“O problema começa quando você terceiriza sua personalidade”: especialista alerta para uso de IA na paquera
25 setembro 2026 às 14h48

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A inteligência artificial deixou de ser usada apenas para tarefas profissionais, pesquisas ou organização da rotina e passou a ocupar um espaço cada vez mais íntimo na vida das pessoas. Chatbots já são utilizados para criar mensagens em aplicativos de namoro, sugerir assuntos para conversas, planejar encontros e até oferecer apoio emocional. A mudança começa a levantar uma nova questão entre casais: até onde a presença da IA é apenas uma ferramenta e quando ela passa a interferir na relação?
Dados divulgados pelo Pew Research Center em 2026 mostram que 20% dos adultos norte-americanos com menos de 30 anos já recorreram a chatbots para obter apoio emocional ou aconselhamento. Entre pessoas dessa mesma faixa etária, 7% afirmaram utilizar a tecnologia como forma de companhia.
A presença da inteligência artificial também começa antes mesmo da formação de um casal. Pesquisa da The Harris Poll, realizada em janeiro deste ano com 2.177 adultos nos Estados Unidos, dos quais 778 eram solteiros, apontou que cerca de 20% dos solteiros já utilizaram IA em alguma etapa da vida amorosa.
Entre as aplicações estão responder mensagens de uma pessoa por quem há interesse, encontrar assuntos para iniciar uma conversa, planejar encontros, analisar perfis e escrever ou aprimorar a primeira abordagem nos aplicativos. A disposição para recorrer à tecnologia é maior entre integrantes das gerações Z e Millennial.
Para o especialista em relacionamentos Caio Bittencourt, a utilização da ferramenta não representa necessariamente um problema. A discussão, segundo ele, começa quando a tecnologia deixa de auxiliar na comunicação e passa a substituir a própria personalidade do usuário.
“Usar inteligência artificial para pensar em uma boa frase ou organizar uma ideia é uma coisa. O problema começa quando você terceiriza sua personalidade. Se a IA escolheu suas fotos, escreveu sua bio, criou sua primeira mensagem e continua respondendo pela conversa, em algum momento a outra pessoa não está mais conhecendo você. Está conhecendo uma versão sua construída por prompt”, afirma.
Até onde vai a ajuda da IA
O avanço da tecnologia cria situações que até poucos anos atrás dificilmente fariam parte de uma conversa entre casais. Uma declaração romântica escrita com auxílio de inteligência artificial, por exemplo, pode levantar dúvidas sobre autoria e autenticidade. O mesmo ocorre quando grande parte das interações anteriores ao primeiro encontro é construída por um chatbot.
Segundo Bittencourt, o impacto depende do espaço ocupado pela tecnologia na comunicação.
“Todo relacionamento começa com uma expectativa sobre quem está do outro lado. A tecnologia pode facilitar a aproximação, mas confiança ainda depende de autenticidade. Descobrir que uma frase bonita teve ajuda da IA provavelmente não vai destruir uma relação. Descobrir que praticamente toda a personalidade apresentada foi construída por ela é outra história”, diz.
Para o especialista, a situação pode ser comparada, guardadas as diferenças tecnológicas, às histórias em que uma pessoa recorria a outra para escrever cartas de amor em seu nome. A diferença é que, agora, a ferramenta pode participar de praticamente todas as etapas da interação.
Chatbots também viram confidentes
A discussão ganha outra dimensão quando a inteligência artificial deixa de ajudar apenas na paquera e passa a ser utilizada como fonte recorrente de companhia e apoio emocional.
Um estudo internacional publicado em agosto de 2026 na revista Technology in Society, com mais de 7 mil participantes de Alemanha, China, África do Sul e Estados Unidos, identificou algum grau de apego emocional a chatbots em mais de 35% dos entrevistados. Para aproximadamente 21%, esses sistemas apareceram como primeira opção para compartilhar segredos.
Pesquisas sobre plataformas desenvolvidas especificamente para oferecer companhia virtual também têm analisado a formação de vínculos entre usuários e sistemas de inteligência artificial, incluindo relações percebidas como próximas de amizade e companheirismo.

O fenômeno cria uma situação inédita para muitos relacionamentos: um dos parceiros pode passar a compartilhar diariamente preocupações, inseguranças e segredos com um sistema de IA que não são necessariamente divididos com a pessoa com quem mantém uma relação.
“Há alguns anos, ninguém precisava conversar sobre qual era o limite aceitável de intimidade com uma inteligência artificial. Agora precisa”, afirma Bittencourt.
Segundo ele, o problema pode aparecer quando o chatbot se transforma na principal referência emocional do usuário.
“Se uma pessoa conversa todos os dias com um chatbot, compartilha segredos que não conta ao parceiro e busca conforto emocional nele, começa a surgir uma discussão sobre qual espaço aquela tecnologia passou a ocupar na relação”, explica.
IA pode ser considerada uma terceira pessoa?
Não existe uma regra universal sobre quando a interação com inteligência artificial ultrapassa os limites estabelecidos dentro de um relacionamento. Assim como ocorre com outras formas de interação, a percepção pode variar entre os casais.
Para Bittencourt, esse deve se tornar um assunto cada vez mais presente nas relações à medida que chatbots se tornam mais sofisticados e integrados à rotina.
“Traição nunca foi apenas uma definição técnica. Cada casal constrói seus limites. Para alguns, conversar emocionalmente com uma IA não vai significar nada. Para outros, esconder uma relação íntima e recorrente com um chatbot pode ser percebido como quebra de confiança”, avalia.
Nesse cenário, conversas sobre o uso da tecnologia podem passar a integrar os acordos estabelecidos pelos próprios casais, da mesma maneira que hoje existem diferentes limites relacionados a redes sociais, aplicativos de relacionamento e contato com outras pessoas.
Apesar das mudanças provocadas pela tecnologia, o especialista avalia que aspectos tradicionais das relações continuam no centro da discussão.
“Podemos mudar aplicativo, algoritmo, forma de conhecer alguém e até deixar uma inteligência artificial participar da conversa. Mas relacionamento continua sendo relacionamento, humano. Se não existe clareza sobre quem você é, o que procura e o que está disposto a oferecer emocionalmente ao outro, nenhuma tecnologia resolve”, conclui.
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