Pediatria da rede municipal de Goiânia agoniza com descaso do Poder Público

Emergência para crianças está sendo encerrada às sete da noite. Após morte de criança que esperava leito, Materno Infantil, da rede estadual, assume estar em “superlotação constante”

Cartaz colado na entrada do Cais da Vila Nova em 2017. Foto Rafaela Bernardes / Jornal Opção

Cinco meses após a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) anunciar a contratação de médicos temporários para suprir a falta de pediatras na rede, a situação continua a mesma. Nesta semana o Jornal Opção visitou alguns dos Centros de Atenção Integrada à Saúde (Cais) da capital, e registrou, mais uma vez, o descaso do município com a especialidade.  

Em Goiânia, o Cais de Campinas é a única unidade municipal de urgência e emergência que oferece atendimento especializado às crianças. O registro de longas filas de espera já são rotina de quem precisa buscar atendimento no local. Ana Carolina Souza, mãe de uma criança de três anos, chegou à unidade na sexta-feira, 29, por volta das três da tarde. Ao se deparar com uma sala de espera lotada, Ana decidiu ir embora, não podia esperar tanto tempo. 

“Toda vez é assim, para meu filho ser atendido eu tenho que vim sem horário. Hoje não posso, vou ter que buscar atendimento em outro lugar”, desabafa a mãe do menino, que estava dormindo em seu colo.  

Foto: Elisama Ximenes/Jornal Opção

Já não fosse difícil o suficiente esperar quatro, cinco e até seis horas para serem atendidos, há ainda uma denúncia mais grave feita pelos responsáveis que buscam atendimento na parte da noite: o horário da urgência e emergência funciona em tempo limitado. Sem pediatras a partir das sete da noite, crianças voltam para casa passando mal.

Na tarde da sexta-feira, Edilaine Souza buscava atendimento para o filho. Ao Opção, a mãe relatou que na última visita ao hospital, o pequeno recebeu cuidados iniciais e foi solicitado a realização de um exame de sangue, feito na mesma unidade. O resultado leva tempo até ser concluído, isso ela já sabia. Entretanto, após duas horas de espera, cerca de oito horas da noite, uma surpresa desagradável.  

“Depois de esperar por muito tempo e receber o resultado, quando eu fui perguntar sobre o médico que atenderia meu filho, me informaram que não tinha mais pediatra naquele horário”, relata a mãe.  

Solange Alves da Silva, moradora do setor Guanabara III, disse que há anos não encontra atendimento pediátrico no Cais do bairro. Ela conta que quem mora na região precisa se dirigir à unidade de Campinas. Para ela a superlotação se resolveria caso as demais emergências atendessem os pequenos.  

Histórico 

Em outubro do ano passado, quando a capital goiana completou 85 anos, o Jornal Opção publicou uma reportagem sobre a situação dos Cais da cidade. Na época, a gestão municipal já acumulava denúncias na Câmara Municipal e no Ministério Público sobre a falta de médicos e insumos. Em nota à matéria de 2018, a SMS disse que “não havia registro de falta frequente de médicos”.

No mesmo mês a SMS anunciou na contratação de 150 médicos temporários para suprir a falta de pediatras na urgência e emergência de unidades básicas de saúde. Os novos médicos atenderiam os Cais dos Bairro Goiá, Campinas e Guanabara. Entretanto, conforme confirmou o vereador Lucas Kitão (PSL), o Cais Campinas seguiu e segue sendo o único municipal a atender a modalidade. 

No começo deste mês, Lucas Kitão usou a tribuna da Câmara dos Deputados para denunciar a falta de médicos na rede municipal. Em sua fala o parlamentar destacou a ausência de pediatras no atendimento de urgência e emergência e criticou a não abertura ao diálogo por parte da secretária municipal de saúde, Fátima Mrué.

Vereador Lucas Kitão (PSL) | Foto: Câmara Municipal 

Foram vinte e dois dias entre a fala de Kitão e a reportagem, ao Opção o vereador diz que de lá pra cá nada mudou quanto ao diálogo com a secretaria e classifica a situação da saúde goiana como “emergencial”. O vereador diz que o Cais de Campinas ser o único do município a atender a especialidade em urgência e emergência vem contribuindo para as longas filas.  

A quem procura atendimento na parte da noite no Cais de Campinas e encontra portas fechadas, só resta o Hospital Materno Infantil, da rede estadual. Por lá as filas se tornam cada dia maiores. Na quinta-feira, 28, uma criança morreu nos braços da mãe a espera de um leito. Em nota o hospital disse: “Conforme amplamente divulgado e informado, o HMI encontra-se em superlotação constante”.

Medidas  

Na próxima terça-feira, 02 de abril, os parlamentares da Casa convocaram Mrué para uma sessão especial que cobra explicações sobre o trabalho que vem sendo realizado. Lucas Kitão diz que caso não se apresente justificativas, os vereadores irão pedir ao prefeito o afastamento da líder da pasta. Em caso da ausência da SMS, Lucas é ainda mais duro, informa que poderá ser pedido a condução coercitiva de Mrué à Câmara.  

Na sexta-feira, 29, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Município de Goiânia (SindiGoiânia), Ronaldo Gonzaga, disse ao Jornal Opção que a associação entrou com uma representação no Ministério Público de Goiás (MP-GO) e no Ministério Público Federal (MPF) contra a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia.

Sobre a representação do SindiGoiânia, a Secretaria Municipal de Saúde disse que ainda não recebeu nenhuma notificação sobre essa representação nem do MP-GO nem do MPF.

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ziro

Pediatria da rede municipal de Goiânia agoniza com descaso do Poder Público = homicídio. Alguém tem que ser preso, pois estamos falando de um país, onde o contribuinte paga uma das maiores cargas tributárias da galáxia.