Ana Paula Mendes conta que fez exame de corpo delito, mas que não registrou Boletim de Ocorrência por causa de feriado

Enviada via WhatsApp

Ana Paula Mendes dos Santos não consegue esquecer da tarde de última quarta-feira (28/3), quando foi presa por guardas civis metropolitanos porque decidiu protestar pela falta de atendimento médico. Conforme imagens, ela teve o braço torcido e o rosto pressionado ao chão. “Dói muito”, desabafa.

O Jornal Opção flagrou o momento em que a moça, aos gritos de dor, foi colocada primeiro no banco detrás da viatura e, ao tentar questionar o motivo da prisão e irritado um dos guardas, ser colocada violentamente no porta-malas.

Mesmo as algemas, os hematomas e o termo circunstanciado que teve que assinar sob acusação de desacato e desobediência não são maiores do que as dores de cólica renal que não a deixaram dormir.

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É que, ao invés de atender Ana Paula, foi mais cômodo para os funcionários da UPA pedir aos guardas que a retirassem do local, principalmente porque a situação dela não era diferente dos outros pacientes que esperavam não menos que cinco horas. Pelo menos 40 pessoas – pacientes e acompanhantes – se juntaram ao coro de protesto, mas se calaram depois que a jovem foi arrastada para os fundos da UPA.

No vídeo da prisão arbitrária, outros pacientes tentam ajudá-la. “É um absurdo isso, é um absurdo”, repetia a sobrinha Maria Angélica. “É uma falta de vergonha na cara. Solta ela, ela está com cólica de rins.”

Ainda sem atendimento para as dores, respondendo ao crime de desacato, a jovem não conseguiu registrar um Boletim de Ocorrência na Delegacia da Mulher por causa do feriado. “Eles pediram para eu voltar lá na próxima segunda-feira [2 de abril]. Mas já fiz o exame de corpo de delito. Quero denunciar porque eu fui agredida por dois guardas. Dois guardas homens”, avisa.

Mas o caso de Ana Paula não é exceção. Em unidades de saúde sem médicos, sem leitos e sem funcionários, a única saída é o grito. “A gente tem medo. Muitos enfermeiros já apanharam, mesmo assim não é justificável a guarda fazer isso”, diz uma técnica de enfermagem da mesma unidade em que Ana Paula saiu sem atendimento.

“A guarda fez certo”, minimizou uma funcionária do Cais Campinas. “Aqui a gente passa muito por isso. Eu presenciei há duas semanas uma médica ser ameaçada”, lembra.

Já uma enfermeira, que falou com o Jornal Opção pelo WhatsApp, comentou: “Ou a guarda leva à força, ou a gente apanha. A Prefeitura não dá estrutura, não dá. Estamos vivendo a pior crise da saúde.”

Leitores reagem

O caso, flagrado pelos repórteres do Jornal Opção, indignou leitores nas redes sociais. Em um dos comentários, uma internauta pergunta: “Esses ‘guardas’ não têm vergonha na cara não? Fazer isso com bandido, eles não têm coragem. Muito fácil fazer isso com uma mulher fragilizada com a dor. Falta empatia e discernimento com alguns profissionais da segurança.”

“A culpa não é dos Guardas Civis e sim da própria prefeitura que não está nem aí para a saúde em Goiânia. Nos Cais e postos de saúde, faltam de tudo, inclusive, médicos para atender milhares de pessoas todos os dias. Tem pessoas que se revoltam e com razão por não suportarem o descaso e a demora em serem atendidas, isso se conseguirem ser atendidas por algum médico nessa rede de saúde municipal e partem pra cima dos funcionários e todo esse abacaxi, sempre acaba sobrando para os Guardas Civis, que são obrigados a usarem á força”, escreveu outro leitor.

A Prefeitura de Goiânia anunciou nesta quinta-feira (29/3) que abriu um processo para investigar a detenção de uma paciente por guardas civis metropolitanos. Em nota, a prefeitura afirmou que repudia todo tipo de violência utilizada contra o cidadão. “Sobre o caso específico ocorrido na UPA Itaipu, informa que um processo foi aberto para que as devidas providências e punições cabíveis sejam tomadas”. diz o comunicado.