O problema começa antes mesmo do diagnóstico. Em Goiás, não há hoje um número capaz de responder quantas pessoas convivem com anorexia nervosa, bulimia, transtorno de compulsão alimentar ou outros transtornos alimentares. A dificuldade não está apenas em encontrar os pacientes, mas em reconhecer que eles existem.

“Em termos epidemiológicos, populacionais, elas têm crescido sim, cada vez mais”, afirma a psiquiatra Mireille Coêlho de Almeida, da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (ASTRAL). Segundo ela, o Brasil ainda é “muito carente” de políticas públicas voltadas especificamente para esses transtornos e de serviços especializados capazes de atender à demanda.

A dificuldade de mensuração é confirmada pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO). Segundo a superintendente de Políticas e Atenção Integral à Saúde, Lígia Vanessa Silva Cruz Duarte, os transtornos alimentares não são agravos de notificação compulsória no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Os transtornos alimentares não são agravos de notificação compulsória no Sistema Único de Saúde (SUS), por isso não existe um cadastro específico de pessoas diagnosticadas”, explica Lígia.

Lígia Duarte, superintendente de Políticas e Atenção Integral à Saúde da SES-GO | Foto: Arquivo

Sem um banco de dados próprio, o Estado depende de informações espalhadas por diferentes sistemas, que registram atendimentos, internações e óbitos. “O dimensionamento é feito a partir dos registros de atendimentos, internações e óbitos nos sistemas nacionais de informação em saúde”, afirma a superintendente.

O resultado é um paradoxo: existem pacientes, atendimentos, internações e consequências físicas e psicológicas, mas não há uma fotografia precisa da quantidade de pessoas afetadas em Goiás.

A SES-GO afirma que não dispõe de estimativa de prevalência para o Estado. Isso não significa que os casos não existam, mas que eles podem estar distribuídos entre unidades básicas de saúde, ambulatórios, serviços de saúde mental, hospitais, consultórios particulares e pessoas que sequer chegaram a um serviço de saúde.

É nesse espaço entre o que existe e o que pode ser contado que os transtornos alimentares se tornam um problema de saúde pública difícil de enxergar.

Um problema que não cabe em uma estatística

A ASTRAL mantém grupos gratuitos de apoio on-line para pessoas com transtornos alimentares e familiares. Os grupos são conduzidos geralmente por psicólogos e nutricionistas e podem receber participantes de diferentes regiões do Brasil. Em alguns casos, há fila de espera.

Psiquiatra Mireille Coêlho

Mireille faz questão, entretanto, de estabelecer um limite para qualquer tentativa de transformar essa procura em estatística. O número de pessoas que chegam aos grupos da associação não representa o total de brasileiros com transtornos alimentares.

Ainda assim, a procura revela uma demanda.

Questionada sobre qual transtorno aparece com maior frequência entre as pessoas que procuram os grupos, Mireille responde: “Os de compulsão alimentar”. Segundo ela, a procura é grande e tem gerado dificuldades para atender todas as pessoas.

No sistema público, porém, até mesmo identificar esse transtorno separadamente pode ser difícil.

Segundo a SES-GO, os sistemas do SUS utilizam a Classificação Internacional de Doenças, a CID-10. Os transtornos alimentares estão reunidos principalmente no código F50, que permite identificar, entre outros, anorexia nervosa, anorexia nervosa atípica, bulimia nervosa e outros transtornos da alimentação.

“O transtorno de compulsão alimentar não possui código próprio na CID-10 e costuma ser registrado como ‘outros’ ou ‘não especificado’”, explica Lígia.

A forma de registro é uma das razões pelas quais a estatística oficial pode não revelar a dimensão real do problema.

O que os números do SUS conseguem mostrar

Os dados relacionados aos transtornos alimentares estão distribuídos entre diferentes sistemas. O SISAB/e-SUS APS reúne informações da Atenção Primária; o SIA/SUS registra atendimentos ambulatoriais; o SIH/SUS concentra informações sobre internações; e o SIM registra mortalidade.

Nenhum deles funciona como um cadastro estadual de pessoas com transtornos alimentares.

“Não há sistema específico”, resume Lígia.

A dificuldade aumenta porque os sistemas registram atendimentos, e não necessariamente indivíduos. Uma mesma pessoa pode aparecer diversas vezes por receber diferentes atendimentos. Da mesma forma, alguém com transtorno alimentar associado a outra condição pode ter outra doença registrada como diagnóstico principal.

“Não há números precisos porque os sistemas registram atendimentos, e não pessoas”, explica a superintendente.

Também existe uma limitação relacionada à cobertura. Os sistemas do SUS não registram integralmente os atendimentos realizados exclusivamente na rede privada ou na saúde suplementar.

Por isso, os dados disponíveis representam a demanda registrada no SUS, e não a dimensão real dos transtornos alimentares entre a população de Goiás.

A Secretaria também não consegue informar quantas pessoas estão atualmente em acompanhamento. Os pacientes podem circular por diferentes pontos da rede, enquanto os sistemas contabilizam os procedimentos e atendimentos realizados.

A falta de uma estatística consolidada não é apenas uma dificuldade para pesquisadores. Ela interfere diretamente na capacidade de dimensionar a assistência.

A doença pode aparecer longe da psiquiatria

Gastroenterologista Eduardo Aguiar Silva Neto

Para quem está doente, a ausência de um número oficial não significa que os efeitos sejam invisíveis. Às vezes, o primeiro sinal aparece longe de um consultório de psiquiatria.

O gastroenterologista Eduardo Aguiar Silva Neto explica que pacientes podem chegar inicialmente ao consultório com queixas como dor abdominal, refluxo, constipação, diarreia, náuseas, vômitos ou sensação de estômago cheio.

A primeira investigação procura naturalmente doenças próprias do sistema digestivo. Quando não existe uma alteração orgânica capaz de explicar adequadamente os sintomas, entretanto, a relação com o comportamento alimentar pode entrar no radar.

“Geralmente a gente não consegue detectar na endoscopia um distúrbio alimentar. É mais pela história clínica e pelo exame físico do paciente”, explica Eduardo.

Uma alteração no exame, portanto, não é necessariamente o que vai revelar o transtorno. A história clínica e a maneira como o paciente se relaciona com a alimentação podem ser decisivas para levantar a suspeita.

Segundo o gastroenterologista, uma restrição alimentar prolongada pode estar associada a queimação, azia, dor, constipação, inchaço e desconforto abdominal. Ele também chama atenção para comportamentos compensatórios, como o uso inadequado de laxantes e a indução de vômitos.

No caso da bulimia, os vômitos autoinduzidos podem produzir lesões no esôfago e no estômago. O que chega ao consultório como “dor de estômago”, portanto, pode ser parte de uma história muito maior.

Restrição, compulsão e purgação

Para Mireille, três grandes alterações comportamentais ajudam a compreender os transtornos alimentares: restrição, compulsão e purgação.

A restrição aparece quando a pessoa passa a diminuir significativamente a quantidade de comida ou o número de refeições. Na compulsão, ocorre perda de controle durante a alimentação, acompanhada da sensação de que não é possível parar. Já a purgação envolve tentativas de compensar aquilo que foi ingerido, como a indução de vômitos e o uso de laxantes e diuréticos.

Essas manifestações não aparecem necessariamente juntas e podem assumir diferentes formas conforme o transtorno.

A avaliação também deve considerar histórico de peso, alterações recentes, exercício excessivo e outros comportamentos utilizados para controlar o peso.

Ou seja: para identificar a doença, não basta perguntar quanto a pessoa pesa. É preciso entender como ela se relaciona com a comida, com o corpo e com o próprio peso.

O peso pode estar normal e a doença, não

Esse é um dos obstáculos ao reconhecimento precoce dos transtornos alimentares.

A endocrinologista Marília Gabriela Zanier Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Goiás (SBEM-GO), explica que os efeitos físicos variam de acordo com o tipo de transtorno. Em quadros como anorexia e bulimia, especialmente quando há grande perda de peso, podem aparecer desnutrição, alterações menstruais e comprometimento de diferentes funções do organismo.

No entanto, ela ressalta que alterações no índice de massa corporal (IMC) não são condição necessária para o diagnóstico.

“A própria bulimia nervosa pode cursar com IMC normal. Ter necessariamente alguma alteração de IMC não é uma condição para que tenham um transtorno alimentar, de jeito nenhum”, afirma Marília.

A endocrinologista também destaca que o transtorno de compulsão alimentar pode ocorrer em pessoas com IMC dentro da faixa considerada normal.

“Existem muitos transtornos alimentares que são completamente diferentes”, explica Marília. Segundo ela, as consequências físicas dependem do transtorno e da gravidade do quadro.

Endocrinologista Marília Gabriela Zanier Gomes | Foto: Divulgação

Nos casos mais graves de anorexia nervosa, principalmente quando há extremo baixo peso e restrição alimentar prolongada, podem ocorrer alterações hormonais. A deficiência nutricional pode comprometer a produção de hormônios sexuais e levar à irregularidade ou interrupção da menstruação.

“A irregularidade da menstruação pode acontecer, é muito relacionada a perdas muito importantes de peso”, afirma.

Segundo Marília, a queda do estrogênio associada à desnutrição também pode ter consequências para a saúde óssea. Isso é especialmente relevante durante a adolescência e juventude, período em que ocorre a formação da massa óssea.

“Se essa menina fica muito tempo com essa menorreia, por conta de uma deficiência nutricional importante, especialmente na anorexia, isso pode cursar com um pico de massa óssea pior, bem pior do que ela faria”, explica.

A endocrinologista também chama atenção para outras consequências da restrição alimentar prolongada, como perda de massa muscular, queda de cabelo, unhas quebradiças e alterações na pele.

“A questão não é simplesmente deixar de menstruar, mas entender por que isso está acontecendo.”

“O problema não é não menstruar, mas é o porquê essa menina não está menstruando”, afirma.

A aparência, portanto, pode esconder a gravidade do quadro. Uma pessoa aparentemente saudável pode estar submetida a restrições severas, episódios de compulsão, purgação ou sofrimento psicológico intenso.

Quando o corpo não conta toda a história

A dimensão psicológica ajuda a explicar por que o peso não pode ser utilizado como principal indicador.

Para Kassio Rosse Kran, psicólogo e conselheiro do Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região (CRP-09), os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas e multifatoriais.

“Muitas pessoas adoecidas mantêm o peso dentro da faixa considerada saudável, mas enfrentam intenso sofrimento mental”, afirma.

Entre os sinais que merecem atenção estão a preocupação rígida com calorias e dietas e a distorção da autoimagem.

“Há pacientes que checam frequentemente o corpo em frente ao espelho, medindo partes com as mãos, com medo intenso de ganhar peso”, relata Kassio.

Vergonha, arrependimento ou culpa depois de comer também podem aparecer. Segundo o psicólogo, utilizar a comida como forma de aliviar estresse, tristeza, raiva ou ansiedade pode indicar que a relação com a alimentação deixou de estar ligada apenas à fome física.

O comportamento social também pode mudar.

“Alguns tipos de isolamentos sociais também podem ser um sinal do problema, por exemplo, quando a pessoa evita ir num churrasco ou num almoço de família para não ter que comer na frente de outras pessoas”, explica.

Comer escondido também pode ser um sinal de alerta.

Para Kassio, a diferença entre uma preocupação comum com alimentação e um comportamento associado a transtorno está principalmente na relação que a pessoa estabelece com o próprio corpo e com a comida.

“A preocupação saudável busca bem-estar e flexibilidade, sendo, portanto, uma forma de cuidado. Já o transtorno alimentar opera sob uma lógica de rigidez e opressão psíquica”, afirma.

Kassio Rosse Kran, psicólogo e conselheiro do Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região (CRP-09) | Foto: Divulgação

Quando a própria pessoa não percebe que está doente

O diagnóstico também esbarra em uma característica de alguns transtornos alimentares: a dificuldade de reconhecer o problema.

“Às vezes, em alguns momentos mais graves da doença, a pessoa não entende que ela está doente”, relata Mireille.

Isso pode retardar a procura por ajuda. Somam-se a esse fator o preconceito e, em alguns casos, a falta de preparo para reconhecer os sinais.

Kassio ressalta que ansiedade, depressão, baixa autoestima e pressão estética podem se relacionar de maneira entrelaçada.

“A relação entre ansiedade, depressão, baixa autoestima e pressão estética ocorre de maneira entrelaçada, alimentando-se mutuamente, criando um ciclo psíquico de difícil ruptura”, afirma.

Mireille também afirma que ansiedade e depressão estão entre os transtornos psiquiátricos frequentemente associados aos transtornos alimentares. Ela cita ainda TDAH, transtorno bipolar, transtorno de estresse pós-traumático e transtornos relacionados ao uso de substâncias.

A avaliação, portanto, precisa considerar a presença de outros problemas de saúde mental. O tratamento não pode ser pensado apenas como uma mudança na alimentação.

Família pode ajudar como também pode reforçar o problema

O ambiente familiar pode interferir na maneira como a pessoa lida com a alimentação e com o próprio corpo.

Para Kassio, uma rede de apoio é importante para o tratamento, mas é necessário diferenciar acolhimento de fiscalização.

“A presença ativa da família e dos amigos pode abrir portas, mas também pode fechar. Acompanhar, incentivar e acolher é diferente de fiscalizar, cobrar e às vezes adotar um tom rígido disfarçado de cuidado”, afirma.

Comentários sobre a quantidade de comida no prato ou elogios ao emagrecimento podem, segundo ele, reforçar a cultura da dieta e intensificar o sofrimento.

“O mais correto é demonstrar acolhimento, focando no bem-estar e não nos números da balança”, orienta.

Ele também recomenda evitar comentários sobre corpos de outras pessoas, inclusive quando apresentados como elogios.

“Comentários sobre corpos alheios não cooperam com a construção de saúde mental”, afirma.

Tratamento exige várias áreas

A resposta para um transtorno alimentar não está em uma única consulta.

A American Psychiatric Association (APA) recomenda um plano de tratamento abrangente, individualizado e centrado na pessoa, reunindo conhecimentos médicos, psiquiátricos, psicológicos e nutricionais, geralmente por meio de uma equipe multidisciplinar.

Na anorexia nervosa, por exemplo, o tratamento pode envolver psicoterapia e reabilitação nutricional. Para bulimia, há indicação de psicoterapia específica e possibilidade de tratamento medicamentoso em determinadas situações. Para transtorno de compulsão alimentar, são indicadas abordagens psicoterapêuticas específicas.

Não se trata, portanto, de simplesmente “mandar o paciente comer”.

É necessário tratar a doença.

Em situações mais graves, o quadro pode deixar de ser apenas uma questão de acompanhamento ambulatorial e passar a representar risco médico. Peso muito baixo, alterações significativas da frequência cardíaca e da pressão arterial podem indicar necessidade de hospitalização.

O paciente pode chegar ao hospital por uma complicação, e não pelo transtorno que provocou aquela complicação.

Como funciona o atendimento em Goiás

Em Goiás, o atendimento aos pacientes com transtornos alimentares está distribuído pelos diferentes pontos da rede.

Segundo a SES-GO, a porta de entrada preferencial é a Unidade Básica de Saúde. A partir da avaliação inicial, o paciente pode ser encaminhado para atendimento ambulatorial especializado, acompanhamento nutricional e endocrinológico ou para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), quando houver sofrimento ou transtorno mental associado.

Nos casos de maior gravidade, entram em cena os serviços de urgência, emergência e hospitais.

Lígia Duarte explica que o cuidado pode envolver diferentes profissionais.

“A assistência é multiprofissional e pode envolver médico, nutricionista, psicólogo, psiquiatra, endocrinologista e outros profissionais”, afirma.

O problema é que Goiás não possui atualmente uma linha de cuidado específica para transtornos alimentares.

“Não há linha de cuidado específica”, informa a superintendente.

O atendimento ocorre dentro da lógica geral das Redes de Atenção à Saúde. Também não existe uma fila específica para pessoas com transtornos alimentares. As filas da atenção especializada são organizadas por especialidade.

Para a ASTRAL, a ausência de serviços especializados é uma das principais fragilidades da assistência. Mireille afirma que existem serviços de referência ligados principalmente a centros acadêmicos, criados a partir da iniciativa de pesquisadores e profissionais especializados, mas considera o cenário insuficiente diante da necessidade de uma rede pública estruturada.

Uma nova política estadual — e a promessa de começar a contar

Em 18 de maio de 2026, Goiás instituiu, por meio da Lei nº 24.267, a Política Estadual de Prevenção e Combate às Doenças Associadas aos Distúrbios Alimentares. A legislação prevê ações de prevenção, diagnóstico, tratamento, capacitação profissional, pesquisa e assistência multidisciplinar.

Entre as diretrizes está justamente o desenvolvimento de um sistema de monitoramento e estatísticas capaz de acompanhar a evolução e a prevalência dos transtornos alimentares no Estado e subsidiar políticas públicas.

A medida ataca uma das principais lacunas identificadas pela reportagem: a falta de dados.

Hoje, a SES-GO não consegue informar quantas pessoas estão em tratamento, quantos profissionais têm formação específica, qual é a prevalência estadual ou qual é a dimensão real dos casos entre crianças e adolescentes.

A lei estabelece uma direção, mas não cria automaticamente uma base de dados. A própria norma prevê regulamentação pelo Poder Executivo, que deverá estabelecer a forma de monitoramento e avaliação da política.

O desafio, portanto, é transformar a previsão legal em uma estrutura capaz de registrar os casos, integrar informações e acompanhar sua evolução.

Redes sociais e a pressão pelo corpo ideal

A psiquiatra Mireille também chama atenção para o papel das redes sociais.

Segundo ela, a propagação de ideais de beleza pode estimular uma busca por um corpo que não necessariamente representa saúde, principalmente entre adolescentes.

“Você ter um corpo bonito também é ter um corpo saudável”, resume a especialista ao defender ações de conscientização.

A relação, entretanto, não deve ser tratada de forma simplista. Uma rede social, isoladamente, não explica o desenvolvimento de um transtorno alimentar. Mas o ambiente social e digital pode participar da pressão relacionada à aparência, ao peso e à alimentação.

Kassio afirma que esse ambiente pode favorecer comparações irreais e reforçar um ideal de corpo associado à magreza. Segundo ele, a pressão estética pode alimentar também a gordofobia e ampliar o problema individual para uma dimensão social.

O tema ganhou ainda mais relevância em um momento em que dietas, exercícios, suplementos e medicamentos para emagrecimento ocupam espaço constante nas redes.

Mireille também cita preocupação com a retomada de padrões estéticos associados à extrema magreza e com o contexto das chamadas canetas emagrecedoras. A observação da especialista não significa afirmar que esses medicamentos causem, por si só, transtornos alimentares. O ponto levantado por ela é o ambiente de pressão estética e a busca por um corpo cada vez mais magro, que pode se relacionar a comportamentos de restrição.

A dificuldade de obter números não é exclusiva de Goiás

Estudos epidemiológicos sobre transtornos alimentares na América Latina apontam limitações importantes na quantidade e na comparabilidade dos dados disponíveis. As estimativas variam conforme a população estudada, os critérios utilizados e a metodologia empregada.

Por isso, não é cientificamente adequado pegar uma taxa encontrada em outro país e aplicá-la diretamente à população goiana.

Nesta reportagem, nenhuma estimativa internacional é apresentada como se fosse um dado de Goiás, mas a realidade de diversos estados no Brasil.

A Associação Brasileira de Psiquiatria estima que mais de 70 milhões de pessoas no mundo possuam algum distúrbio alimentar. No Brasil seriam 15 milhões de pessoas, segundo o coordenador do programa de transtornos alimentares do Hospital da Universidade de São Paulo (USP), Táki Cordás. Ele afirmou que 1% da população brasileira tem anorexia nervosa.

O dado mais importante sobre o Estado é justamente a ausência de uma estimativa oficial de prevalência.

Existe ainda outra dificuldade estatística.

Segundo a SES-GO, os óbitos relacionados aos transtornos alimentares podem ser subestimados porque a declaração de óbito pode registrar a complicação — como desnutrição ou alteração cardíaca — sem mencionar o transtorno alimentar como condição de base.

Uma pessoa pode chegar ao hospital com uma complicação física grave, ser tratada por aquela complicação e ter o transtorno alimentar omitido ou não identificado.

O problema, então, não aparece necessariamente na estatística como transtorno alimentar.

A consequência é uma cadeia de sub-registros que pode começar no diagnóstico e chegar até a mortalidade.

O problema começa antes de chegar ao sistema de saúde

Há uma dimensão que nenhum banco de dados consegue captar sozinho.

A pessoa que evita comer com amigos.

O adolescente que começa a eliminar grupos alimentares.

A mulher que passa a viver em ciclos de restrição e compulsão.

O paciente que provoca vômitos depois das refeições.

A pessoa que passa horas se exercitando para compensar o que comeu.

A família que percebe mudanças, mas não sabe se aquilo é uma dieta, uma preocupação com o corpo ou o início de uma doença.

E o paciente que chega ao consultório reclamando de dor de estômago, refluxo ou constipação sem contar que há meses está restringindo a alimentação.

É nesse estágio que o diagnóstico pode ser perdido.

Para Mireille, o preparo profissional é justamente uma das questões que precisam avançar.

A ausência de dados, nesse sentido, não começa apenas dentro dos sistemas de informação. Ela pode começar muito antes, quando o comportamento não é reconhecido como sinal de doença, quando o paciente não procura ajuda ou quando chega a um serviço de saúde sem revelar a relação problemática com a alimentação.

O desafio de transformar reconhecimento em política pública

A criação da política estadual representa uma mudança institucional no reconhecimento do tema. Mas ainda existe uma distância entre reconhecer o problema e estruturar uma rede capaz de dimensioná-lo e atendê-lo.

Goiás precisa saber quantas pessoas estão sendo atendidas, em quais regiões, em que faixa etária, quais transtornos são mais frequentes, quantos pacientes chegam a situações graves, quantos necessitam de internação e quais são as principais portas de entrada para o tratamento.

Também precisa saber quantos profissionais estão preparados para identificar esses casos e onde estão os serviços capazes de receber pacientes com quadros mais complexos.

A SES-GO informa que já realiza ações de qualificação da Atenção Primária, apoio matricial em saúde mental, atividades do Programa Saúde na Escola e acompanhamento do estado nutricional.

Mas não há uma estrutura específica que permita dizer quantas pessoas estão na fila exclusivamente por transtornos alimentares ou quantas possuem acompanhamento especializado nessa área.

A ASTRAL, por outro lado, relata uma procura que já supera a capacidade de alguns de seus grupos de apoio.

Entre as duas informações está o desafio de construir uma rede capaz de reconhecer os casos, registrar os pacientes e oferecer tratamento adequado.

O que hoje é invisível precisa começar a ser contado

Os transtornos alimentares podem atravessar diferentes áreas da saúde.

Podem começar com uma mudança de comportamento, passar pela família, chegar à escola, aparecer em uma consulta com o gastroenterologista, ser identificados na atenção básica, chegar à psiquiatria, exigir acompanhamento nutricional e, em situações graves, terminar em uma emergência hospitalar.

Em Goiás, porém, ainda falta responder à pergunta mais básica: quantas pessoas precisam desse cuidado?

A resposta da SES-GO é que não há como saber com precisão.

A falta de números confiáveis dificulta dimensionar equipes, planejar serviços, calcular demanda, definir prioridades e avaliar se as políticas públicas estão alcançando quem precisa.

A nova política estadual prevê mecanismos para produzir informações sobre o problema. O desafio agora é transformar essa previsão em uma estrutura capaz de registrar os casos e acompanhar sua evolução.

Porque, antes de saber quantas pessoas precisam de tratamento, é necessário conseguir reconhecê-las.

E, para isso, Goiás precisa começar a contar aquilo que hoje permanece espalhado entre diferentes sistemas, serviços e histórias que ainda não chegaram ao diagnóstico.