“O ‘mito’ tem herdeiro? Pesquisador goiano analisa Bolsonaro e Flávio em livro
12 setembro 2026 às 11h13

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João Paulo Teixeira
Especial para o Jornal Opção
Jair Bolsonaro pode estar fora da disputa direta pelo Palácio do Planalto, mas uma das principais questões da eleição de 2026 permanece ligada ao seu nome: até que ponto o capital político construído pelo ex-presidente pode ser transferido ao filho Flávio Bolsonaro?
A resposta pode estar menos nos partidos, nas alianças ou até mesmo nas propostas apresentadas durante a campanha e mais em algo construído ao longo de anos: a imagem.
É justamente esse processo que o pesquisador goiano Jorge Cordeiro analisa no livro “A Invenção do Mito — A Construção Visual de Jair Bolsonaro”. Fruto de uma dissertação de mestrado apresentada à Universidade Federal de Goiás (UFG), a obra investiga como símbolos, fotografias, gestos e episódios da trajetória do ex-presidente contribuíram para transformar um político em personagem.
Essa construção ajuda também a entender o desafio enfrentado agora por seu filho.

O patrimônio político de Bolsonaro
Durante a campanha presidencial de 2018, Bolsonaro não dependia apenas do discurso. A camisa da Seleção Brasileira, a continência, a bandeira nacional, as motocicletas, o gesto da arma, a linguagem informal e as aparições cercado por apoiadores formavam uma narrativa visual facilmente reconhecida.
Separadamente, esses elementos poderiam parecer banais. Repetidos e associados ao mesmo personagem, passaram a representar valores como força, patriotismo, enfrentamento e oposição ao sistema.
É nesse ponto que Jorge Cordeiro aproxima a trajetória de Bolsonaro da chamada “jornada do herói”, conceito popularizado pelo mitólogo Joseph Campbell.
Na narrativa clássica, existe um personagem que deixa seu mundo comum, enfrenta inimigos, passa por provações, corre riscos e retorna transformado.
A política de 2018 ofereceu vários desses elementos.
Bolsonaro se apresentava como alguém disposto a enfrentar o sistema, a corrupção, o PT, o comunismo e a criminalidade. Para a narrativa funcionar, havia um personagem e também seus antagonistas.
A facada fortaleceu a narrativa
A facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha de 2018 acrescentou à construção política um elemento particularmente poderoso.
O candidato que afirmava estar enfrentando inimigos passou a carregar no próprio corpo a marca desse confronto. Apareceu ferido, hospitalizado e vulnerável, mas sobreviveu e retornou à disputa.
Dentro da lógica estudada por Campbell, a sequência se aproxima da provação enfrentada pelo herói antes de seu retorno.
A imagem do militar também se misturou àquela do homem comum, do pai de família e do político que falava sem a formalidade tradicional de Brasília.
Bolsonaro venceu aquela eleição com campanha fortemente concentrada nas redes sociais e apenas oito segundos de propaganda eleitoral na televisão.
O problema é que imagens também envelhecem
A mesma lógica que ajuda a explicar a ascensão de Bolsonaro também permite compreender um dos problemas enfrentados pelo bolsonarismo anos depois.
Uma imagem política precisa ser constantemente renovada.
O poder depende de cenas, gestos e símbolos capazes de reafirmar aquilo que o personagem representa. A motociata, a multidão, a bandeira sobre os ombros, as lives e a informalidade ajudaram Bolsonaro durante determinado período.
Mas uma imagem não permanece sob controle de quem a criou.
Fotografias circulam, são recortadas, transformadas em memes e reinterpretadas por aliados e adversários. As mesmas redes sociais que ajudaram a construir um personagem também podem desconstruí-lo.
Para alguns brasileiros, Bolsonaro permanece associado às imagens de patriota, militar, pai de família, perseguido e político disposto a enfrentar o sistema. Para outros, essas mesmas imagens passaram a representar autoritarismo, incompetência ou radicalização.
E quando o herói não completa a jornada?
É justamente nesse ponto que surge uma das questões mais interessantes levantadas pelo estudo.
Na jornada descrita por Campbell, o herói não precisa apenas enfrentar provações. Ele precisa retornar.
Bolsonaro continua politicamente relevante, mobiliza milhões de eleitores, influencia candidaturas e permanece capaz de produzir paixões e rejeições. Mas o personagem político e o mito construído em torno dele não são necessariamente a mesma coisa.
As imagens mais recentes podem, inclusive, entrar em conflito com aquelas responsáveis pela construção original.
Durante anos, Bolsonaro foi apresentado como o político que enfrentava o sistema e não recuava diante dos adversários. Quando passa a aparecer submetido às regras e aos enquadramentos das instituições que antes confrontava, a narrativa também se modifica.
O personagem continua existindo. A questão é saber o que acontece com o mito.
Flávio consegue vestir a mesma camisa?
Esse problema ganha uma dimensão ainda maior em 2026.
Sem Bolsonaro diretamente na disputa presidencial, parte de seu patrimônio político precisa ser transferida a outro personagem. E o escolhido é Flávio Bolsonaro.
Só que votos podem ser transferidos com apoio político. Uma identidade visual e simbólica é mais difícil de herdar.
O eleitor que enxergava no pai o militar, o sobrevivente da facada, o político desbocado, o homem das motociatas e o candidato antissistema necessariamente enxergará essas mesmas características no filho?
Essa talvez seja uma das grandes perguntas da campanha.
O próprio estudo de Jorge Cordeiro ajuda a compreender a dificuldade. A força de Bolsonaro não foi construída apenas por aquilo que ele dizia. Foi formada pela combinação entre trajetória pessoal, acontecimentos, símbolos e imagens repetidos durante anos.
Flávio pode receber o apoio do pai, utilizar símbolos semelhantes e herdar parte do eleitorado bolsonarista. Mas reproduzir o personagem é outra questão.
De guerreiro a mártir
Existe ainda outra possibilidade.
O mito político de Bolsonaro pode não desaparecer, mas mudar de função.
O guerreiro pode se transformar no perseguido. O candidato pode virar cabo eleitoral. O personagem impedido de disputar pode apresentar o filho como responsável por concluir uma missão interrompida.
Nesse cenário, Flávio não precisaria necessariamente substituir Bolsonaro. Poderia ser apresentado como continuador de sua jornada.
A força dessa estratégia dependeria, porém, do reconhecimento do eleitor.
Como ajuda a explicar o sociólogo Max Weber, o carisma não é um patrimônio guardado indefinidamente. Ele depende do reconhecimento contínuo daqueles que enxergam determinado líder como excepcional.
E talvez esteja aí o maior desafio para qualquer herdeiro político de Bolsonaro.
É possível receber seu apoio, seu eleitorado e até seus símbolos. Mais difícil é herdar o personagem que levou anos para ser construído.
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