“Prefeito precisa parar de distribuir cargos em acordos políticos”

Eleito com apenas 500 votos de frente em uma disputa acirrada, Renato de Castro (PMDB) promete corte de gastos e gestão enxuta em Goianésia

Saúde e IPTU são os maiores desafios de Goianésia, avalia prefeito eleito | Foto: Bruna Aidar / Jornal Opção

Saúde e IPTU são os maiores desafios de Goianésia, avalia prefeito eleito | Foto: Bruna Aidar / Jornal Opção

Em uma das disputas mais acirradas do estado, Renato de Castro (PMDB) derrotou o prefeito à reeleição Jalles Fontoura (PSDB), de Goianésia, com apenas 500 votos de diferença. Ex-deputado estadual e também ex-vice-prefeito, o peemedebista disse ao Jornal Opção que não precisa de mais recursos para gerir a cidade localizada a 177 km de Goiânia. Para ele, o que precisa mudar é a gestão.

Durante quase uma hora de entrevista, foram poucas promessas: apenas realizar o básico, com foco especial na saúde. Renato de Castro quer reorganizar o serviço, contratar mais médicos e romper com as Organizações Sociais. Além disso, questionou os aumentos de IPTU dos últimos quatro anos, assegurando que reduzirá a alíquota em 40%.

No quesito política, o prefeito eleito defende que o PMDB avalie, em 2018, qual o melhor cenário para a disputa ao governo de Goiás: caminhar com o deputado federal, Daniel Vilela (PMDB), ou apoiar o senador Ronado Caiado (DEM).

Goianésia tem uma tradição de uma política mais, digamos, de alto nível, sem baixarias?
É mais requintado, mas o nível da disputa é do mesmo jeito. Não tem brigas, mas há rivalidade.

O sr. derrotou o prefeito, Jalles Fontoura (PSDB), que tem tradição na cidade e era apoiado pelo governador.
Conseguimos captalizar os desgastes de Jalles, que fez um mandato ruim.

Mas não houve uma inegociação para que caminhassem juntos PSDB e PMDB?
Não. O que houve foi Jalles querendo fazer a união porque sabia do desgaste, só que não tinha cabimento. Queriam indicar o cabeça de chapa e nós a vice. Mas como? Nas pesquisas nós tínhamos 50% de intenção de votos e eles, 17%. Como fazer acordo desse jeito?

O sr. acredita que haverá dívidas deixadas?
Com certeza! Tínhamos informação de que a dívida seria de R$ 30 milhões, mas ele enxugou a máquina após a eleição e acredito que será menos que isso, entre R$ 15 e 20 milhões.

E a relação com a Câmara?
Bom, conseguimos fazer seis vereadores, a oposição terá nove. Mas não terei dificuldade nenhuma com a Câmara, pessoal é amigo, bom. Além disso, nossa gestão não terá projetos, digamos, polêmicos para apreciação. Vamos administrar dentro de um orçamento, cumprir o básico, que será um desafio.

Quais são os maiores desafios da cidade?
Saúde e IPTU. A estrutura das unidades de saúde da cidade não é ruim, o que está faltando é colocar os médicos e remédios. Fazer o básico, mesmo. Para isso, vou retirar as OSs [organizações sociais] e valorizar o servidor público. Não vou precisar nem de romper contrato, pois vencem no dia 31 de dezembro e apenas não renovaremos. Acredito que em 90 dias colocarei a casa em ordem, vai haver uma melhora significativa.

E o IPTU? O que acontece?
É caríssimo. Houve um aumento médio de 600%, mas tem lugar que subiu 1.500%. É uma coisa absurda, tem gente pobre, casas na periferia que o imposto passou de R$ 130 para R$ 750.

Foto: Bruna Aidar / Jornal Opção

Foto: Bruna Aidar / Jornal Opção

Como o sr. pretende baixar o valor? Porque é preciso que seja aprovado projeto na Câmara.
Mandaremos um projeto de lei, seguiremos o trâmite jurídico, só não vai ficar como está. Vamos reduzir linearmente em 40%.

Existe especulação imobiliária em Goianésia? Problemas como lotes baldios, vazios urbanos, afetam a cidade?
Vixe! E muito! Não é algo exclusivo da capital não, convivemos com isso, mas a maneira de superar é cobrando o imposto e exigindo que cuidem dos espaços.

A folha de pagamento é, possivelmente, o maior desafio de todos os gestores do país. Como superar?
Em Goianésia é 52,75%, acima do limte prudencial, quase chegando ao limite máximo. Dá para cortar e temos que cortar, senão não faremos nada. Ideia é chegar até 45%. Não é fácil, mas tem que ser feito. Sei que não há como cortar gastos sem enfrentar problemas, reclamações, mas tem que acontecer. Vamos diminuir o número e também o salário dos servidores comissionados.

Consta que Goianésia foi uma das cidades que mais gerou emprego no Brasil. Qual o diferencial?
Primeira coisa, essa informação é uma “meia verdade”. Como temos uma economia baseada na cana de açúcar, então, em abril, foi a cidade que mais gerou empregos. Por quê? Porque é o mês da colheita. Mas aí, quando chegou novembro, esse pessoal foi todo mandado embora. É a cidade que mais gerou emprego, mas a que mais demitiu também… Mas essa parte não é divulgada.

A cidade tem boa infraestrutura? Para receber empresas, por exemplo.
É muito boa, temos uma distribuição de água tratada em torno de 97%, esgoto, coleta de lixo, quase 100% das ruas asfaltadas.

Como driblar a crise econômica que assola o país? Hoje os prefeitos vivem com pires na mão pedindo recursos ao governo federal.
Prefeito precisa parar de distribuir cargos da prefeitura em acordos políticos. É super comum chegar um aliado e dizer que quer tal lugar na administração. Se a administração está inchada, como eu posso tirar o que está lá, aliado do meu adversário, por exemplo, e apenas substituí-lo por um meu? Resultado: estaria cometendo o mesmo erro. É algo comum…

Mas não há como fazer composição para uma eleição por exemplo sem contrapartidas, não é?
Só que não pode repetir o que não deu certo. Não adianta achar que vai haver novo pacto federativo, porque não vai. E outra coisa: caso houvesse uma nova repactuação, aumentando a receita dos municípios, sabe o que aconteceria? O prefeito irresponsável iria contratar mais comissionados, aumentaria salários. Daqui a dois mandatos, o problema voltou. Portanto, não se trata de uma questão financeira e sim de responsabilidade.

Em 2019, se eu te fizer essa mesma pergunta, o sr. me responderá que “o problema não é dinheiro, é gestão?”
Com certeza.

Qual o orçamento de Goianésia?
Fechou em R$ 130 milhões para 2017.

Segurança é um problema que afeta todas as cidades do país. Como ajudar o estado nesse quesito?
É uma área bem delicada em Goiás, a insegurança é muito grande, o governo não dá conta. Podemos ajudar pagando os bancos de horas, tentando parcerias… Mas o problema da segurança passa pela mudança da legislação.

O que por exemplo?
Leis mais pesadas contra os bandidos.

O sr. é a favor da redução da maioridade penal?
Urgentemente. Ponto fundamental. Manter bandido preso mais tempo, para a sociedade ficar livre dele, colocá-lo para trabalhar. Acho que deviam trabalhar bastante para ver se, de alguma forma, reporia a sociedade o que é gasto.

PMDB deve retomar em 2018 | Foto: Bruna Aidar / Jornal Opção

“PMDB deve retomar o governo de Goiás em 2018” | Foto: Bruna Aidar / Jornal Opção

O sr. deixou o PT e foi para o PMDB. Algum motivo para a mudança?
Na verdade, minha origem é o PMDB, fomos para o PT por motivos estratégicos em 2014. Os dois partidos sempre caminharam juntos em Goianésia e assim segue sendo, foi bem natural.

Qual o futuro do partido para o sr.?
Acredito que o PMDB deve retormar o governo de Goiás em 2018. Se avaliar, em termos númericos, o PSDB fez realmente maior número de prefeituras, mas é o PMDB que governará para mais goianos. Então, como diria saudoso Roberto Campos [economista e ex-ministro], estatística é igual a biquini, mostra tudo menos o que interessa… É a mesma coisa.

E quem será o candidato ao governo? Porque, com a vitória de Iris Rezende à prefeitura de Goiânia, sabemos que há grandes chances dele apoiar Ronaldo Caiado, do DEM, em vez de Daniel Vilela, que é do PMDB.
Não vejo problema. Até porque, se Caiado ganhar, vai governar junto ao PMDB. Ninguém tem dúvidas do peso que existe hoje no nome dele, só que o Democratas é um partido pequeno. Se ele quiser ser governador, terá que contar com apoio do nosso partido.

Acha que Daniel entende essa situação?
Acho que sim. Até por causa da idade, ele tem pouco mais de 30 anos, então, pode esperar sua vez. E tem maturidade para isso também. Ninguém tem dúvidas de que ele é o nome mais forte dentro do PMDB, mas, para vencermos a eleição de governador em 2018, podemos apoiar Caiado e apostar em Daniel, de repente, para o Senado.

Um grande desafio do PMDB é o Entorno do Distrito Federal, onde elegeu apenas um prefeito.
A dificuldade lá é, principalmente, o Iris… Como ele não é nosso candidato,acredito que isso está superado (risos). Então, vai ser mais fácil para o 15. Ou para o 25, depende.

Outras pessoas do PMDB defendem, como o sr., o apoio a Caiado…
(Interrompendo) Veja bem, eu não defendo apoio a ele. Defendo que o PMDB faça o que for melhor para o partido em 2018. Se for com o senador, vamos; se não, que seja Daniel Vilela.

Há alguma chance de Iris Rezende disputar o governo?
De jeito nenhum. Só se for bobo para achar que o cara vai querer disputar eleição de governador com 85 anos.

Mas todo mundo achava isso de 2016…
Sim, concordo. Mas foi aos 81… 85 não é idade. Digamos que, neste ano, a idade já estava passada do normal, agora vai cometer o mesmo erro? Não tenho dúvidas que essa foi a última eleição de Iris.

É tempo de renovação política?
Estamos passando por um momento de amadurecimento da política. Embora, em virtude de razões históricas, crise, pobreza mesmo, a necessidade de trocar votos e favores, ainda permaneça nas eleições do país.

Como avalia a atual crise político-econômico-social?
Bom, o impeachment foi um golpe. Porém, necessário. Porque a Dilma não cometeu crime, mas perdeu apoio político, perdeu condição de governar o país. Na nossa Constituição não tem essa figura do impeachment para perda de apoio, por isso eu falo em golpe. Criamos uma realidade monstrenga, foi um ato parlamentarista em um sistema presidencialista. Ninguém tem dúvida disso. Minha expectativa é que, em 2017, possamos voltar a crescer, mas não sei se isso vai acontecer. Tomara que seja assim.

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