Fui promotor de Justiça no interior do Tocantins e de Goiás, onde nasci e meu pai, Avelomar Torres, tocava uma venda, o velho e bom armazém de secos e molhados. Nesses empórios, pode faltar qualquer coisa, exceto os volumosos cadernos do fiado, grossos como “Guerra e paz”, a monumental obra de Tolstói.

Na hora de comprar, tudo em paz; chegou a vez de pagar, está declarada a guerra. Deve ser a isso que o presidente Lula se referiu ao lançar seu novo dorama, o Desenrola 2.0, e endeusar o calote. Pelo fracasso inicial, reservam-lhe mais edições que o “Godzilla” (38), e o público vai deixar na bilheteria um faturamento de “Star Wars” (R$ 50 bilhões).

Em abril, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo publicou a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, com resultado aterrorizante, tipo “6ª feira 13” (12 filmes). Não se sabe qual índice é mais alto, o de dívidas ou o de ódio ao governo. 80,4% das famílias estão com a corda no pescoço, como discursou Lula. O pior é o que ele não disse: ainda devem à loja em que compraram a forca.

Se no caso das drogas o presidente considera o traficante vítima do usuário, no cemitério das dívidas o culpado, segundo Lula, é aquele cujos rendimentos não sobem o suficiente para alcançar a carestia. Ou seja, geral. Na verdade, o algoz é um de barbas brancas, um papai noel ao contrário, que, em vez de deixar presente, rouba o futuro.

Quando a Polícia Federal segue o dinheiro, vai parar em sua cozinha, como no escândalo do INSS, em que R$ 6,2 bilhões foram surrupiados de velhinhos pobres. Pego com as penas na boca, devolveu o produto do ilícito a 4 milhões e 400 mil afanados por entidades picaretas, porém, não mexeu com a companheirada que gatunou os aposentados. O que retornou ao bolso dos idosos foi tirado do Tesouro Nacional, assim como os R$ 7 bilhões do Desenrola 2.0.

De onde vieram esses aí tem mais, pois a fúria para depenar quem trabalha e produz rendeu em 2025 novo recorde de arrecadação: R$ 2,93 trilhões, ou 8,83% acima do que havia espoliado no ano anterior.

A dona de casa não dispõe do mecanismo ao alcance do presidente, o de ir ao bolso alheio para socorrer o caixa. Lula fica com metade do que distribui em benefícios: Bolsa Família (18,9 milhões de famílias, com R$ 600 reais/mês cada) e BPC-Loas, o Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica de Assistência Social (1 salário mínimo pago a quase 6,7 milhões de pessoas idosas ou com deficiência).

Há dezenas de outras planilhas demagógicas. Todavia, dá com a mão leve e toma com a mão grande. A carga tributária sobre o miserável é maior do que para o rico e ao menos metade volta para o governo em impostos. Nas dívidas, inclusive e principalmente.

O crédito consignado começou como a bebida predileta do presidente, uma boa ideia, e se tornou tão assustador quanto ver “Invocação do mal” (9) ao lado da sogra. Malvado favorito de 50,9% dos eleitores em 2022, Lula deu o troco nos que, além do L, fizeram algum empréstimo. Há juros de 8% ao mês, acima do dobro cobrado pela máfia italiana, e o cartão de crédito, os de bancos públicos no meio, esfola o cliente em 436% ao ano. Comparado a esses facínoras, o PCC é um grupo de batedores de carteira.

Adivinhe quem é o campeão do consignado? Começa com L e se escrever-lhe a profissão num cartaz a Polícia Federal vai a sua casa arrancá-lo. Lula encorpou o desconto em folha para o funcionário público e, numa cena que lembra “Halloween” (13 filmes), instituiu a motosserra como bisturi para os empregados do setor particular. Aguardam-se bons roteiros para “A morte do demônio” (5 já e o 6º é esperado para este ano –nada a ver com a enumeração de gestões petistas).

Quem faz a festa é o sistema financeiro, pois o consignado é o investidor anjo de empresas do tipo Banco Master, aliás, um dos grandes do ramo até ser flagrado estrangulando a economia brasileira.

A estratégia de Lula, que deu certo em seu 1º governo por haver outro cenário mundial, é um arremedo de TCC de algum estudante matador de aula em faculdade de economia mantida com Prouni e Fies. Combate o desemprego com populismo, e quem, ainda assim, insistir em trabalhar como patrão ou funcionário é vigiado centavo a centavo por Coaf, Abin, “Pantera Cor de Rosa” e “Os Detetives do Prédio Azul”.

Entre os profissionais superendividados estão os militares e os professores, alguns com 90% do contracheque em poder dos consignados oficiais ou por fora. Como a maioria ganha acima de R$ 8.000, o Desenrola 2.0 não os alcança. Só lhes resta esperar a 6ª feira 13.

Dó maior, e não me refiro à nota musical, é circular pelas repartições vendo no semblante dos funcionários a face da tristeza ou ler notícias sobre os que não conseguem pagar as prestações de sua casa, sua dívida, qualquer que seja a quantia. Não é que estejam privados de fazer um tratamento odontológico, ou de realizar a festinha de 15 anos da filha, ou comprar uma TV nova para ver a Copa, ou quitar o carro adquirido a perder de vista. Isso eles já não conseguiam. Agora, está faltando é o que comer.

Tempos atrás, armazéns de uma portinha só, como o de Seu Avelomar, recusavam o fiado a outros itens, nunca a gêneros alimentícios. Com Lula 3, está faltando o básico até a microempresários e pequenos produtores rurais, todos atolados em débitos. É tal o terror que essas duas categorias estão no Desenrola 2.0. Para o 3.0, aguardam-se banqueiros, empreiteiros, estaleiros, mineradoras e influencers estrelando alguma franquia de filmes de horror no estilo Lula 4.

Demóstenes Torres, 65 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.