“Joga nas costas do paciente a escolha de usar um medicamento experimental”, diz diretor do CRF sobre cloroquina

O novo protocolo não obriga médicos a prescreverem a cloroquina, mas orienta seu uso

Diante do novo protocolo do Ministério da Saúde, que amplia o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para tratar pacientes da Covid-19 com sintomas leves, o Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO) adverte que os riscos podem ser maiores que os benefícios. Segundo o documento, para usar o medicamento, o paciente precisa assinar um termo de consentimento, que afirma expressamente que sabe que não há estudos conclusivos de que a cloroquina melhoraria seu quadro de saúde e conhece os inúmeros efeitos colaterais que o medicamento pode causar, como problemas cardíacos, disfunção do fígado e problemas de visão.

“O Ministério da Saúde se exime de responsabilidade e joga nas costas do paciente a escolha de usar um medicamento experimental”, critica Daniel Jesus, diretor secretário do CRF-GO. Daniel, que é mestre em farmacologia, explica que a cloroquina é um medicamento off label, sem comprovação científica e devida certificação, a prescrição fica por conta e risco do médico e, neste caso, também do paciente.

Segundo o farmacêutico, é importante analisar a relação risco-benefício. “Em um paciente inicial, com sintomas leves e que não está no grupo de risco, as chances de ter complicações com a Covid-19 são muito pequenas. Então, os efeitos colaterais do tratamento com cloroquina podem ser mais prejudiciais e graves que o novo coronavírus”, detalha. Daniel lembra que os efeitos colaterais da cloroquina são bem conhecidos, porque é um medicamento que já está no mercado há mais de 40 anos, mas os benefícios do tratamento para Covid-19 ainda estão em estudo e são inconclusivos. “O paciente vai saber escolher, tomado por medo e incertezas, se nem a própria ciência recomenda?”, questiona.

O uso da cloroquina, desde que médico e paciente assumissem juntos os riscos de efeitos colaterais, já havia sido autorizado pelo Ministério da Saúde. O protocolo se baseia em parecer técnico do Conselho Federal de Medicina, que autoriza a prescrição da cloroquina em caso excepcional e diante da falta de medicamentos eficazes para tratamento da covid-19, mas não a recomenda. A recomendação era do uso do tratamento apenas para casos graves, dentro dos hospitais, onde há estrutura para fazer o monitoramento do paciente caso ele apresente arritmia cardíaca, por exemplo.

O novo protocolo não obriga médicos a prescreverem a cloroquina, mas orienta seu uso, com a dosagem e o número de dias para o uso do medicamento de acordo com a gravidade. Apresenta ainda uma classificação de quais são os sintomas leves, moderados e graves da Covid-19. Também argumenta que ainda não há medicamentos com eficácia comprovada e que já há hospitais privados com protocolos próprios, então a ideia é ampliar o uso da cloroquina no Sistema Único de Saúde (SUS).

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