O lançamento do livro “Na linha bamba”, de Carlos Rodrigues de Faria, ocorrido em setembro deste ano na Bienal do Livro de São Paulo, trouxe à tona sua trajetória profissional nas artes gráficas e um retrato dos primeiros anos de Goiânia. A obra chegou às prateleiras poucos meses após a morte do autor, ocorrida em maio deste ano, em Brasília, quando ele tinha 92 anos.

Em entrevista ao Jornal Opção, o jornalista Adriano Faria, filho do autor, contou sobre a gênese do projeto e as lembranças que o pai deixou registradas. Conforme relatou, seu pai sempre gostou de escrever, e essa habilidade levou alguns de seus irmãos a incentivá-lo a publicar um livro sobre histórias da família. Ele começou com textos sobre a infância, a entrada no mercado de trabalho e “causos” envolvendo seus pais e irmãos. Algumas dessas passagens eram contadas por ele e pelos tios de Adriano em reuniões familiares.

Como trabalhou em gráficas, Carlos Faria imprimiu e encadernou alguns exemplares em casa, distribuindo-os a parentes em 2013. Contudo, foi apenas no final de 2025 que decidiu enviar o material a uma editora. “O resultado está aí, mas pena que ele morreu meses antes de o livro ficar pronto”, lamentou Adriano.

A infância na capital goiana faz parte da obra. A família chegou a Goiânia em 1937 e, de acordo com Adriano, o pai falava do antigo bairro Botafogo (hoje Setor Leste Universitário), onde foram morar na única casa de uma viela que terminava na Avenida Anhanguera. “O garoto pobre não tinha brinquedos e, maltrapilho, brincava com os irmãos e os amigos nas imediações do Córrego Botafogo. Por isso, anos depois, já com filhos e netos, meu pai não escondia a emoção ao relatar que, numa véspera de Natal no final dos anos 30, a criançada foi ao Palácio das Esmeraldas e ele ganhou um caminhãozinho de brinquedo e uma muda de roupa entregues pela primeira-dama de Goiás, dona Gercina, mulher do interventor do estado, Pedro Ludovico”, relata Adriano.

A trajetória profissional nas artes gráficas também ganha destaque, como cita Adriano. O primeiro emprego de Carlos numa gráfica foi em O Estado de Goiaz, um jornal semanal de quatro páginas. Ainda adolescente, ele recebia um texto datilografado (que podia ser uma reportagem ou um anúncio) e, a partir daí, montava palavras e frases em caixas que serviam de base para a composição de uma página. “Com o tempo, já na Folha de Goiaz, papai se lembrava dos desafios em manusear as máquinas linotipo, as pesadas geringonças de composição tipográfica que usavam tipos móveis e chumbo. Ele contava que um dos eventos mais temidos pelos linotipistas era a chumbada, quando o metal fundido espirrava no operador. O trabalho de composição do jornal era noturno, para que os exemplares estivessem prontos para a distribuição às bancas na madrugada seguinte”, disse.

A obra também aborda episódios bastante pessoais, como a história do pai de Carlos, que mantinha duas famílias, e a busca por um antepassado do século XVII perseguido pela Inquisição Portuguesa. Segundo Adriano, o antepassado foi “descoberto” por um sobrinho de seu pai que tinha fascinação em mapear a genealogia da família. Esse primo, já falecido, fez várias pesquisas em bibliotecas e arquivos públicos, incluindo uma incursão na biblioteca de Pirenópolis.

Outras histórias foram contadas pelos avós de Adriano a Carlos que, por sua vez, as transmitiu para filhos, sobrinhos e netos. Uma delas relata uma tensa passagem da Coluna Prestes, em 1925, pela fazenda onde a família morava antes da mudança para Goiânia. “São histórias de superação e resiliência, um traço marcante da vida e da personalidade de Carlos Rodrigues de Faria”, afirmou Adriano.

Nascido em 1934 numa fazenda no município de Luziânia, em Goiás, Carlos mudou-se aos 3 anos com a família para Goiânia, então recém-inaugurada. Começou a trabalhar aos 13 anos como tipógrafo e acumulou mais de quarenta anos de carreira nas artes gráficas. Trabalhou em jornais antes de entrar para o Serviço Gráfico do Senado, em 1965, onde permaneceu até a aposentadoria, em 1991. Formou-se em Comunicação Social, atuando no jornalismo e na publicidade.

Em outro trecho da obra, ele relembra a transição para Brasília:

“Minha produção, como linotipista do Correio Braziliense, melhorou logo que saí da máquina Modelo 8 para uma 31. Não me lembro se na época o chefe de oficina era ainda o que me testara em duas ocasiões ele cumpriu integralmente o aviso prévio e foi o último a deixar o Correio pelo Serviço Gráfico do Senado se foi um paginador que logo o substituiu e me ofereceu a outra máquina. Não importa. O fato é que não continuei no Modelo 8. Comecei, daí, a me relaxar, a me enturmar, não ligando para as desigualdades cultural e regional do meio, próprias de Brasília no início, destituída do badalado calor humano. Conseguia viver na nova capital da República quem suportasse a solidão e outros percalços da cidade recém-nascida. Assim, só voltei a Goiânia para pedir minha exoneração da Imprensa Oficial do Estado de Goiás”.

O título do livro remete justamente ao equilíbrio necessário diante dos imprevistos da existência, um relato marcado pela resiliência e pelo desafio constante de se manter “na linha bamba”. A obra está à venda pela Editora Labrador e pela Amazon.

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