Goiás entra no radar da crise empresarial com avanço de dívidas e recuperações judiciais
21 agosto 2026 às 13h42

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Com 552 empresas em recuperação judicial (RJ) ao final do primeiro semestre de 2026, Goiás alcançou o maior nível dos últimos dois anos e consolidou a quinta posição no ranking nacional, atrás de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais. Os dados são do Monitor RGF BizDoc, elaborado a partir da base primária de CNPJs da Receita Federal.
O Estado também apresenta a segunda maior densidade de empresas em recuperação judicial do Brasil. Para cada mil empresas ativas em Goiás, 0,56 estão em recuperação, segundo o Índice de Recuperação Judicial (IRJ). A taxa é quase o dobro da média nacional, de 0,30.
O avanço das recuperações judiciais ocorre em meio a um cenário de aumento da inadimplência empresarial no país. Em junho deste ano, mais de 9,1 milhões de empresas brasileiras estavam com dívidas em atraso, segundo levantamento da Serasa Experian. Juntas, elas acumulavam R$ 232,9 bilhões em débitos, número 16,67% superior ao registrado no mesmo mês de 2025.
Em Goiás, 250.101 empresas estavam inadimplentes em junho de 2026. Elas acumulavam 1.472.763 dívidas negativadas, que somavam R$ 4,39 bilhões.
Embora inadimplência e recuperação judicial sejam situações diferentes, os números ajudam a dimensionar o ambiente de pressão financeira enfrentado pelas empresas. A inadimplência representa dívidas não pagas e registradas nos cadastros de crédito, enquanto a recuperação judicial é um mecanismo utilizado por empresas que buscam reorganizar seus débitos e preservar as atividades.
No segundo trimestre, Goiás registrou crescimento de 3,6% no número de empresas em recuperação judicial em relação aos três primeiros meses do ano, o equivalente a 19 novos casos. O movimento mantém a curva de crescimento observada nos últimos períodos.

“Parece que cada segmento tem características próprias que levam à crise”, avalia o advogado goiano especialista em recuperação judicial Hanna Mtanios Hanna Júnior, em entrevista ao Jornal Opção. Para ele, porém, existe um fator comum entre diferentes setores: o ambiente macroeconômico.
“Me parece que o setor, e algumas características, coincida para todos, que seria um cenário macroeconômico que envolve o Brasil todo, e até alguns outros países, que é a alta taxa de juros. Me parece que o dinheiro no Brasil está caro”, afirma.
Varejo em xeque: Casas Bahia e Marabraz recorrem à Justiça
Entre os casos mais recentes que ajudam a ilustrar a crise empresarial estão Casas Bahia e Lojas Marabraz. As duas empresas recorreram à Justiça neste mês de agosto para renegociar suas dívidas enquanto tentam manter as operações.
A Casas Bahia acumula pendências de R$ 17,3 bilhões, enquanto a dívida da Marabraz chega a R$ 140 milhões. Antes de protocolar o pedido, a Casas Bahia já havia fechado quase 300 lojas e tentava levar adiante a demissão de cerca de 3 mil funcionários. Os cortes, porém, foram suspensos pela Justiça do Trabalho nesta quarta-feira, 19, com base no entendimento do Supremo Tribunal Federal de que dispensas coletivas devem ser precedidas de negociação sindical.
Para Hanna, as dificuldades enfrentadas pelo varejo também estão relacionadas às transformações no comportamento dos consumidores e ao avanço das compras pela internet.
“Imagina que o varejo no Brasil e no mundo vai mudar. Hoje a gente compra muita coisa pelo celular, você entra aí no celular, num site desse internacional, enfim, sai com compras e chega na sua casa em 24 horas. Você não está nem saindo de casa”, pontua.
Segundo o advogado, a mudança do mercado exige adaptação das grandes empresas do setor. “Então, o mercado mudou, o setor mudou, e vai ser preciso que essas gigantes nacionais se adequem a isso. Não quer dizer que a Casas Bahia não vai mudar, mas me parece que as gigantes nesse setor chegaram, invadiram o mercado, e demoraram a se adaptar. E acho que isso explica o setor passar por uma crise.”
O varejo concentra alguns dos exemplos mais conhecidos da atual onda de dificuldades empresariais. O setor foi fortemente afetado pelo escândalo contábil da Americanas, revelado em 2023, e posteriormente registrou pedidos de recuperação judicial de empresas como Dia, Polishop e Tok&Stok.
O Grupo Pão de Açúcar (GPA), por sua vez, recorreu à recuperação extrajudicial, modalidade em que a renegociação das dívidas é feita diretamente com os credores, sem a condução do processo pela Justiça.
Em Goiás, o comércio aparece entre os setores com maior número de empresas em recuperação judicial. São 116 empresas em RJ no segundo trimestre, atrás apenas do agronegócio.
Agronegócio goiano é o segundo com mais pedidos no Brasil
O setor agropecuário é, de longe, o mais afetado pela recuperação judicial em Goiás. Dos 552 pedidos em estoque, 172 são do agronegócio, segundo os dados apresentados na análise.
O setor apresenta IRJ de 14,2%, o que, conforme o levantamento, significa mais de 14 empresas em recuperação judicial para cada mil empresas ativas.
No primeiro trimestre de 2026, Goiás registrou 73 pedidos de recuperação judicial no agronegócio, segundo levantamento da Serasa Experian. O Estado ficou atrás apenas de Mato Grosso, que contabilizou 135 solicitações.
Em todo o país, foram 474 pedidos de recuperação judicial no setor no primeiro trimestre, alta de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025.
O cenário ocorre apesar da expectativa de crescimento da produção nacional de grãos. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma safra de 360,8 milhões de toneladas em 2025/26, avanço de 2,4% sobre o ciclo anterior.
Na avaliação de Hanna, fatores como a queda no preço das commodities, o custo dos insumos e os juros elevados pressionam o produtor.
“Commodities caíram de preço. Os insumos na mão de estrangeiros, de pouca gente do Brasil cuidando disso. Os insumos estão na mão de poucas pessoas, poucas empresas no mundo”, explica.
“Juros, dinheiro caro, o empresário do lado, me parece que vinha com hábitos de quem estava ganhando muito dinheiro. E depois a coisa não ficou tão boa assim. Eu acho que eles não estavam preparados para essa crise”, acrescenta.
Juros e endividamento aumentam pressão
A situação das empresas também ocorre em um cenário de maior pressão sobre as contas públicas e sobre o custo do dinheiro no país.
A dívida pública brasileira, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), deve alcançar 100% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. O avanço está relacionado a uma combinação de juros elevados, déficit fiscal e crescimento econômico insuficiente, dinâmica que aumenta a dificuldade de estabilização do endividamento.
No Brasil, o pagamento de juros consome cerca de 8% do PIB, pressionando as contas públicas e o ambiente de investimentos.
Para empresas que já enfrentam dificuldades de caixa, a manutenção de juros elevados pode aumentar o custo de empréstimos e dificultar a renegociação de débitos.
Apesar do nome e da associação frequente com crises financeiras, Hanna ressalta que a recuperação judicial não deve ser entendida como sinônimo de falência.
“Ao contrário, a empresa não está quebrando, mas está buscando reorganizar suas dívidas. Recuperação judicial, eu costumo dizer, que não é uma notícia ruim. É uma notícia que o empresário está atento e está buscando recuperar sua empresa e manter seu negócio, manter a fonte produtora de riqueza, manter os empregados, manter a fonte pagadora de impostos. É isso”, afirma.
O advogado compara o processo a uma UTI para pacientes em estado grave. A recuperação permite suspender temporariamente a cobrança de determinadas dívidas e cria condições para que a empresa reorganize suas finanças e negocie com os credores.
Empresas conseguem se recuperar em Goiás
Apesar do aumento dos pedidos, Goiás também possui exemplos de empresas que conseguiram atravessar o processo de recuperação judicial e continuar funcionando.
Hanna cita o Empório Piquiras, além de restaurantes, lojas e escolas que passaram pelo processo.
“Teve o Empório Piquiras que passou por recuperação judicial e continuou funcionando. Também tiveram muitas lojas, restaurantes, o Kabanas Restaurante e Bar e algumas escolas que passaram e se recuperaram. Enfim, tem muita empresa que deu certo, é possível dar certo. O Empório Piquiras todo mundo conhece na cidade e deu certo”, recorda.
Na avaliação do especialista, o sistema de recuperação judicial em Goiás está amadurecido e conta com profissionais e instituições preparados para lidar com o aumento da demanda.
“O processo de recuperação judicial em Goiás é um processo já bem amadurecido. Goiás é um estado que tem experiência com recuperação judicial. O Poder Judiciário está preparado para receber as demandas. Os juristas entendem do assunto”, afirma.
Segundo Hanna, empresas especializadas em administração judicial também passaram por um processo de qualificação e possuem profissionais preparados para atuar nos processos.
“Goiás está pronto para enfrentar essa dificuldade”, resume.
Número de recuperações pode continuar elevado
Para os próximos anos, o advogado evita fazer uma previsão definitiva, mas afirma que a manutenção dos juros em patamares elevados pode prolongar o cenário de dificuldades.
“Não dá para a gente adivinhar. Mas na suposição, eu acredito que se os juros mantidos como estão, pode ser que esse número se mantenha alto em período de recuperação”, afirma.
Hanna também chama atenção para possíveis efeitos em cadeia. O varejo, por exemplo, pode enfrentar novas dificuldades caso grandes empresas continuem recorrendo à Justiça para reorganizar suas dívidas.
“Dos segmentos, me parece que nós temos uma sinalização, que é o segmento do varejo. Se as gigantes estão passando por isso, pode ser que esse efeito cascata chegue até os menores”, avalia.
O especialista cita ainda o setor da construção civil como uma área que pode demandar atenção, diante da possibilidade de aumento do estoque de imóveis.

“Pode ser que as construtoras, a gente não sabe, em razão da sinalização de que tem muito imóvel em estoque. Só apenas um chute, não dá para saber”, pondera.
Inadimplência acende sinal de alerta
O recorde de empresas inadimplentes registrado pela Serasa Experian acrescenta uma camada importante ao cenário. Em junho, 9,1 milhões de empresas estavam com dívidas em atraso no Brasil, enquanto Goiás tinha mais de 250 mil CNPJs negativados.
Os números não significam que todas essas empresas caminharão para uma recuperação judicial. No entanto, revelam a dimensão do endividamento empresarial e ajudam a explicar o ambiente de maior pressão sobre negócios de diferentes tamanhos.
Em Goiás, as 1,47 milhão de dívidas negativadas, que somam R$ 4,39 bilhões, mostram que o problema não está concentrado apenas nas grandes companhias que chegam aos tribunais. Existe também uma parcela expressiva de empresas que enfrenta dificuldades para manter os pagamentos em dia.
Para Hanna, a identificação precoce do problema é fundamental para evitar que a crise financeira se aprofunde.
“Quando você senta na mesa de gestão, onde se define as coisas, faz os pagamentos e se constata que o caixa está baixo, que não tem condição de pagar, é hora de chamar a assessoria jurídica, financeira e contábil para conversar. É importante fazer isso”, aconselha.
O cenário de Goiás, portanto, combina recorde recente de empresas em recuperação judicial, elevada densidade de processos e mais de R$ 4 bilhões em dívidas empresariais negativadas. Para especialistas, a evolução dos juros, do crédito, dos custos de produção e do consumo será determinante para definir se o número de empresas em recuperação continuará crescendo nos próximos trimestres.

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