Novo remédio para câncer de pâncreas mais que dobra sobrevida, mas não representa cura, alerta oncologista
28 agosto 2026 às 17h11

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A aprovação do daraxonrasib nos Estados Unidos representa uma nova alternativa para pacientes com câncer de pâncreas metastático, mas está longe de significar a cura da doença. Segundo o oncologista Carlos Tadeu Garrote, do Grupo Kora de Oncologia, o medicamento oral praticamente dobra a sobrevida mediana de pacientes que já passaram pela primeira linha de quimioterapia. “É importante deixar bem claro que não é uma cura, é só uma sobrevida”, afirma.
A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o medicamento na quarta-feira, 26, para determinados pacientes adultos com câncer de pâncreas metastático. Vendido no país com o nome comercial Rasonque, o daraxonrasib terá preço de tabela de aproximadamente US$ 39,8 mil por 30 dias de tratamento.
O medicamento é indicado, segundo o oncologista, principalmente para pacientes cuja doença deixou de responder à quimioterapia padrão. O tratamento atua sobre a via do RAS, uma importante rota de sinalização envolvida na proliferação e no crescimento das células tumorais.
“Ele inibe o RAS e, ao fazer esse bloqueio, diminui a proliferação celular. Com isso, a gente consegue reduzir e controlar melhor o câncer”, explica Garrote.
De acordo com o especialista, os resultados do estudo clínico mostram um aumento expressivo da sobrevida global. Entre os pacientes tratados após a progressão da doença, a sobrevida mediana foi de 6,7 meses com as opções convencionais, enquanto chegou a 13,2 meses com o daraxonrasib.
“É uma droga oral, muito mais fácil de tomar do que uma quimioterapia, que vai aumentar a vida do paciente de 6,7 para 13,2 meses”, destaca.
O oncologista ressalta, porém, que os números precisam ser interpretados dentro do contexto correto. O medicamento não é utilizado logo após o diagnóstico do câncer, mas depois que o paciente já passou pela quimioterapia inicial e a doença voltou a progredir.
“Primeiro fazemos a quimioterapia padrão. Quando a doença para de responder, aí começamos essa medicação. É nesse contexto, como segunda linha de tratamento”, explica.

Doença agressiva
O câncer de pâncreas está entre os tumores mais agressivos do aparelho digestivo. Em muitos casos, a doença é descoberta em estágio avançado, quando as possibilidades de tratamento são mais limitadas.
“É uma das doenças mais agressivas que nós temos na oncologia. A maioria das vezes, a única chance de cura continua sendo o tratamento cirúrgico”, afirma Garrote.
Para ele, o diagnóstico precoce continua sendo o principal caminho para aumentar as chances de cura. “A principal questão é tentar diagnosticar de uma forma precoce, porque não é um tratamento curativo. É um tratamento realmente paliativo”, destaca.
Aprovação nos EUA e chegada ao Brasil
O estudo que embasou a nova alternativa terapêutica foi apresentado no Congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO), realizado no primeiro semestre de 2026.
Com a aprovação da FDA, a expectativa agora é pela análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo Garrote, não há uma data definida para a chegada do medicamento ao mercado brasileiro, mas o processo pode levar aproximadamente quatro a 12 meses, considerando as etapas regulatórias e de precificação.

Após a aprovação da Anvisa, o medicamento ainda precisará passar pelo processo de definição de preço no Brasil. A expectativa, segundo o oncologista, é que o acesso inicial ocorra principalmente pelo mercado privado.
“No SUS, infelizmente, não existe nenhuma perspectiva de disponibilidade fácil. O acesso pode acabar acontecendo por via judicial”, pondera.
Garrote também chama atenção para o custo elevado do tratamento. Embora ainda não exista uma previsão oficial de preço no Brasil, o valor praticado nos Estados Unidos — cerca de US$ 39,8 mil por mês — indica que o acesso poderá ser restrito.
“É um medicamento que não é para todas as camadas da sociedade”, avalia.
Sintomas podem aparecer tarde
Outro desafio do câncer de pâncreas é a dificuldade de identificação precoce. Como o órgão fica na região posterior do abdômen, o tumor pode crescer sem provocar sintomas evidentes durante bastante tempo.
“Ele só dá sintomas tardios. Normalmente, quando aparecem os sintomas, já é um câncer que não consegue ser operado”, explica o oncologista.
Entre os sinais de alerta estão perda de peso, dor abdominal, diarreia e alterações repentinas no controle do diabetes. Segundo Garrote, um dos sintomas mais característicos é a icterícia, quando a pele e os olhos ficam amarelados.
“O paciente que fica amarelo tem que levantar a hipótese de câncer de pâncreas”, alerta.
Apesar do avanço representado pela aprovação do daraxonrasib, Garrote afirma que a novidade deve ser vista com cautela. “A gente comemorou bastante o resultado porque não tivemos nenhuma novidade efetiva nos últimos 10, 15 anos em câncer de pâncreas. Era uma doença muito órfã de tratamento”, conta.
“É uma droga que é melhor do que a quimioterapia padrão que nós temos, mas o paciente continua ainda com uma sobrevida global de cerca de 13 meses. Estamos bem longe, infelizmente, de prometer uma cura para essa doença”, conclui.
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