“O apagão não é de candidatos, mas de quem quer dar aula”, diz Fátima Gavioli sobre falta de professores
15 outubro 2026 às 08h00

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Comemorado em 15 de outubro, o Dia dos Professores traz uma reflexão sobre os desafios de uma profissão que parece atrair cada vez menos jovens, conforme aponta um levantamento divulgado no mês passado pelo Instituto Semesp. Entre 2015 e 2023, o número de docentes com até 24 anos caiu 31,1%, passando de 17 mil para 12 mil. Em contrapartida, entre os profissionais com 60 anos ou mais, houve um crescimento de 104,5%, passando de 18 mil para 37 mil. Os dados acendem um alerta para o risco de um possível “apagão” de professores no Brasil.
Entretanto, para a secretária de Estado da Educação de Goiás, Fátima Gavioli, o Estado não enfrenta esse risco. Na avaliação dela, o principal problema não está na falta de candidatos interessados em ingressar na carreira docente, mas na dificuldade de encontrar profissionais dispostos a permanecer em sala de aula.
“Não vejo que está tendo um apagão de candidatos nos concursos. Eu vejo que tem um apagão de quem realmente quer ir para a escola dar aula na prática.”
Segundo Fátima, a realidade encontrada pelos novos professores ao ingressarem na rede de ensino pode provocar desistências, mesmo após a aprovação em concursos públicos. Para ela, o choque entre as expectativas e os desafios enfrentados no cotidiano escolar é um dos fatores que levam profissionais a abandonar a carreira.
“Ele toma posse, vai para a escola, e aí tem duas coisas que acontecem: ou ele lida com questões emocionais, porque o choque é tremendo, ou ele pede exoneração. O cara passou, ganhou estabilidade, mas quando ele bate na sala de aula: ‘Peraí, não, não, não. Isso aqui eu não quero’. Então ele sai”, destaca.
A secretária ressalta que a profissão exige preparo para lidar com diferentes situações dentro do ambiente escolar. Nesse contexto, também criticou a formação de professores na modalidade de ensino a distância (EaD), especialmente quando não há preparação prática suficiente para enfrentar a realidade das escolas.
“O Brasil está sofrendo um desgaste muito grande com a modalidade EaD para educação. O professor vai lá, faz o curso totalmente por EaD e inclusive não tem estágio. Aí ele passa no concurso, toma posse, e agora? Agora ele tem que dar aula, mas a escola não ensinou ele a dar aula, a faculdade não ensinou ele a dar aula, ele não teve estágio”, avalia.
Atualmente, Goiás conta com 25.340 professores na rede estadual de ensino, dos quais 17.700 são efetivos, o equivalente a 69,85%, e 7.640 são contratados temporariamente, representando 30,15% do total.
Para reforçar que não há falta de interessados na carreira, Fátima relembrou concursos públicos realizados no Estado e destacou a quantidade de candidatos por vaga. Segundo ela, o desafio está em garantir a permanência dos profissionais após a posse.
“Primeiro, eu dei posse para 480 professores que tinham sido aprovados no concurso em 2017. […] Aí eu abro um concurso gigante, 5.050 vagas no Estado de Goiás. No concurso que eu fiz, deu três por um. Se abrisse hoje um concurso em Goiás para mais 5 mil vagas, você pode ter certeza que teria três por um novamente. Não vai faltar inscrito. Vai faltar depois da posse, quem é que fica e quem é que sai”, reforça.
Além disso, a secretária destacou a evolução salarial dos professores da rede estadual e as mudanças nas condições de trabalho. Segundo ela, em 2019, Goiás ocupava a 22ª posição no ranking nacional de remuneração dos docentes. Atualmente, o Estado estaria em quarto lugar.
“Em 2019, ele entrava com R$ 3.980. Aí ele dobrava, pegava mais 20 horas, ia para R$ 5.800. Ficava com 60 horas e dava 42 aulas. O professor toma posse hoje com um salário de R$ 5.180. Tem mais R$ 2 mil de regência, R$ 500 de alimentação e R$ 500 de auxílio. Chega a aproximadamente R$ 8.100. Se tiver mestrado, recebe mais 40%, chegando a cerca de R$ 10.400 na entrada. Isso é um salário baixo no Brasil hoje? Não é. Ele tem 40 horas, mas dá 30 aulas”, explica.
Tentativa de criminalizar o professor
Outro ponto levantado por Fátima Gavioli diz respeito às dificuldades enfrentadas pelos professores na relação com estudantes e familiares. Segundo a secretária, os conflitos presentes na sociedade também se refletem no ambiente escolar, especialmente diante da polarização ideológica e do enfraquecimento do respeito à autoridade dos profissionais da educação.
“Está acontecendo uma guerra ideológica tremenda, onde nós temos lados, alguns de um lado, outros de outro, e os lados se ofendem mutuamente. Se ela vê na família um desrespeito em relação a autoridades […] seu filho está assistindo tudo. Ele vai para a escola, por que ele tem que respeitar a autoridade do professor?”, questiona.
Fátima também demonstrou preocupação com o que considera uma tentativa de criminalização da atividade docente. Segundo ela, há situações em que professores são acusados por familiares de estudantes sem que tenham a oportunidade de apresentar sua versão dos fatos.
Para exemplificar, a secretária relatou um episódio envolvendo uma denúncia de bullying em uma unidade escolar, que resultou na abertura de um processo contra um profissional da educação. Ela afirmou ter ficado abalada com a gravidade das acusações apresentadas.
“Esses dias mesmo uma menina sofreu bullying dentro da escola e eles abriram um processo tão pesado contra o profissional que, quando eu li o processo, chorei. Falei: ‘Meu Deus, o que é isso?'”
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