Abilio Wolney Aires Neto

Durante os estudos da disciplina de Hermenêutica no doutorado em Direito, inspiramo-nos na leitura dos principais fragmentos de O Sublime Objeto da Ideologia, do filósofo esloveno Slavoj Zizek, em formato de audiobook, para desenvolver esta reflexão filosófica.

Vivemos convencidos de que somos indivíduos críticos, informados e livres. Acreditamos que a propaganda pertence aos regimes autoritários, que os preconceitos são problemas do passado e que a racionalidade científica nos protege das ilusões coletivas. Entretanto, a grande provocação de Slavoj Zizek consiste justamente em afirmar o contrário: a ideologia é mais poderosa quando pensamos que já escapamos dela.

Durante muito tempo, predominou uma definição simples de ideologia. Inspirada na tradição marxista, ela seria uma “falsa consciência”, isto é, um conjunto de crenças equivocadas que impede as pessoas de enxergar a realidade das relações econômicas e sociais. Bastaria revelar a verdade para que a ideologia desaparecesse.

Zizek considera essa visão insuficiente. Para ele, as pessoas frequentemente sabem que determinados discursos são ilusórios ou manipuladores e, ainda assim, continuam agindo como se acreditassem neles. Sua célebre síntese poderia ser expressa assim: “eles sabem muito bem o que fazem, mas continuam fazendo”. A ideologia, portanto, não reside apenas no pensamento; ela está incorporada às práticas, aos rituais e às instituições do cotidiano.

Nesse ponto, o filósofo aproxima-se da psicanálise de Jacques Lacan. O ser humano não vive apenas em um mundo de fatos objetivos, mas em um universo simbólico composto por linguagem, valores, expectativas e desejos. Nossa relação com a realidade é mediada por narrativas que dão sentido à existência. A ideologia funciona precisamente nesse espaço simbólico, oferecendo explicações, justificativas e identidades que estruturam nossa vida social.

O título do livro revela essa lógica. O “objeto sublime” é aquilo que recebe um valor extraordinário, quase sagrado, tornando-se o centro de nossos afetos e de nossa organização coletiva. Pode ser uma nação, uma revolução, o mercado, uma tradição, uma marca comercial, uma identidade política ou até mesmo uma imagem de felicidade. O objeto vale menos pelo que realmente é e mais pelo significado simbólico que nele projetamos.

Essa análise ajuda a compreender diversos fenômenos contemporâneos. As redes sociais, por exemplo, apresentam-se como espaços de liberdade individual, mas frequentemente criam mecanismos de padronização de comportamentos e desejos. O consumidor acredita escolher livremente seus produtos, enquanto campanhas publicitárias, algoritmos e tendências moldam silenciosamente suas preferências. O eleitor imagina decidir apenas com base em argumentos racionais, embora emoções, símbolos e narrativas identitárias exerçam enorme influência.

A contribuição de Zizek também alcança a economia. O dinheiro possui valor porque existe uma confiança coletiva em seu significado simbólico. Da mesma forma, muitas instituições sobrevivem porque a sociedade continua atuando como se determinadas ficções fossem realidades inquestionáveis. Assim, a ordem social depende tanto de estruturas materiais quanto de crenças compartilhadas.

Outro aspecto importante do livro é a crítica ao cinismo moderno. Costuma-se pensar que o indivíduo cínico está imune à manipulação porque desconfia de tudo. Zizek responde que o cinismo pode ser precisamente uma forma sofisticada de submissão ideológica. Alguém pode ironizar a política, desconfiar da publicidade ou criticar o consumismo e, ainda assim, reproduzir exatamente os mesmos comportamentos que afirma condenar. O conhecimento, isoladamente, não garante emancipação.
Essa perspectiva dialoga com uma questão filosófica mais ampla: o ser humano não interpreta o mundo apenas pela razão, mas também pelos afetos, desejos e medos. Desde Platão até Nietzsche, passando por Freud, diversos pensadores reconheceram que a consciência não governa integralmente a ação humana. Zizek radicaliza essa percepção ao mostrar que a própria realidade social depende de estruturas simbólicas que sustentam aquilo que consideramos natural.

Para o campo do Direito, da política e da comunicação, essa reflexão possui enorme relevância. Leis, constituições e instituições não operam apenas por coerção, mas pela legitimidade simbólica que a sociedade lhes atribui. Da mesma forma, notícias, discursos e campanhas públicas disputam a construção dos significados que orientam a vida coletiva. Quem controla essas narrativas exerce influência muito além da simples persuasão racional.

Na era da inteligência artificial, dos algoritmos e das redes digitais, a tese de Zizek ganha nova atualidade. A ideologia não desapareceu com o acesso à informação; ela tornou-se mais sofisticada, personalizada e invisível. Os sistemas tecnológicos aprendem nossos hábitos e passam a oferecer conteúdos compatíveis com nossas crenças, reforçando visões de mundo e reduzindo o contato com perspectivas divergentes. O indivíduo sente-se cada vez mais autônomo justamente quando seus desejos são mais cuidadosamente previstos e estimulados.

Em última análise, O Sublime Objeto da Ideologia convida o leitor a desconfiar não apenas das ideias dos outros, mas também das próprias certezas. A verdadeira crítica não consiste em denunciar ilusões alheias, mas em investigar quais narrativas organizam nossa própria percepção da realidade. Talvez a maior força da ideologia seja exatamente esta: ela não se apresenta como ideologia, mas como simples bom senso, como evidência ou como a única maneira possível de enxergar o mundo.

Por isso, a obra permanece atual. Ela nos lembra que a liberdade intelectual exige um permanente exercício de autocrítica e de vigilância sobre os símbolos que orientam nossas escolhas. Afinal, muitas vezes não somos apenas nós que possuímos as ideias; são elas que acabam nos possuindo.

Na elaboração deste artigo, foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial apenas como apoio à revisão do texto, à organização da argumentação e à formatação do artigo. As ideias, as escolhas de fontes, a análise desenvolvida e as conclusões apresentadas são da inteligencia do autor.