Primeira mulher vereadora por Goiânia, Ana Braga acreditava que estava fazendo uma revolução

Com a chegada da vereadora, juntamente com Julieta Fleury e Maria José Oliveira, a Câmara Municipal de Goiânia teve que construir um banheiro feminino

Nascida em 1923, em Peixe Canguçu, então Norte de Goiás (hoje Estado do Tocantins), Ana Braga de Queiroz demonstrou desde criança sua determinação e independência. Em 1935, quando se mudou com sua família para Trindade, Ana Braga iniciou seus estudos no Colégio Santa Clara e sempre se destacou. Na época, ela era ainda uma criança (dez anos incompletos) quando o voto feminino foi liberado no Brasil. Mal podia imaginar que, quase 15 anos mais tarde, ela faria história ao ser uma das primeiras vereadoras eleitas no Estado de Goiás.

Filha de pessoas humildes, Ana Braga decide, em 1941, após terminar seus estudos como normalista, ir até o Palácio das Esmeraldas pedir emprego. Na época, o governador, Pedro Ludovico Teixeira, ficou surpreso com a ousadia da menina que entrou na sua sala e disse que dali não sairia sem emprego. Sua coragem de encarar grandes homens na política seria uma marca de sua carreira. Aos 19 anos, conseguiu seu primeiro trabalho como funcionária pública do Estado.

Em 1945, com o Brasil começando sua redemocratização (fim do Estado Novo, de Getúlio Vargas), Ana Braga se torna oradora do partido UDN (sigla que reúne opositores das políticas getulistas, ditas populistas) e passa a integrar o Comitê Feminino. Uma mulher subir na tribuna para defender um partido naquele tempo era praticamente arriscar a própria vida. No entanto, essa atitude de defender seus ideais foram primordiais para que em 1947, junto com Julieta Fleury e Maria José Oliveira, Ana Braga se elegesse como uma das primeiras vereadoras do Estado.

O trio feminino legislou ao lado de 14 homens. Com isso, a Câmara Municipal de Goiânia teve que construir um banheiro feminino. “Não era uma convivência, era uma revolução ali dentro. E naquele tempo não era fácil”, disse Ana Braga ao Diário de Goiás, em 2019. Ao lado de suas companheiras na Câmara, Ana Braga ouviu muitos xingamentos e teve que trabalhar muito para que seu trabalho fosse validado. No entanto, sua ambição e determinação fizeram com que ela terminasse seu mandado e começasse a sonhar com um candidatura a deputada estadual.

Contudo, com o assassinato de Getúlio Vargas, Pedro Ludovico pediu para que ela renunciasse sua candidatura, devido ao medo instalado no país em todos que eram contrários ao político morto. A partir de então, Ana Braga se dedicaria ao magistério, vindo a lecionar até no Lyceu de Goiânia. Ela só votaria para a política em 1958, sendo eleita deputada pelo Partido Social Democrata (PSD).

O pioneirismo de Ana Braga foi primordial para que se desse o pontapé inicial da participação feminina na política goiana. “Essa ampliação (feminina) começou lentamente depois da redemocratização”, observa a professora titular aposentada de ciência política da Universidade Federal de Goiás (UFG), Denise Paiva. Contudo, ainda nos dias de hoje a participação de mulheres na política no Estado ainda é muito pequena. Para a cientista política, uma das causas desse fenômeno seria a centralização do poder de decisão nas mãos de homens. “Se nós olharmos para dentro dos partidos políticos, as instâncias decisórias são controladas por homens e não por mulheres”, pontua Denise.

Denise ainda frisa que as mulheres enfrentam dificuldades na política desde o início das campanhas eleitorais. “Sem maior visibilidade nas campanhas, não adianta muitas mulheres se candidatarem”, lamenta. Contudo ainda acrescenta que, lentamente, Goiás caminha para a mudança dessa realidade.

“Não obstante, há vários avanços institucionais que a gente tem visto. Como por exemplo, a lei de cotas, fundo partidário destinados às mulheres e recursos para a campanha eleitoral. Mas tem sido muito tímido esse avanço da ampliação das mulheres na política institucional”, analisa Denise. Para que mais Anas possam surgir na política goiana, é preciso que mudanças profundas sejam feitas na política conservadora goiana. E mais do que nunca, que as atuais mulheres que estão hoje em dia em pleito, sejam ouvidas e respeitadas.

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