Goiás registrou redução de aproximadamente 40% nos casos de hepatites virais nos cinco primeiros meses de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. Entre janeiro e maio deste ano, foram confirmados 249 casos e 10 mortes pela doença no estado, contra 414 casos e 16 óbitos registrados nos mesmos meses de 2025. Apesar da queda, o infectologista Marcelo Daher alerta que o maior desafio para eliminar as hepatites virais até 2030 continua sendo identificar pessoas infectadas antes do surgimento de complicações.

“O principal desafio é o diagnóstico. A hepatite é uma doença silenciosa. Muitas pessoas estão infectadas e não sabem porque, principalmente nas hepatites B e C, os sintomas podem demorar muitos anos para aparecer”, afirma o especialista em entrevista ao Jornal Opção.

Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), ao longo de todo o ano de 2025 foram registrados 981 casos de hepatites virais e 42 mortes no estado. A redução observada em 2026 é considerada positiva, mas, para Marcelo Daher, ainda está distante da realidade, já que existe um grande número de pessoas vivendo com a doença sem diagnóstico.

“O que nós precisamos fazer é testar mais. Não basta esperar que o paciente apresente sintomas, porque quando eles aparecem muitas vezes a doença já provocou danos importantes no fígado.”

Meta é eliminar hepatites até 2030

O Brasil assumiu, junto à Organização Mundial da Saúde (OMS), o compromisso de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030. Para Marcelo Daher, esse objetivo depende de três pilares: diagnóstico precoce, tratamento e vacinação.

“Existe uma meta a ser cumprida pelo Brasil, que é a eliminação das hepatites virais em 2030. Isso deverá acontecer principalmente por meio do diagnóstico precoce, do tratamento da maioria dos pacientes e da vacinação.”

Ele explica que os maiores esforços devem ser direcionados às hepatites B e C, responsáveis pelas formas crônicas da doença. “A hepatite B é transmitida principalmente por via sexual. A hepatite C ocorre por contato com sangue e também pode ser transmitida sexualmente. São doenças silenciosas e é justamente por isso que precisamos diagnosticar esses pacientes antes que desenvolvam cirrose ou câncer de fígado.”

Testagem deve ser ampliada

O infectologista defende que a testagem seja incorporada de forma rotineira aos atendimentos de saúde, especialmente entre pessoas acima dos 50 anos, faixa etária onde está concentrada boa parte dos casos. “Nós precisamos testar principalmente as pessoas acima de 50 anos, mas também aproveitar todas as oportunidades para oferecer esses exames.”

Segundo ele, a recomendação atual das entidades médicas é que toda pessoa seja testada ao menos uma vez na vida para HIV, hepatites B e C e sífilis. “Se conseguirmos ampliar a testagem, vamos diagnosticar precocemente esses pacientes e iniciar o tratamento mais rapidamente.”

Marcelo Daher é médico infectologista | Foto: divulgação

Marcelo Daher destaca que a hepatite C possui índice de cura superior a 90%. “Hoje nós estamos falando de uma doença que tem tratamento e cura na maioria dos casos. Já na hepatite B, embora ainda não exista cura definitiva, o tratamento permite controlar o vírus e interromper a transmissão.”

Vacinação mudou perfil da doença

Outro fator decisivo para reduzir a circulação das hepatites, segundo o infectologista, é a vacinação. A vacina contra hepatite B é aplicada ainda nas primeiras horas de vida e reduz em mais de 90% o risco de transmissão da mãe para o bebê.

“Hoje vemos poucos casos de hepatite B em crianças e adolescentes justamente porque a vacinação ao nascimento foi muito eficaz.”

O especialista também destaca o impacto da vacina contra hepatite A, aplicada em crianças a partir de um ano de idade. “A vacinação diminuiu muito os casos em crianças. Hoje observamos uma mudança no perfil epidemiológico, com maior ocorrência entre adultos, especialmente homens que fazem sexo com homens, grupo que em alguns estados já possui recomendação específica para vacinação.”

Prevenção continua essencial

Além da vacinação e da realização periódica de testes, a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás orienta a população a utilizar preservativos durante as relações sexuais, evitar o compartilhamento de objetos perfurocortantes, como lâminas e seringas, e procurar atendimento médico sempre que houver fatores de risco.

O tratamento para todas as hepatites virais é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para Marcelo Daher, a combinação entre vacinação, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento é o caminho para que Goiás e o Brasil alcancem a meta de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até o fim da década.

“Se conseguirmos diagnosticar mais pessoas, tratar rapidamente quem precisa e manter altas coberturas vacinais, nós teremos condições de controlar essas doenças e atingir a meta estabelecida para 2030.”

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