Por que a sociedade moderna não tem um centro de comando
21 julho 2026 às 16h52

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Abilio Wolney Aires Neto
Vivemos em uma época em que é comum atribuir todos os problemas da sociedade a um único responsável. Há quem acredite que o governo controla tudo; outros veem o mercado como o verdadeiro centro do poder; alguns apostam na influência da mídia ou das grandes empresas de tecnologia. Mas será que a sociedade realmente possui um “comandante”?
Para um dos maiores sociólogos do século XX, o alemão Niklas Luhmann (1927-1998), a resposta é não. Essa talvez seja uma de suas ideias mais provocativas: a sociedade moderna não possui um centro de comando. Ela funciona como uma imensa rede formada por diversos sistemas especializados que convivem, cooperam, entram em conflito e se influenciam mutuamente, sem que nenhum deles consiga controlar os demais.
Essa forma de compreender a sociedade representa uma verdadeira mudança de perspectiva. Durante séculos, muitos pensadores procuraram descobrir qual seria o elemento central da vida social. Karl Marx atribuiu esse papel à economia. Max Weber destacou a racionalização e a burocracia. Émile Durkheim chamou a atenção para a solidariedade social e para a divisão do trabalho. Antes deles, o Iluminismo acreditava que a razão humana seria capaz de organizar racionalmente toda a sociedade.
Luhmann segue outro caminho. Para ele, a sociedade tornou-se complexa demais para ser explicada por uma única causa ou dirigida por uma única instituição.
Basta observar o cotidiano. Quando adoecemos, procuramos um médico. Se surge um conflito jurídico, recorremos ao Judiciário. Para abrir uma empresa, dependemos da economia e do sistema financeiro. Para aprovar leis, existe o Parlamento. Para produzir conhecimento, existem as universidades e os centros de pesquisa.
Cada uma dessas áreas possui regras próprias, profissionais especializados e formas diferentes de decidir.
É justamente essa especialização que Luhmann chama de diferenciação funcional.
Em outras palavras, a sociedade moderna distribuiu suas grandes tarefas entre diversos sistemas. Cada um resolve um tipo específico de problema.
O Direito busca resolver conflitos e garantir estabilidade às relações sociais.
A Política toma decisões coletivas e organiza o exercício do poder.
A Economia administra a produção, o consumo e a circulação de riquezas.
A Ciência procura produzir conhecimento confiável.
A Educação forma pessoas e transmite saberes.
A Saúde dedica-se à prevenção e ao tratamento das doenças.
A Religião oferece respostas para questões relacionadas ao sentido da existência e à transcendência.
Nenhum desses sistemas é superior aos demais. Cada um possui uma função própria e uma lógica de funcionamento diferente.
É por isso que um juiz não decide como um economista, um médico não atua como um parlamentar e um cientista não substitui um sacerdote.
Cada sistema fala uma linguagem própria.
Essa divisão do trabalho tornou a sociedade muito mais eficiente. Ao mesmo tempo, tornou-a muito mais complexa.
Foi justamente para explicar essa complexidade que Luhmann utilizou um conceito originalmente desenvolvido pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela: a autopoiese.
A palavra significa, literalmente, “autoprodução”.
Na Biologia, Maturana e Varela demonstraram que os seres vivos produzem continuamente os elementos necessários para manter sua própria existência. Uma célula fabrica os componentes que permitem sua sobrevivência. Ela não depende de alguém externo organizando seu funcionamento.
Luhmann percebeu que algo semelhante acontece com os sistemas sociais.
O Direito produz novas decisões judiciais, que geram novos processos, novas interpretações e novos entendimentos.
A Ciência produz pesquisas que geram outras pesquisas.
A Economia cria operações que impulsionam novas operações econômicas.
A Política produz decisões que originam novas decisões.
Cada sistema mantém seu funcionamento produzindo continuamente suas próprias atividades.
Isso não significa que eles vivam isolados.
Muito pelo contrário.
O Direito depende das leis produzidas pela Política.
A Economia precisa da segurança jurídica oferecida pelo Direito.
A Ciência fornece conhecimento para a Medicina.
A Educação prepara profissionais para todos esses sistemas.
Eles permanecem permanentemente conectados.
Entretanto, nenhum consegue comandar completamente os demais.
Essa talvez seja uma das maiores lições de Luhmann.
Em uma sociedade altamente complexa, ninguém possui uma visão completa da realidade.
Nem o governante.
Nem o empresário.
Nem o juiz.
Nem o cientista.
Cada um observa apenas uma parcela do mundo.
Essa percepção aproxima Luhmann do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer, um dos principais representantes da Hermenêutica Filosófica. Gadamer ensinava que toda interpretação depende da perspectiva do intérprete. Não existe leitura absolutamente neutra da realidade.
Luhmann amplia essa ideia ao afirmar que isso também vale para as próprias instituições.
O Direito observa os fatos perguntando se determinada conduta é lícita ou ilícita.
A Economia pergunta se determinada atividade gera riqueza ou prejuízo.
A Ciência investiga se uma afirmação pode ser considerada verdadeira ou falsa.
Cada sistema observa o mundo segundo critérios próprios.
Nenhum consegue enxergar tudo.
Essa conclusão também representa uma crítica ao pensamento iluminista. Durante muito tempo acreditou-se que a razão seria capaz de encontrar soluções universais para todos os problemas humanos. Luhmann considera essa expectativa irrealista. A sociedade moderna tornou-se tão diversificada que nenhuma forma única de racionalidade consegue abarcar toda a realidade.
Sua teoria também dialoga com Max Weber, ao reconhecer a crescente racionalização das instituições modernas, e com Émile Durkheim, ao mostrar que a especialização das funções sociais é uma característica essencial das sociedades contemporâneas. Contudo, Luhmann vai além desses autores ao afirmar que não existe um sistema central capaz de coordenar todos os demais. Cada sistema possui autonomia operacional e contribui, à sua maneira, para o funcionamento da sociedade.
Essa visão tem enorme importância para compreender os desafios do século XXI. Em tempos de polarização política, de crises econômicas e de transformações tecnológicas aceleradas, cresce a tentação de acreditar que uma única instituição, um único governante ou uma única ideologia seria capaz de resolver todos os problemas.
Luhmann nos alerta exatamente para o contrário.
A força da sociedade moderna não está na existência de um comandante supremo, mas na capacidade de seus diversos sistemas dialogarem, cooperarem e se adaptarem continuamente às mudanças do mundo. A ordem social não nasce de um centro que controla tudo, mas da interação permanente entre diferentes formas de comunicação, cada uma desempenhando sua função específica.
Essa é, talvez, a maior contribuição da teoria da autopoiese para a compreensão do nosso tempo: uma sociedade saudável não depende de um único cérebro que pense por todos, mas da convivência entre diferentes racionalidades, cada uma limitada, porém indispensável. Reconhecer esses limites é um exercício de humildade intelectual e uma condição necessária para fortalecer a democracia, o Estado de Direito e o respeito às diversas formas de produção do conhecimento.
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Nota do articulista
Este artigo foi elaborado a partir da teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann, especialmente das obras Introdução à Teoria dos Sistemas, Sistemas Sociais: Esboço de uma Teoria Geral e A Sociedade da Sociedade, em diálogo com o conceito de autopoiese desenvolvido por Humberto Maturana e Francisco Varela, além das contribuições clássicas de Max Weber, Émile Durkheim, Talcott Parsons e Hans-Georg Gadamer.
Referências
DURKHEIM, Émile. Da Divisão do Trabalho Social. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método. Petrópolis: Vozes, 2015.
LUHMANN, Niklas. Introdução à Teoria dos Sistemas. Petrópolis: Vozes, 2009.
MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A Árvore do Conhecimento: As Bases Biológicas da Compreensão Humana. São Paulo: Palas Athena, 2011.
PARSONS, Talcott. O Sistema Social. São Paulo: Pioneira, 1974.
WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004.
Na elaboração deste artigo, foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial apenas como apoio à revisão do texto, à organização da argumentação e à formatação do artigo. As ideias, as escolhas de fontes, a análise desenvolvida e as conclusões apresentadas são da inteligencia do autor.



