Após ser maltratada e encontrada com ferida grave e sem uma das orelhas, a cachorrinha Fênix lutou durante quase um mês em busca de um lar que lhe desse amor e de sua própria cura, mas morreu nesta terça-feira, 1º. Enfrentando uma transfusão de sangue na UTI, uma infecção parasitária (miíase) causada por larvas de moscas na ferida aberta da cabeça e, depois receber alta desse primeiro quadro, ela teve o diagnóstico de cinomose, que acabou a levando. Apesar de todo esse sofrimento, a polícia informou que a ex-tutora do animal não terá aumento de pena pela morte de Fênix.

O falecimento da cadela ocorreu após uma rápida e severa recaída, conforme detalhou Michelle, protetora à frente do projeto independente “Patas com Propósito” (@patascompropositogo), que realizou o resgate. Ao Jornal Opção, ela contou que o diagnóstico da cinomose veio há cerca de duas semanas, e a cadela já enfrentava um quadro de anemia severa. Além disso, Michelle revelou que Fênix também estava com erliquiose, doença transmitida pelo carrapato. Por ser uma enfermidade infecciosa de alto risco, a animal precisou ser realocada para uma casa apropriada, já que nem todos os locais aceitam receber cães com essa condição. “De um dia para o outro, ela já não quis se levantar, se prostrou muito. E a gente desesperou”, desabafou. 

Levada com urgência à Clínica Veterinária Faro, Fênix ficou internada, recusou-se a comer e, no dia seguinte, sofreu uma convulsão da qual não se recuperou. “Em menos de 24 horas ela faleceu. Ela teve uma convulsão e foi medicada para controlar isso, mas nisso ela já não acordou mais. Ela morreu dormindo, o que nos conforta”, disse a protetora, visivelmente emocionada.

“A gente fez o possível por ela, mas realmente ela cansou, o corpo dela quis descansar. A gente não tem nem como culpá-la por isso”, disse Michelle, revelando que a cadela já tinha um adotante em vista e iria para Brasília ainda este mês, com tudo combinado. No entanto, conforme a protetora, a missão de Fênix ia além de encontrar um lar. “A missão dela realmente foi ser voz, fazer barulho para causa animal e o abandono. A omissão e a negligência matou ela.”

Michelle afirmou ainda que tem esperança de que a história da cachorrinha gere transformação. “Que através dela outras pessoas consigam denunciar esses maus-tratos. Outros animais vivem na mesma condição que ela viveu. Que as pessoas tenham mais consciência sobre como a compra de animais é uma forma de patrocinar essa atrocidade. Que elas tenham mais consciência sobre a adoção. E eu espero que a morte da Fênix não seja só mais uma, mas que ela sirva pra poder trazer esse alerta pras pessoas.”

Sobre os desdobramentos jurídicos, a delegada Simelli Lemes, titular do Grupo de Proteção Animal (GPA), esclareceu ao Jornal Opção que a ex-tutora continuará respondendo apenas por maus-tratos qualificados, mas sem a majoração prevista em caso de morte do animal. 

Segundo ela, o lapso temporal entre o resgate e a morte, somado ao fato de Fênix ter recebido alta da infecção primária (a miíase) e depois ter desenvolvido doenças supervenientes, inviabiliza a comprovação do nexo causal. “Não vamos pedir a necropsia para incluir a morte na responsabilização da tutora, porque seria difícil vincular a morte à conduta dela”, afirmou a delegada, acrescentando que aguarda a conclusão do laudo e a análise de imagens para “não deixar brechas para justificativas”. O inquérito tem prazo de 30 dias, prorrogável.

Relembre o caso

O resgate de Fênix foi motivado por um chamado nas redes sociais. Michelle explicou que, embora a alta demanda de casos geralmente impeça novos acolhimentos, a gravidade da situação não deixou alternativa. A equipe encontrou a cadela com uma lesão exposta na cabeça e sem uma das orelhas, em meio a evidente abandono. “O que mais chocou a gente, além da situação de que a cachorra já estava há mais de semanas na porta da própria casa, foi a questão de omissão e de negligência da própria tutora. Ela teve conhecimento desde o início sobre a situação da cachorra. Tanto é que ela colocou o animal para fora”, disse a protetora à época.

Vizinhos da região relataram que a residência já havia sido alvo de outras denúncias de maus-tratos e que os animais eram utilizados para procriação e venda de filhotes, sendo descartados quando deixavam de dar lucro. 

Até a última segunda-feira, 31, Michelle mantinha esperança, chegando a dizer que Fênix “segue sua luta sem muitas alterações até o momento, o que é uma benção”. A cadela, uma mistura de American Bully, aguardava um adotante e, em 20 de agosto, havia recebido alta após uma transfusão sanguínea para combater grave anemia. Na ocasião, a protetora explicou que o foco era cuidar da lesão na cabeça com curativos diários e aguardar a cicatrização por segunda intenção.

Apesar de todos os esforços da equipe do “Patas com Propósito” e da clínica veterinária, a cinomose (doença viral altamente letal em cães) mostrou-se implacável. O caso permanece sob investigação do GPA, que busca reunir provas para responsabilizar a ex-tutora pelos maus-tratos, ainda que sem o agravante da morte. 

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