Um manuscrito de 408 páginas preservado na Biblioteca do Vaticano permaneceu por mais de quatro séculos sem que pesquisadores conseguissem compreender integralmente seu conteúdo. Escrito com uma combinação de símbolos e diferentes sistemas de cifragem, o documento conhecido como Cifra Borg começou a ser desvendado com auxílio de ferramentas de inteligência artificial desenvolvidas para trabalhar com manuscritos antigos.

A única pista disponível até então estava em uma inscrição na contracapa, que indicava que a obra reunia informações sobre tratamentos para doenças do corpo humano. A dificuldade de leitura, porém, impedia que os pesquisadores determinassem com precisão o conteúdo das páginas.

O uso de códigos para registrar conhecimentos médicos pode ter sido uma forma de proteção em um período no qual determinados saberes sobre ervas e tratamentos poderiam ser associados a práticas consideradas ilícitas ou até mesmo à bruxaria. A criptografia permitia restringir o acesso às informações e dificultar que terceiros identificassem seu conteúdo.

Segundo os especialistas envolvidos no estudo, o manuscrito reúne dezenas de sistemas de cifragem. Em alguns casos, diferentes símbolos podem representar uma mesma letra, enquanto outros sinais aparentemente foram inseridos apenas para dificultar a interpretação do texto.

Manuscrito reúne receitas medicinais

Com a decifração de parte do material, os pesquisadores identificaram receitas e métodos de tratamento utilizados para fins medicinais. Entre os exemplos encontrados estão preparações destinadas ao combate à disenteria, incluindo recomendações envolvendo o consumo de vinho tinto e o uso de noz-moscada submetida a processos de fermentação.

A diversidade dos códigos tornou o trabalho particularmente complexo. Antes da utilização de ferramentas computacionais, a identificação de padrões dependeria de um longo processo de comparação entre símbolos, palavras e possíveis estruturas linguísticas. Problemas físicos comuns em documentos antigos, como tinta desbotada, páginas danificadas e caligrafia de difícil compreensão, também dificultam o trabalho.

A linguista computacional Beáta Megyesi, da Universidade de Estocolmo, comparou o processo a uma investigação em que cada símbolo e cada padrão identificado pode ajudar a reconstruir informações sobre uma época e sobre as pessoas que produziram os documentos.

Inteligência artificial transforma manuscrito em texto digital

Uma das ferramentas utilizadas pelos pesquisadores foi o Transkribus, sistema de inteligência artificial desenvolvido para trabalhar com manuscritos históricos. A tecnologia auxiliou na identificação e transcrição dos símbolos presentes nas páginas, transformando o conteúdo em blocos de texto e linhas que puderam ser analisados digitalmente.

O método também foi empregado em uma carta escrita em 1637 pelo nobre Sigismund Heusner von Wandersleben ao chanceler sueco Axel Oxenstierna, durante a Guerra dos Trinta Anos. Mesmo com a necessidade de intervenções e correções humanas, a ferramenta apresentou resultados considerados relevantes pelos pesquisadores.

A professora Michelle Waldispühl, da Universidade de Oslo, destaca a importância da tecnologia para a transcrição de documentos escritos com sistemas de caracteres incomuns. A combinação entre ferramentas de inteligência artificial e análise humana permite acelerar etapas que poderiam consumir anos de trabalho manual.

O caso da Cifra Borg se soma a outras descobertas recentes envolvendo documentos históricos codificados. Cartas secretas escritas por Maria Stuart durante o período em que permaneceu presa na Inglaterra, por exemplo, também foram submetidas a técnicas de decifração e revelaram informações sobre conspirações políticas e sua relação com o filho, Jaime 6º da Escócia, que posteriormente se tornou Jaime 1º da Inglaterra.

Pesquisadores estimam que uma parcela dos arquivos históricos europeus ainda contenha documentos cifrados ou codificados cujo conteúdo permanece desconhecido. A expectativa é que o desenvolvimento de sistemas especializados em manuscritos permita ampliar a investigação desse acervo.

Apesar dos avanços, a participação humana continua sendo necessária. A inteligência artificial consegue reconhecer padrões, transcrever caracteres e testar possibilidades em uma velocidade muito superior à análise manual, mas a interpretação histórica e a validação das soluções ainda dependem dos pesquisadores. O avanço dessas ferramentas, no entanto, pode transformar a maneira como documentos considerados indecifráveis são estudados.

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