Modelo de integração humanitária fez o ensino integral em Goiás crescer 80%
11 março 2026 às 12h35

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Dados do Censo Escolar 2025 apontam que, embora o número de alunos no ensino regular em Goiás tenha diminuído, a procura e a oferta pela educação em tempo integral dispararam. O Estado contabiliza nada menos que 775 escolas estaduais com matrículas nessa modalidade, somando 84.230 estudantes que agora dedicam mais de sete horas diárias aos estudos.
Por trás desses números, encontra-se uma reestruturação pedagógica e administrativa liderada pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc-GO), que abandonou fórmulas prontas e passou a desenhar um modelo sob medida para a realidade goiana: a Jornada Ampliada.
A gerente de Educação Integral da Seduc Goiás, Bianca Kelly Verly Maia Pereira, explica que a semente do tempo integral foi plantada há quase duas décadas. “A educação em tempo integral começou no estado em 2006, com os anos iniciais e os anos finais”, relembra ela. A verdadeira expansão para o ensino médio, no entanto, começou a ganhar corpo em 2013, com a implantação dos primeiros 15 Colégios Estaduais em Período Integral (Cepi), onde os alunos enfrentavam uma jornada de nove horas e meia.
O impulso federal veio em 2016, com o Programa de Fomento às Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral (EMTI). No entanto, Bianca destaca que um gargalo dessa política nacional foi o foco exclusivo no ensino médio. “Os estados falavam pro MEC: ‘a gente não começa essa história no ensino médio’. Porque a gente não tinha esse estímulo para o fundamental”, argumenta.

A lógica era uma pergunta feita pela prática dos profissionais: como atrair um adolescente para uma jornada integral no ensino médio se ele passou os nove anos anteriores (do 1º ao 9º ano) em uma escola parcial de quatro horas?
A inflexão decisiva ocorreu em 2019, com a atual gestão do governador Ronaldo Caiado e da secretária Fátima Gavioli. O estado decidiu bancar a expansão com recursos do Tesouro Estadual. “A secretária falou: ‘é meta do plano nacional, do plano estadual, nós temos que cumprir. Vamos continuar avançando com recurso do Tesouro’”, relata Bianca.
O resultado foi uma implantação massiva: em 2022, 94 escolas foram convertidas para o tempo integral com dinheiro do próprio estado, abrangendo não só o ensino médio, mas também os anos finais do fundamental, criando uma fluidez educacional que prepara o aluno para a jornada estendida antes da chegada ao ensino médio.
O nascimento da Jornada Ampliada
Com a meta de continuar expandindo, a Seduc-GO esbarrou em um novo desafio em 2024. A conversão total de escolas para o modelo Cepi já não era viável nem desejável em muitos municípios. “Nós temos escolas únicas no município, a gente não pode ter apenas a oferta do tempo integral”, pondera Bianca. Em algumas comunidades, a população simplesmente não adere ao modelo integral, seja por questões culturais ou pela necessidade de os jovens trabalharem fora do horário escolar.
Foi nesse contexto que a secretária Fátima Gavioli idealizou uma solução híbrida e inovadora: o programa Jornada Ampliada. Diferente do Cepi, a escola não precisa ser totalmente convertida, mas pode ofertar turmas específicas em tempo integral dentro de uma unidade de ensino parcial.
Isso permitiu uma capilaridade social, chegando a escolas como o Olavo Bilac, em Goiânia, que oferece turmas de automação e manutenção automotiva em jornada de sete horas, ou o Zico Monteiro, em Uruana, uma escola única no município que agora conta com três turmas integrais.
O conceito foi além, abraçando a diversidade cultural e social do estado. “A gente percebeu que existem várias formas de se ofertar a educação integral”, afirma Bianca. Um exemplo dessa flexibilidade é a inclusão das escolas indígenas, quilombolas e do campo no programa desde o ano passado.
A estrutura do novo ensino vai além da sala de aula
Com todas essas horas e preparo, uma dúvida comum pode surgir: o que esses alunos fazem durante todo esse tempo na escola? A resposta está em um currículo desenhado para desenvolver o protagonismo juvenil e o projeto de vida. Bianca detalha que o modelo vai muito além das disciplinas tradicionais.
Nas escolas de nove horas e meia, os alunos têm nove aulas diárias, integrando a base nacional comum com a parte diversificada de forma orgânica. Nas escolas de sete horas, são sete aulas, mas sempre garantindo o tripé: três refeições diárias de qualidade.
O coração pedagógico do modelo, no entanto, bate no desenvolvimento pessoal. “Goiás é referência no acolhimento”, destaca Bianca. Alunos de escolas integrais de outros estados vêm a Goiás para aprender a metodologia de acolhida, que é feita por estudantes para estudantes. No primeiro dia, o calouro participa do “marco zero” do seu projeto de vida.
Atividades como o “varal dos sonhos” muitas vezes revelam a realidade de jovens que não conseguem projetar um futuro porque nunca foram estimulados a isso.

“O professor de projeto de vida trabalha no 1º ano do ensino médio o ‘quem sou eu’. No 2º ano, o plano para o futuro”, explica. Ferramentas como o “livro da vida”, que fica guardado no armário do aluno na escola, permitem uma reflexão íntima e contínua sobre sua trajetória.
Somam-se a isso as práticas experimentais (duas vezes por semana em laboratórios de química, física ou biologia), as eletivas (aprofundamento temático semestral), a preparação pós-médio e os clubes juvenis, onde os próprios estudantes lideram atividades baseadas em seus interesses.
O fator de permanência: Bolsa Estudo e Tecnologia
Manter o aluno na escola integral também exige incentivos tangíveis. A principal ferramenta nesse sentido é o Bolsa Estudo, programa que beneficia todos os estudantes do 9º ano e do ensino médio da rede estadual. Para os alunos do tempo integral, o valor é maior: R$ 150,00 mensais, contra R$ 130,00 do parcial.
Mas o dinheiro não é um fim em si mesmo. “Ele tem que ter frequência, tem que ter nota. Isso estimula a permanência”, reforça Bianca, lembrando que o auxílio é condicionado ao desempenho e à assiduidade. Além disso, todos os estudantes do 9º ano e do ensino médio recebem Chromebooks, e as escolas são equipadas com laboratórios, kits de robótica e projetores.

“A robótica não é uma aula, é um método”, esclarece a gerente, explicando que a tecnologia é transversal, usada nas eletivas, nas práticas experimentais e até nos clubes juvenis. O objetivo é dar ao professor as ferramentas para tornar o aprendizado mais dinâmico e conectado com o mundo contemporâneo.
Impacto humano se estende para os resultados
O sucesso do modelo pode ser medido em números, mas são as histórias que revelam sua profundidade. Bianca compartilha relatos emocionantes de estudantes que, ao precisarem mudar de cidade, só aceitam a transferência se for para outro Cepi. “Tem estudante que chora porque tem que sair daquela escola”, conta.
Essa identificação com a escola é construída dia após dia, inclusive no refeitório. “Até o horário da refeição é um horário formativo. Tem aluno que a refeição que ele vai ter na escola vai ser a única que ele vai ter no dia”, lembra Bianca.

Para garantir que o modelo não se desvirtue, a Seduc mantém um monitoramento constante. Se uma escola não seguir os padrões de acolhimento ou de horários (como separar rigidamente o que é “turno” e “contraturno”), a equipe pedagógica vai a campo para oferecer formação e apoio. “A gente olha o horário da escola porque é um modelo pensado para o desenvolvimento do estudante”, afirma.
A secretária de Estado da Educação, Fátima Gavioli, resume o espírito da iniciativa ao afirmar que “uma escola de tempo integral traz espírito de aprendizagem e oportuniza ao aluno poder decidir seu projeto de vida”.
Saindo do discurso e partindo para a prática, Goiás não só atingiu como ultrapassou a marca de 80% de suas unidades escolares com oferta integral. A receita, ao que parece, não está no volume de horas, mas na qualidade da integração: entre o fundamental e o médio, entre a teoria e a prática, entre a tecnologia e a cultura, e, acima de tudo, entre a escola e a vida do aluno.
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