente à avaliação sensorial do paladar. Agora, porém, é possível dosar substâncias, detectar bactérias, fungos e vírus, além de analisar polifenóis e resveratrol, compostos benéficos à saúde do consumidor.

“O laboratório chega para complementar tudo aquilo que é feito na vitivinicultura e vem comprovar que realmente nossos vinhos aqui do Cerrado têm muita qualidade e podem competir no mundo inteiro”, afirma.
Outro ponto levantado por Sebastião diz respeito à técnica de cultivo. Diferentemente das regiões de inverno rigoroso, o Cerrado não tem baixas temperaturas que induzam a videira à dormência. Por isso, os produtores locais utilizam a técnica da dupla poda. “Enquanto lá, em qualquer outra região onde o inverno realmente existe, usa-se só uma poda, aqui nós temos a obrigação de usar duas podas”, detalha.

A primeira poda, chamada de formação, ocorre entre setembro e outubro, sob chuva. A segunda, a conhecida poda de produção, acontece em março e abril, aproveitando a estação seca e utilizando irrigação. A colheita se dá entre agosto e setembro.
Dessa forma, a uva produzida no Cerrado apresenta sanidade perfeita, pois não sofre com chuvas durante a maturação. “Cada vinho com a característica do seu terroir – que é o ambiente, a terra, o microclima, a umidade e o ser humano – que está junto formando esse terroir para dar essa qualidade ao vinho”, resume Sebastião.
Ele acredita que o laboratório poderá futuramente estabelecer um selo de certificação, o que agregará ainda mais valor aos vinhos da associação. “Tenho certeza que o laboratório vai trazer um grande ganho para todos nós produtores de vinho que pertencem à Anprovin”, finaliza.
Villa Aurum: uma nova fronteira científica na Serra dos Pirineus
A Vinícola Villa Aurum, situada em Corumbá de Goiás, na Serra dos Pirineus, a cerca de mil metros de altitude, também enxerga o laboratório como um divisor de águas. O gestor de novos negócios, Breno Xavier de Brito, contextualiza o momento como uma verdadeira revolução na vitivinicultura brasileira.
Tudo começou quando um cientista brasileiro propôs o método de manejo que desloca a safra do verão para o inverno em regiões específicas. “Onde ela se aplica, os resultados estão sendo fenomenais, estão saindo vinhos de qualidade das melhores regiões do mundo”, afirma.

A Villa Aurum iniciou seu projeto há cinco anos, trazendo castas francesas como Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Syrah, Marselan, Chardonnay e Sauvignon Blanc. A vinícola já está na quarta colheita e conta com vinhos premiados. Breno explica que a altitude elevada ameniza as temperaturas do clima tropical semi-úmido, criando condições mais favoráveis para as uvas.

No entanto, ele ressalta que, até então, o único laboratório de referência no Brasil ficava em Bento Gonçalves (RS), com demanda altíssima e tempo de retorno prolongado. “Quando você está vinificando, você precisa de respostas mais rápidas, da qualidade do seu vinho, do teor alcoólico, do pH”, argumenta. Com o laboratório em Brasília, a agilidade aumenta, e a confiabilidade das análises permanece excelente. “Ao abrir esse laboratório, a Anprovin criou uma nova fronteira científica, de desenvolvimento de informações e tecnologia”, completa.

Breno também destaca o impacto no enoturismo. A Villa Aurum possui hospedagem, tour, degustação e restaurante na propriedade, gerando empregos e renda para a região. “A gente vê que diversas vinícolas que já estão instaladas em Goiás com enoturismo, então você vê o surgimento de um novo mercado aqui que, antigamente, você só tinha acesso se fosse para Bento Gonçalves ou para outros países”, observa. Para ele, vinhos melhores significam preços mais altos, melhor percepção do cliente e, consequentemente, aumento nas vendas.
Com a entrada em operação do Centro de Análises e Pesquisa da Vitivinicultura Brasileira em junho de 2026, a expectativa é que os 56 rótulos associados à Anprovin possam, enfim, contar com um suporte científico à altura do seu potencial. Para o consumidor final, a mensagem é de que o vinho de inverno do Cerrado veio para ficar e para competir de igual para igual com as melhores regiões vinícolas do planeta.
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