Goiás ainda não abre espaço para a esquerda chegar ao Senado

Em toda a história política do Estado, quase a totalidade dos nomes era alinhada à direita. Para 2022, o padrão permanece o mesmo

Historicamente, Goiás é um estado que não elege senadores dentro do espectro da política de esquerda. Atualmente, a cena se repete. Dentre os nove nomes que se declaram ou sinalizam que vão ser candidatos, apenas um é o ponto fora da curva. Especialista afirma que, nem mesmo quando o Brasil era governado pela esquerda, o Estado conseguiu eleger senadores ou governadores alinhados.

Para este ano, a chapa do governador Ronaldo Caiado (União Brasil) é a mais concorrida. Atualmente, há quatro nomes que podem preenchê-la: Delegado Waldir (União Brasil), Alexandre Baldy (PP), Zacharias Calil (União Brasil) e Luiz do Carmo (MDB); além dos prováveis João Campos (Republicanos) e Lissauer Vieira, recém filiado ao PSD. Nas demais chapas, aspiram concorrer ao Senado o empresário do ramo imobiliário Leonardo Rizzo (NOVO), o ex-senador Wilder Morais (PL), a presidente do PSOL em Goiânia, Manu Jacob – única candidatura de mulher e de esquerda – e há também a possibilidade de que volte a concorrer à vaga, o ex-governador Marconi Perillo (PSDB).

Ao Jornal Opção, o cientista político Lehninger Mota, afirma que o fenômeno pode ser explicado analisando a economia local. “Nossa maior força econômica é o agronegócio, então, isso exige um conservadorismo do campo já enraizado na nossa sociedade, o que preenche dois tabus: a falta de mulheres no Senado por Goiás e a falta de senadores esquerdistas sendo eleitos, pois a maioria dos eleitores aqui são de centro, direita e extrema direita”. Até hoje, em 77 anos, a única senadora goiana foi Lúcia Vânia (Cidadania), a qual exerceu o mandato entre os anos de 2003 e 2019.

A mulher pioneira no Senado, foi também a última parlamentar com pautas progressistas. Lúcia Vânia encampa a luta pela maior participação das mulheres na política. Outro nome com pautas mais de centro-esquerda é o ex-governador e ex-senador Henrique Santillo, que exerceu o mandato entre os anos 1979 e 1987. Santillo chegou até mesmo a se filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT), mas a estadia durou poucos meses.

E, ao se falar em PT, Mota destaca que nem mesmo nos anos em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve como presidente da República, isso resultou em um ‘companheiro’ goiano ao Senado, porém, isso não é motivo para desmotivar a esquerda que queira chegar ao poder no Estado, visto que em 2006, Lula teve 54,78% dos votos válidos, contra 45,22% de Geraldo Alckmin (PSB) em Goiás, furando a barreira da direita. “Não é intransponível a esquerda se erguer”.

Ao ser questionado sobre o que falta para que o campo progressista crie forças em Goiás, o especialista afirma que é preciso fomentar o trabalho de base, sobretudo no campo feminino. “É preciso que haja nas escolas, sindicatos e partidos um trabalho amplo de conscientização. Em estados mais populosos, como São Paulo, há espaços para a esquerda ascender ao poder, mas aqui em Goiás ninguém ainda conseguiu. E isso não é motivo de desistência, é motivo de luta, perspectiva, pensar no que está errado, na abordagem que estão fazendo e em como a esquerda está sendo desenhada na cabeça das pessoas. É preciso aprofundar o debate”. Mota destaca que o diálogo deva ser ampliado, mostrando que “o campo progressista não é contra o agro, contra a religião ou os valores da família, mas que simplesmente possui pensamentos plurais e abertos”. Segundo ele, esse processo é lento, pois é necessário uma mudança cultural. 

O estímulo às candidaturas femininas deve ser pautado também dentro dos partidos políticos, de acordo com o cientista, sobretudo quando se fala em candidaturas majoritárias. “Para que as mulheres participem ativamente, é necessário também que elas estejam em grandes partidos, andem por todo o Estado, o que não é barato. É preciso que tenha condições, estruturas e palanque. O partido precisa funcionar como atalho informacional e que a luta aconteça lá dentro, com as pessoas participando, pois o grande problema é a definição de candidatos dentro do partido. Se você tiver quatro políticas dentro de uma sigla e disponibilizar esses nomes ao eleitor, ele deverá, obrigatoriamente, escolher entre alguma. Se você tem a maior parte com homens e com condições financeiras melhores, a chance de uma mulher ser eleita é muito pequena. É preciso que tenha mulheres com chances reais de serem eleitas”, diz.

Com o cenário desfavorável tanto para a esquerda, quanto para uma maior participação feminina, Goiás conta hoje com três senadores, todos de direita, mesmo com um deles sendo oposição ao governo de Jair Bolsonaro (PL). Jorge Kajuru (Podemos), Luiz do Carmo (PSC) e Vanderlan Cardoso (PSD) foram os escolhidos pela maior parte dos goianos para defenderem e honrarem com seus interesses.

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