O perigo dos atalhos

“A leitura é cada vez mais diagonal. Superficial. Na ânsia por absorver mais conteúdo em menos tempo, emerge o perigo”

*Flávio Buonaduce

Vivemos o auge da fugacidade. Chegamos à era da informação rápida e efêmera. Notícias e opiniões são reduzidas a 140 caracteres e, muitas vezes, um texto cede lugar a imagens. A leitura é cada vez mais diagonal. Superficial. Na ânsia por absorver mais conteúdo em menos tempo, emerge o perigo.

Nesse ínterim de velocidade e ilusão, surgem cursos técnicos, com status de graduação, com proposta de serem práticos e breves. No entanto, muitos escondem deficiências e acabam por seduzir e ludibriar jovens que tanto almejam um espaço no mercado de trabalho, cada vez mais exigente e competitivo.

Em abril deste ano, o Ministério da Educação, atendendo a pedido de uma instituição de ensino do Paraná, autorizou a abertura do curso superior de tecnologia em serviços jurídicos. Com escopo de formar profissionais para carreiras adjuntas ao Poder Judiciário, o programa de ensino – extremamente enxuto – promete ensinar as rotinas de cartórios extrajudiciais e judiciais, escritórios de advocacia e órgãos públicos. A que preço?

Após dois anos de curso, em média, e considerável investimento financeiro nas mensalidades, serão formados profissionais que não poderão atuar como advogados ou operadores do Direito. O campo de sua atuação será extremamente limitado, assim como as possibilidades de seu crescimento profissional. Além de não levar este bacharel a um exercício profissional pleno, é desonesto vender a ele o sonho de um caminho mais curto, mas que, na verdade, fica aquém do almejado.

Todo o percurso acadêmico precisa ter a chancela da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). No País, estima-se que há cerca de 1 milhão de advogados e apontamentos diversos sugerem que o número de bacharéis – aqueles que não foram aprovados ou não se submeteram ao exame da ordem – seja, no mínimo o dobro. Isso significa que há, pelo menos, 2 milhões de pessoas com formação em Direito que não podem advogar e que acabam se submetendo a carreiras auxiliares com baixa remuneração.

O mercado nacional está extremamente saturado. O número monstruoso de faculdades de Direito no País supera 1,2 mil, enquanto Estados Unidos, China e a Europa inteira somam 1,1, mil. Ao invés de efetivamente fiscalizar os cursos já em funcionamento, o MEC contribui para o crescimento do número de bacharéis que não conseguem se inserir nas principais carreiras jurídicas, com a autorização para esse novo curso, de tecnólogo jurídico. E se já não há espaço ao sol para todos, pergunto-me, qual será o lugar dos tecnólogos? Aliás, haverá lugar?

*Flávio Buonaduce Borges é advogado, professor do curso de Direito da UFG

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