A obesidade infantil deixou de ser apenas uma preocupação relacionada ao peso e passou a representar um importante fator de risco para doenças cardiovasculares ainda na infância e na vida adulta. Em Goiás, 43.900 crianças de zero a dez anos acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde foram classificadas com obesidade em 2025, o equivalente a 9,34% das 469.899 crianças avaliadas no estado.

Os dados são do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) e refletem um cenário nacional igualmente preocupante. Segundo o levantamento, cerca de 6,4 milhões de crianças brasileiras menores de 10 anos apresentam excesso de peso, sendo aproximadamente 3,1 milhões com obesidade. A condição está associada ao aumento do risco de hipertensão, colesterol elevado, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

Em entrevista ao Jornal Opção, a cardiopediatra Mirna de Sousa afirma que a prevenção começa muito antes dos primeiros sinais aparecerem. “Esse é um problema que começa desde o útero materno. O controle do peso da criança faz parte de uma programação metabólica iniciada na gestação, por isso o pré-natal é tão importante”, explica.

Aleitamento e alimentação definem os primeiros anos

Segundo a especialista, o primeiro ano de vida é decisivo para reduzir o risco de obesidade futura. Ela destaca que o aleitamento materno exclusivo durante os seis primeiros meses representa uma das principais estratégias de prevenção.

Mirna de Sousa é cardiopediatra | Foto: Arquivo Pessoal

O problema, segundo Mirna, costuma surgir quando alimentos ultraprocessados passam a fazer parte da rotina alimentar ainda muito cedo. “Muito precocemente a gente oferece às crianças uma alimentação pobre em nutrientes e rica em alimentos multiprocessados. Quando isso se associa ao sedentarismo, temos um cenário que favorece a obesidade infantil e uma geração de adultos mais doentes”, afirma.

A cardiopediatra ressalta que o excesso de peso não condena a criança a desenvolver doenças cardiovasculares no futuro. Pelo contrário, a infância é justamente o período em que mudanças de hábitos têm maior capacidade de alterar esse risco. “Quando transformamos o estilo de vida de uma criança com sobrepeso ou obesidade, protegemos essa criança contra doenças cardiovasculares, diabetes e outras doenças associadas. É possível mudar esse destino”, diz.

Embora muitos pais procurem sinais visíveis de alerta, Mirna explica que o acompanhamento periódico é mais eficaz do que esperar sintomas aparecerem.

Ela afirma que o ganho de peso acontece de forma lenta e progressiva, o que dificulta a percepção dentro da própria família, principalmente quando outros membros também estão acima do peso. “Ninguém dorme magrinho e acorda obeso. Toda criança deve ser acompanhada regularmente pelo pediatra, que avalia peso, estatura e a curva de crescimento ao longo do tempo”, destaca.

Além do aumento acelerado de peso, a especialista orienta que cansaço excessivo durante brincadeiras, sedentarismo e alterações na pressão arterial merecem investigação médica. Como hipertensão e colesterol alto podem não provocar sintomas, a avaliação clínica torna-se fundamental.

Tela virou a “nova rua”

Um dos principais fatores apontados pela cardiopediatra para o avanço da obesidade infantil é o aumento do tempo de tela. Segundo ela, a mudança no comportamento das famílias reduziu o espaço das brincadeiras ao ar livre e aumentou o sedentarismo entre crianças. “Antigamente a criança brincava na rua ou no quintal. Hoje a nova rua é a internet. Os pais acreditam que ela está segura dentro de casa, mas ela está parada, deixando de movimentar o corpo”, afirma.

Além da redução da atividade física, o uso excessivo de telas interfere na qualidade do sono e pode favorecer ansiedade e compulsão alimentar, criando um ciclo que dificulta o controle do peso.

A recomendação é que a criança pratique algum tipo de movimento diariamente, seja em atividades organizadas, como esportes e dança, ou em brincadeiras simples com a família em parques e áreas abertas.

Mudança precisa envolver toda a família

Para Mirna, não existe tratamento eficaz para obesidade infantil quando apenas a criança muda a rotina. Os hábitos alimentares e de lazer precisam ser compartilhados por toda a família. “A criança é fruto da família. A gente não consegue mudar o hábito de uma criança se esse hábito for diferente da própria família”, afirma.

Entre as orientações estão reduzir a presença de alimentos ultraprocessados em casa, estimular atividades físicas nos finais de semana e estabelecer regras claras para o uso de telas por todos os membros da família.

A cardiopediatra defende que pequenas mudanças na rotina podem produzir benefícios duradouros para a saúde cardiovascular das crianças. Ela cita refeições preparadas em casa, participação dos filhos no preparo dos alimentos e momentos de lazer sem aparelhos eletrônicos. “Momentos de refeição, todo mundo junto. Envolver a criança em lavar verduras, frutas, preparar os alimentos. E trocar a tela por caminhada, bola, peteca, brincadeiras ao ar livre. São pequenas coisas cujo reflexo ao longo do tempo é fantástico”, conclui.

Na prática, essa mudança já faz parte da rotina da servidora pública Djully Caroline Cunha, mãe de Henrique, de um ano. Com orientação da pediatra, ela registra os alimentos oferecidos ao filho e procura variar frutas, legumes e verduras conforme a disponibilidade nas feiras. Para facilitar os dias mais corridos, a família também prepara e congela porções caseiras.

Segundo a especialista, cuidar da saúde cardiovascular começa nos primeiros anos de vida e pode reduzir significativamente o risco de doenças que normalmente se manifestariam apenas na fase adulta.

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