Só a indústria da multa garante a civilidade

Não temos mais tempo para esperar a conscientização espontânea do cidadão. É preciso que rigor na punição do bolso para garantir a qualidade de vida coletiva

Opção - LixoA chance de eu ser prefeito de Goiânia é improvável, se muita. Já fui candidato a vereador uma vez, uma experiência relativamente bem sucedida (em termos de vivência e também de proporção de votos em relação aos gastos), mas não sei se teria estômago para encarar alguns coleguinhas  — na Câmara de Vereadores e na Assembleia Legislativa há alguns nomes que, por justiça, deveriam estar lotados no complexo Odenir Guimarães, se é que me entendem.

Mas, supondo que eu fosse candidato… seria quase um anticandidato. Nada de prometer superviadutos ou asfalto 3D. Eu falaria de duas propostas bem simples. A primeira: cuidar da cidade como um síndico cuida de um condomínio. Aliás, prefeito não precisa prometer colocar intervenções mirabolantes, nem obras faraônicas que humilhariam Ramsés. Prefeito precisa cuidar do simples: coletar o lixo, limpar as praças, podar a grama dos parques, tapar os buracos, regularizar a sinalização das ruas, abastecer o posto de saúde, garantir a merenda dos alunos, pagar os servidores e punir situações irregulares. Enfim, zelar pela qualidade de vida do coletivo, ainda que com o choro de alguns. Como ocorre em qualquer prédio.

A segunda proposta seria amplicar o foco em um subitem da primeira: punir situações irregulares. Por uma questão cultural, não adianta pensar em “conscientização” por meio das escolas, propagandas institucionais e ações educativas. Talvez isso vá funcionar com as próximas gerações. Para a situação imediata, o brasileiro médio — e o goianiense é brasileiro — só entende a linguagem da multa. Sua conscientização passa pelo “prejuízo no bolso” de que tem medo o Samuel Blaustein do ator Marcos Plonka, na eterna “Escolinha do Professor Raimundo”.

Como prefeito, eu faria o maior concurso do País para fiscais (de postura, de trânsito, de meio ambiente etc.). Pelo que vemos em cada esquina da cidade — e falo então literalmente, sobre os carros que desrespeitam a distância mínima de recuo do cruzamento —, cada agente se pagaria pelo menos dez vezes apenas com seu trabalho. E com adicional de produtividade incluso.

A multa é um instrumento legal muito pouco aplicado por aqui. E ainda têm órgãos de imprensa que vêm falar em “indústria da multa”, no que político de oposição escora o discurso, aproveitando-se do jornalista/inocente útil. Vamos a um exemplo concreto: converse com qualquer um dos muitos que perderam pai, filho ou parente próximo na então sanguinária Rua 90 do início dos anos 2000, vítima de atropelamento. Pergunte-lhe se não gostaria que a “indústria da multa” de Antenor Pinheiro e Pedro Wilson tivesse surgido com alguns anos de antecedência. Desde que foram instalados os criticadíssimos fotossensores na via, nunca mais se ouviu falar de morte no trecho próximo ao Ipasgo e ao Hospital de Urgências. Mas disso ninguém faz questão de lembrar. O que cola (e colou, aniquilou a chance de reeleição do prefeito petista em 2004) é o discurso da “indústria da multa”. Preferem a indústria da impunidade — e depois reclamam da Justiça frouxa e do Código Penal arcaico.

Infelizmente, há poucos como Pedro Wilson naquela gestão, quando enfrentou também a sanha dos especuladores imobiliários e paralisou a famigerada expansão urbana. Que logo, porém, foi retomada por seu sucessor, Iris Rezende, inclusive com a absurda aquiescência com o surgimento de bairros gigantes como o Residencial Orlando de Morais, na região norte, a quilômetros do núcleo populacional mais próximo.

Claro, Iris sempre jogou para a plateia. Ele sempre foi o político tradicional, que se adequa aos costumes do povo, que não vai bater de frente e fazer o que deve ser feito se houver risco de prejuízo para a próxima eleição. Aparências, nada mais, já cantava uma música. E as consequências dessa aparência, ainda que Paulo Garcia teime em dizer que não (ou não dizer), estão hoje perturbando a sustentabilidade financeira e ambiental de Goiânia.

Iris não é exceção. A maioria absoluta dos políticos se preocupa mais com votos do que com o bem-estar da coletividade. Por causa das urnas, recusam-se a tomar medidas impopulares. São idólatras da indústria do voto, arquirrival da indústria da multa. Só que não temos tempo hábil para que a a população brasileira se conscientize espontaneamente de que precisa rever seus maus costumes. A crise hidroenergética está aí, para não me deixar mentir.

Acha que a coisa não é tão grave? Passe na região da Feira Hippie domingo à tarde para ver a faceta mais clara do descaso das pessoas com a saúde e com o meio ambiente. Lixo por toda a parte, papelão, restos de comida, centenas de sacolas esvoaçando por todos os rumos. Devem pensar que é para dar emprego ao gari.

Pela salvação deste megacondomínio chamado Goiânia, que venha a indústria da multa. O síndico Paulo Garcia poderia começar com esse processo (que virá, cedo ou tarde, graças à desobediência contínua do contrato social). Desgastado o prefeito já está. Tem pouco ou nada a perder. E se arriscaria, veja só, a ganhar pontos, pelo menos com a parte mais consciente dos condôminos.

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