Giordano de Souza, chefe do Gabinete de Assuntos Internacionais do Governo de Goiás


Mais de 17 mil quilômetros, pelo menos três voos e 12 horas de diferença de fuso horário separam o Brasil do Timor-Leste, um pequeno país, com cerca 1,3 milhão de habitantes, localizado no Sudeste Asiático.

Contudo, apesar da distância e de ainda ser pouco conhecido pela maioria dos brasileiros, o Timor-Leste compartilha com o Brasil o mesmo idioma, o Português, e a característica de ter sido, no passado, uma colônia de Portugal, além, é claro, dos laços de amizade.

Na última semana, o Timor-Leste ficou mais próximo de Goiás, com a agradável visita da embaixadora Maria Ângela Carrascalão. Professora universitária e ex-ministra da Justiça em seu país, ela chegou ao Brasil há poucos meses com a missão de intensificar nossas relações.

Recebemos a embaixadora Carrascalão para uma reunião de trabalho com representantes de diversas pastas do Governo de Goiás e acompanhamos sua agenda em instituições de ensino e entidades do setor produtivo.

Os mais céticos poderiam se perguntar quais seriam os resultados práticos, para além da cordialidade diplomática, de uma visita como essa. Tenho certeza que quem esteve presente na palestra para alunos de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) está com a resposta na ponta da língua.

Com apenas 22 anos de independência, comemorada neste 20 de maio, após séculos de colonização portuguesa e décadas de ocupação da Indonésia – período marcado por constantes violações de direitos humanos -, o Timor-Leste é um dos países mais jovens do mundo.

Ao falar sobre essa história dolorosa e a ainda vigente construção de um Estado praticamente a partir do zero, da qual Goiás se colocou à disposição para contribuir com o que estiver ao seu alcance, a embaixadora se emocionou e impactou a todos. Foi difícil encontrar alguém que não estivesse com os olhos cheios de lágrimas.

É importante registrar que a independência do Timor-Leste contou com a participação direta de um dos maiores brasileiros de todos os tempos, o diplomata e humanitário Sérgio Vieira de Mello, que chefiou a Administração Transitória da Organização das Nações Unidas (ONU).

Durante sua palestra, a embaixadora Carrascalão explicou como foi providencial ter líderes certos na hora certa. Acima de tudo, líderes capazes de reconhecer que, em um conflito, todos os lados precisam ceder para alcançar a paz. E que, quando houver paz, o perdão deve prevalecer em relação à vingança.

O Timor-Leste, dessa forma, se tornou um exemplo para todo o mundo. Um exemplo de que o diálogo e a diplomacia dão certo. O processo, que não foi simples e muito menos rápido, teve um alto custo – não só financeiro, mas principalmente humano. Porém, a existência desse país nos prova que é possível, sim, ser idealista e, ao mesmo tempo, atingir resultados práticos.

No ápice da ocupação, era quase inimaginável conceber uma coexistência pacífica entre Timor-Leste e Indonésia, assim como, na Segunda Guerra Mundial, poucos acreditavam que, um dia, França e Alemanha resolveriam suas pendências e se integrariam a ponto de haver uma livre circulação de pessoas e mercadorias.

Às vezes, no calor do momento, é realmente difícil enxergar saídas. Quando olharmos para as questões que afligem o mundo hoje, lembremos do grande exemplo do pequeno Timor-Leste. Isso vale para as relações internacionais e também para nossas vidas.

* Giordano de Souza possui graduação em Relações Internacionais e em Ciências Econômicas pela PUC São Paulo e em Direito pela PUC Goiás. Especialista em Gestão Estratégica de Marketing pela FGV. Mestrando em Desenvolvimento Regional pela UniAlfa. Desde 2019 é Chefe do Gabinete de Assuntos Internacionais do Governo de Goiás