A fisioterapeuta Miriã Cristina Rodrigues Monteiro, de 29 anos, denunciou ter sido vítima de racismo religioso no local onde trabalhava, em Goiânia. Segundo ela, a demissão ocorreu na última terça-feira, 8, quando retornou às atividades cumprindo preceitos relacionados à sua iniciação no Candomblé.

O caso envolve o Centro de Movimento Morbeck, estúdio de pilates localizado no Setor Marista, e a proprietária do estabelecimento, a empresária Thaise Naia Alves Morbeck. Miriã afirma que foi dispensada sem justa causa após comparecer ao trabalho com roupas brancas, a cabeça coberta e outros elementos ligados ao período de resguardo religioso.

Em entrevista ao Jornal Opção, a fisioterapeuta contou que iniciou o recolhimento religioso no dia 30 de agosto e permaneceu no terreiro até 5 de setembro. Antes de se afastar, providenciou a substituição das aulas por outro profissional para que os alunos não fossem prejudicados.

Ao retornar ao trabalho, no dia 8, Miriã ainda precisava seguir uma série de preceitos. “Estou no período da religião em que tenho que utilizar roupas totalmente brancas todos os dias, cobrir a cabeça, que está raspada, e utilizar quelês, que são cordões sagrados e precisam permanecer cobertos”, explicou.

A fisioterapeuta chegou ao estúdio por volta das 5h40 para atender a primeira turma, marcada para as 6 horas. Antes mesmo de entrar no estabelecimento, relatou ter se sentido constrangida com a reação de moradores do prédio vizinho.

“Algumas pessoas do prédio saíram para descer com o cachorro, mas, quando me viram, seguraram o cachorro e meio que saíram correndo. Isso foi bem desconfortável para mim”, afirmou.

Durante a primeira aula, uma cliente teria tentado tocar a cabeça da fisioterapeuta sob a justificativa de retirar um inseto. No Candomblé, a cabeça, chamada de Ori, é considerada uma parte sagrada do corpo e não deve ser tocada por outras pessoas durante determinados períodos religiosos.

“Eu afastei a mão dela e falei que não precisava, que eu mesma tiraria o bicho. Falei até em tom de brincadeira para tentar amenizar a situação”, contou.

Miriã afirmou também ter visto Thaise e a gerente do estúdio conversando reservadamente e apontando em direção à sua cabeça. Para a fisioterapeuta, a atitude demonstrava incômodo com sua aparência e com os preceitos que seguia naquele momento.

Depois da aula, Miriã foi chamada para uma conversa em uma sala do prédio. Como parte do resguardo religioso, ela não poderia sentar-se em cadeiras e, por isso, acomodou-se no chão após ser questionada pela proprietária.

“Ela me levou para uma sala com várias cadeiras e pediu para eu sentar. Falei que não poderia. Ela perguntou se estava tudo bem, e eu disse que sim. Depois, pediu novamente para eu sentar, então me sentei no chão, que era a única opção que eu tinha”, relatou.

Segundo Miriã, a proprietária demonstrou estranhamento diante da situação e, na sequência, comunicou sua demissão. A fisioterapeuta afirma que Thaise declarou que não gostaria de conviver com uma funcionária diante da qual precisasse “pisar em ovos” e que tanto ela quanto o estúdio não teriam conseguido se adaptar.

Miriã disse que não contestou a decisão naquele momento porque, durante o período de iniciação, deve evitar conflitos, discussões e situações que possam causar abalo emocional. Após a conversa, recolheu os pertences e deixou o estabelecimento.

“Ela falou que não gostaria de conviver com alguém com quem teria que pisar em ovos, que eles eram um time e que eu não estava conseguindo me adaptar ao estúdio, assim como o estúdio não tinha se adaptado a mim”, afirmou.

Antes do afastamento, segundo a fisioterapeuta, ela recebia avaliações positivas sobre seu desempenho e sobre a relação com os pacientes. Miriã começou a trabalhar no estúdio entre o fim de julho e o início de agosto.

Denúncia à polícia

Após relatar o episódio à sua líder espiritual, Mãe Isabel de Oxum, Miriã foi orientada a procurar a Delegacia Estadual de Atendimento à Vítima de Crimes Raciais e de Intolerância (Deacri). As duas registraram um boletim de ocorrência, e o caso foi apresentado como possível crime de racismo previsto no artigo 20 da Lei Federal nº 7.716/1989.

De acordo com Mãe Isabel, a polícia informou que a proprietária do estúdio deverá ser intimada para prestar esclarecimentos. A líder religiosa também afirmou que pretende procurar a Defensoria Pública para avaliar outras medidas cabíveis.

Miriã contou que inicialmente não pretendia denunciar o episódio, mas mudou de ideia após conversar com Mãe Isabel. “Ela me orientou porque disse que hoje aconteceu comigo, mas amanhã pode entrar outra pessoa no meu lugar, de Umbanda, Candomblé ou de qualquer outra religião, e passar pela mesma coisa”, disse.

A fisioterapeuta afirma que a demissão também provocou prejuízo financeiro. Segundo ela, além de perder uma fonte de renda, tem enfrentado dificuldades para conseguir outro trabalho enquanto permanece cumprindo os preceitos religiosos.

“É bem complicado porque as pessoas julgam pela aparência. Por estarmos de branco, com o quelê coberto e a cabeça raspada, elas olham e simplesmente não querem contato”, declarou.

Ela também relatou já ter enfrentado episódios semelhantes em outros locais de trabalho. Em uma das situações, uma cliente teria visto uma guia religiosa sob sua roupa e associado o objeto ao demônio. Miriã afirma que comunicou o caso aos responsáveis pelo estabelecimento, mas nenhuma providência foi tomada.

“Muito abalada”

Mãe Isabel de Oxum, que também é candidata a deputada federal pelo PT e integrante da Executiva Nacional da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), afirmou que Miriã ficou emocionalmente fragilizada após o episódio.

Segundo a líder religiosa, a iniciação representa um período profundo e delicado para os praticantes do Candomblé, marcado por recolhimento, resguardo e cumprimento de diferentes preceitos. A demissão logo após o retorno ao trabalho, acrescentou, provocou forte impacto psicológico na fisioterapeuta.

“Ela está muito abalada emocional e psicologicamente. Além de ter passado por um processo iniciático, que deixa a pessoa em um momento de encontro consigo mesma, ela se preparou para voltar ao mercado de trabalho com tranquilidade e se deparou com essa situação”, afirmou.

Para Mãe Isabel, o episódio está relacionado ao racismo estrutural e à dificuldade enfrentada por integrantes de religiões de matriz africana para exercer livremente a própria fé.

“É muito difícil para nós, do povo preto, porque há uma sociedade que tenta burlar o que a Constituição brasileira estabelece sobre o Estado laico e sobre o direito de ir e vir. Muitas vezes, nós, do povo preto, não temos esse direito respeitado”, declarou.

O Jornal Opção entrou em contato com a empresa mencionada e aguarda retorno.

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