Moda com alma: empreendedoras apostam na economia criativa e tentam mudar consumo na capital

Em busca de liberdade para criar, empresárias goianas deixam mercado tradicional e investem em marcas próprias, criando conceitos e experiências diferenciadas

Thais Lemos na porta de sua loja, a Thaê, cuja vitrine segue a temática das coleções criadas pela estilista. Na foto, as peças da última, feita em parceria com artista de rua goiano | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Thais Lemos na porta de sua loja, a Thaê, cuja vitrine segue a temática das coleções criadas pela estilista. Na foto, as peças da última, feita em parceria com artista de rua goiano | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

O conceito de economia criativa tem, cada vez mais, se popularizado em todo o Brasil. Em novas lojas, galerias e restaurantes diferentes e com alto teor autoral, pessoas que têm talento em determinada área resolvem fazer dele o seu ganha-pão. Em busca de liberdade de criação, muitos profissionais deixam o mercado tradicional, empreendem e moldam, pouco a pouco, a estrutura do consumo e da produção na capital.

O Jornal Opção falou com três empreendedoras que resolveram montar sua marca, criaram produtos exclusivos e com identidade própria e hoje promovem essas mudanças na moda goiana. Em comum, a origem – confecções e lojas de roupas – e a vontade de criar e ter seu negócio. Tudo isso agregado principalmente a três conceitos: Economia criativa, economia regional e consumo consciente.

Estes pontos são elencados logo no início da fala de Thais Lemos, dona da loja Thaê, que vende roupas para atacado e varejo. Ao longo da história da marca, ela viu a identidade do negócio se voltar para essas áreas e resolveu levantar a bandeira. Agora, aposta em parcerias com artistas goianos, além de se preocupar em fazer o dinheiro girar no próprio estado, empregando costureiras, fotógrafos e modelos que são de Goiás.

Para ela, tudo começa no conceito de consumo consciente. “As pessoas perguntam: ‘Nossa, mas você faz roupa e está falando de consumo consciente, como assim?'”, conta ela. “Eu não quero deixar de vender, eu quero que as pessoas comprem sabendo o que estão comprando, de onde vem essa roupa, sabendo que ela foi feita por pessoas.”

“O que eu queria mostrar pro cliente é que ele comprando no comércio local, de um estilista daqui, o dinheiro vai para a costureira, que paga a escola do filho dela, que compra no mercadinho, vai ao salão, o dinheiro está ali. De uma forma ou outra, volta pro cliente”, explica a designer. “Não foi pra China, comprando de um site e mandando o dinheiro para fora do país”, complementa.

Décio Coutinho, analista do Sebrae: "Economia criativa é a economia do século XXI" | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Décio Coutinho, analista do Sebrae: “Economia criativa é a economia do século XXI” | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

A concorrência com a China e outras lojas maiores é um grande desafio, principalmente pelo volume da produção e dos preços, mas, como aponta o analista do Sebrae Goiás, Décio Coutinho, a própria identidade da economia criativa oferece as ferramentas para lidar com a situação. “É o que nós chamamos de culturalização da economia: Você pode fazer uma cadeira que, em qualquer lugar do mundo, é igual. Ou você pode fazer uma cadeira que tenha alguma característica goiana”, exemplifica.

“O empreendedor se apropria de valores locais, tornando assim o produto diferenciado. Ele não vai competir de igual para igual com uma cadeira pasteurizada, que é fabricada aos milhares”, pontua. “É uma competição por qualidade e diferenciação, e não por preço. Ele comunica, através desse produto, um conceito, um valor.”

Juliana Cardoso, que comanda uma marca de acessórios que leva seu nome, concorda: “Essas marcas que estão dentro da economia criativa, normalmente têm um produto com alma, com personalidade, que tem toda uma história por trás”, destaca ela. “A gente, pequeno, não tem nunca como competir com a China, então se a gente não tiver um diferencial, que são esses valores que conseguimos agregar ao produto, é totalmente desleal, até pelo valor das peças. Como é uma produção pequena, acaba elevando os custos”, lembra a estilista.

Além da identidade única e do valor agregado, a própria experiência da compra, destaca Décio, influencia no sucesso dessa forma de economia. “Tem um diferencial, mas não só na questão final, mais do que isso: No próprio processo produtivo e de comercialização, na criação de experiências. Hoje, às vezes você entra em uma loja é uma boate, tem um DJ tocando, a luz, o som, o cheiro… Todos os elementos que hoje o comércio tradicional usa vêm da cultura e da criatividade”, lista. “Não é só o produto em si, mas todo o processo.”

A experiência do consumo, explica Thais, é um dos pontos mais importantes para ela no desenvolvimento de uma coleção. Além das peças e dos catálogos, ela se preocupa em decorar a vitrine de acordo com aquela temática. Pra a estilista, a Thaê é mais que um lugar para vender roupas e a montagem de sua loja envolve uma série de questões: Aconchego, decoração, tema, enfim, são lançamentos com conceito, como ela classifica.

Nesse sentido, as parcerias com outros estilistas e artistas goianos são mais que peças de roupa. A última, por exemplo, com o artista de rua Homero, foi além das camisetas: Thais organizou um evento de lançamento especialmente para a coleção e personalizou a vitrine da loja com obras dele.

Liberdade criativa

Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Com acessórios feitos por ela do início ao fim do processo, Juliana aposta no design diferenciado: “Se a gente não tiver um diferencial, a concorrência é totalmente desleal” | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

O conceito e o DNA próprio é o que norteia os empreendedores da economia criativa. Foi o caso de Juliana, que começou sua marca em julho de 2015, um ano e meio depois de se formar em moda e passar algum tempo trabalhando em uma loja de roupas de Goiânia. Para explicar o que a motivou, ela destaca principalmente a o desejo por liberdade criativa.

Hoje, é ela quem comanda tudo, desde a criação até a montagem final. O único processo terceirizado é o corte dos colares, pulseiras e brincos, que são feitos à laser. A gestão financeira, estratégica, de vendas e até a identidade visual e campanhas (para as quais ela posa junto com as amigas) são comandados pela estilista. Até por isso, ela optou por levar os negócios com calma, para ganhar experiência em áreas que não dominava, principalmente na área administrativa.

Focando nas vendas pela internet, Juliana mantém seu estoque pequeno e vai experimentando aos poucos, para saber como e para onde expandir. “Queria deixar as coisas crescerem organicamente, não quis fazer um plano de negócio super duro, quis deixar mais livre e ir testando o que dá certo ou não”, explica.

As áreas administrativas e de marketing, pontua Décio, são comumente apontadas como as maiores dificuldades dos empreendedores. “Na área da economia criativa, a gente percebe duas grandes demandas, a financeira e a de vendas, marketing e comunicação. Como estruturar o negócio, onde está o mercado, como eu formo preço”, comenta. “Em resumo, como fazer sua arte se sustentar e poder viver disso.”

O modelo de negócios atual, aponta ela, permite vender para outros lugares e atingir um público maior. No entanto, ressalta, o foco é manter a identidade goiana, preocupação primordial para ela. “Muita gente olha e acha, por exemplo, que é de São Paulo, não enxerga que eu que fiz”, explica, arriscando um palpite: “Não sei se é uma baixa-estima um pouco do goiano, de achar que o que vem de São Paulo é melhor”.

Deixando o mercado tradicional

Pahola Ferreira comanda sua própria marca de bolsas e mochilas, O Badulaque, há mais de um ano. Assim como Juliana e Thais, pediu demissão do emprego – ela trabalhava no marketing de um shopping de Goiânia – e, enquanto cumpria seu mês de aviso, colocou a mão na massa. Nesses 30 dias, criou a identidade visual, traçou o planejamento e fez fotos de divulgação.

O capital inicial da empresa veio com a ajuda da mãe, que fez dez mochilas para que ela pudesse começar a trabalhar. Demorou cerca de duas semanas para vender todo o estoque, com a ajuda de amigos e colegas de faculdade que ficaram interessados. “Todo mundo que comprava elogiava muito, indicava outra pessoa. Foi tudo sem pressão e nunca me arrependi de ter saído”.

Desde então, sua mãe ganhou o reforço de outra costureira e são as duas quem executam o trabalho manual, enquanto Pahola, que ainda não sabe costurar – mas pretende aprender – cuida da criação, divulgação, vendas e todo o resto. Hoje, conta, sua maior ferramenta é o Instagram, mas seus produtos diferenciados, feitos de retalho e, por isso, únicos, já chamaram a atenção de mercados maiores.

A Dafiti, loja online de roupas, acessórios e calçados, entrou em contato com ela que, agora, vende suas peças no site. O desafio é conseguir produzir para esta plataforma, que precisa de um estoque muito maior. Ela já pensa em soluções que não deixem de lado sua essência e, provavelmente, vai investir em tecidos reciclados para aumentar a produção.

A avó de Pahola sempre brincava: "Essa menina anda cheia de badulaque". Anos mais tarde, a frase foi eternizada no nome da sua marca de bolsas e mochilas | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

A avó de Pahola sempre brincava: “Essa menina anda cheia de badulaque”. Anos mais tarde, a frase foi eternizada no nome da sua marca de bolsas e mochilas feitas de retalho | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Novo consumo

Esta parceria, aponta Pahola, é importante porque o apelo da economia criativa na capital, na sua opinião ainda não é tão forte. “Tem uma cultura a ser mudada e as pessoas não compram muito essa ideia aqui em Goiânia”, lamenta. “É um público mais restrito e que às vezes não tem tanta condição financeira. Eles vêm, compram, levanta a bandeira, mas eles não vão comprar uma bolsa por mês, então eu tenho que ter uma rotatividade maior de clientes”, explica.

Thais concorda. “Eu tenho poucas clientes que entram na loja e falam: ‘Ah, vim comprar porque é fabricação própria'”. “Eu tenho esse cliente hoje. É bem menor, mas eu entendo que se eu continuar trabalhando isso, mostrar pro cliente que é fabricação própria, que eu sou designer, que não comprei a roupa em outra lugar, troquei a etiqueta e coloquei na loja, o cenário vai mudar”.

Apesar do mercado ainda estar se firmando, Juliana diz que novas marcas continuam a surgir. Para ela, o próprio cenário de crise pode explicar o número de novos empreendedores, já que algumas pessoas tentam empreender para aumentar a renda ou precisam mudar de área: “Eu não sei se isso tem influência da crise, mas é um mercado que está crescendo muito”.

Mesmo com o desafio de conquistar o público e conseguir manter a empresa, no entanto, as três são unânimes: Não se arrependeram de deixar os antigos empregos e seguem firmes no propósito de trabalhar no seu próprio negócio, criando novas coleções e investindo cada vez mais na diferenciação de seu produto.

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