Donni Araújo

Após o retorno da MotoGP ao Brasil, mais precisamente a Goiânia, outra modalidade internacional do esporte a motor pode estar se preparando para montar o seu circo na capital goiana. Trata-se da IndyCar Series, que, no Brasil, é conhecida como Fórmula Indy.

As tratativas estão apenas no início, mas a possibilidade da realização do evento foi anunciada pelo Governo de Goiás por ocasião de visita de representantes da categoria ao Estado. O encontro aconteceu na primeira quinzena de abril e a ele esteve presente Mark Miles, presidente e CEO da Penske Entertainment INDYCAR, acompanhado por Willy Herrmann e Carlo Garcia, representantes da INDYCAR para a América Latina.

Eles foram recebidos pelo governador Daniel Vilela e, mais do que apenas conversar, os dirigentes da Indy visitaram o Autódromo Internacional de Goiânia Ayrton Senna, fazendo uma vistoria informal do circuito. Palavras elogiosas não faltaram por parte dos visitantes, que destacaram o traçado da pista e a qualidade das instalações.

Ao que tudo indica, não vai nem dar tempo de esfriar o asfalto depois de as motos do Mundial acelerarem.

Goiânia em outro patamar

Se a negociação ainda está em estágio inicial, o movimento em si já diz bastante sobre o momento vivido pelo Autódromo Internacional de Goiânia.

Trazer uma categoria mundial como a IndyCar Series, ou mesmo entrar no radar de seus promotores, não se resume à realização de uma corrida. Indica a capacidade de disputar espaço em um calendário que, por definição, é restrito e altamente competitivo.

Goiânia sempre teve tradição no automobilismo brasileiro. Isso não está em discussão. O que muda agora é o alcance do prestígio que a Cidade tem nos esportes automotores.

Depois da realização da MotoGP, um dos principais campeonatos do esporte a motor no mundo, o autódromo passa a operar em outro nível de exigência e, consequentemente, de possibilidades.

Não se trata de substituir um evento por outro, nem de estabelecer qualquer tipo de hierarquia entre categorias distintas. Trata-se de ocupar o equipamento dentro de um padrão internacional.

É nesse ponto que a fala do governador Daniel Vilela ganha sentido quando menciona a ideia de transformar a região em um polo esportivo, não como conceito abstrato, mas como diretriz prática de utilizar a estrutura disponível para atrair eventos diversos, capazes de gerar calendário, fluxo e visibilidade.

A possível chegada da Indy se encaixa nessa lógica.

Componente político

O que está em curso não é apenas uma negociação pontual. É um movimento que aponta para a tentativa de dar continuidade ao uso qualificado do autódromo.

Grandes eventos esportivos não funcionam apenas como espetáculo. Funcionam como vitrine.

Projetam imagem, movimentam a economia local e posicionam a Cidade dentro de um escopo mais amplo, tanto esportivo quanto comercial e institucional.

A MotoGP já cumpriu esse papel ao recolocar Goiânia em evidência mundial.

A Indy, se avançar, não será uma continuação direta desse evento, mas outro passo dentro de uma estratégia de ocupação de espaço global.

Do ponto de vista institucional, a movimentação também é compreensível.

Ao buscar novos eventos, o Governo reforça a ideia de legado da reforma do autódromo, não como obra concluída, mas como estrutura em uso, com capacidade de gerar atividade contínua.

Isso amplia o capital simbólico da própria MotoGP, que deixa de ser um episódio isolado e passa a ser parte de uma política mais ampla de inserção da Cidade e do Estado em grandes calendários esportivos.

Há, ainda, um elemento adicional no caso da Indy, que é a relação histórica da categoria com o Brasil.

O País já teve protagonismo na competição, inclusive com títulos conquistados pelos pilotos Emerson Fittipaldi, Gil de Ferran, Tony Kanaan e Cristiano da Matta, o que confere peso adicional a qualquer tentativa de retorno da categoria ao Brasil.

O que é a Fórmula Indy?

O que representa, de fato, essa categoria dentro do automobilismo mundial?

De onde ela vem, qual o seu peso real e por que ainda consegue mobilizar interesse suficiente para entrar no radar de novas praças ao redor do mundo?

Para entender o que pode estar em discussão em Goiânia, é preciso antes compreender o tamanho — e também os limites — dessa categoria no mundo do automobilismo.

A chamada Fórmula Indy — denominação ainda amplamente utilizada no Brasil — corresponde à atual IndyCar Series, principal campeonato de monopostos dos Estados Unidos e, em termos de conceito, o equivalente norte-americano à Fórmula 1.

Trata-se, no entanto, de um produto diferente.

Ao contrário da Fórmula 1, que opera em um modelo global centralizado, a Indy mantém uma identidade própria, fortemente ligada ao mercado norte-americano e a um formato técnico que combina três tipos de circuito, que são os ovais, os mistos e as pistas de rua.

Seu principal evento é a prova das 500 Milhas de Indianápolis, uma das mais tradicionais do automobilismo mundial, disputada no Indianapolis Motor Speedway desde 1911.

Origem, evolução e formato atual

A origem da categoria remonta à construção do próprio circuito de Indianápolis, em 1909. A partir daquele momento, o campeonato foi se desenvolvendo ao longo do século XX, passando por diferentes fases e organizações, entre elas a CART, que dominou o cenário entre 1979 e 2003, e a IRL, criada em 1996.

A configuração atual nasceu em 2008, com a unificação dessas estruturas sob o nome IndyCar Series.

Ou seja, apesar das mudanças, trata-se de uma linhagem histórica contínua.

Peso internacional e alcance real

Dentro do cenário global, a Indy ocupa uma posição clara.

Não está no mesmo patamar da Fórmula 1 nem da MotoGP, mas também está longe de ser uma categoria secundária.

Ela mantém audiência consistente nos Estados Unidos, com transmissões que atingem a casa de um (1) a dois (2) milhões de espectadores por prova, chegando a superar os cinco (5) milhões nas 500 Milhas. A categoria é exibida em mais de 100 países e sustenta um modelo comercial sólido, baseado em operação privada.

Trata-se de um produto relevante, com forte presença no mercado norte-americano e inserção internacional seletiva.

O Brasil dentro da Indy

A relação do Brasil com a Indy é antiga e, durante um período, foi central.

Emerson Fittipaldi conquistou, em 1989, o primeiro título brasileiro na categoria. Depois vieram Gil de Ferran, bicampeão em 2000 e 2001; e Tony Kanaan, em 2004. Cristiano da Matta venceu o campeonato da CART, em 2002.

Além dos títulos, o País acumulou presença constante no grid durante décadas, com nomes como Hélio Castroneves, Rubens Barrichello, Maurício Gugelmin, Raul Boesel e Vitor Meira, entre outros.

Durante muito tempo, o Brasil foi a principal força estrangeira da categoria.

Hoje, esse cenário mudou. A presença brasileira diminuiu consideravelmente, com participações pontuais.

Indy no Brasil e o fator econômico

O País já recebeu etapas da Indy em diferentes momentos, com corridas realizadas no extinto Autódromo de Jacarepaguá (RJ), entre 1996 e 1998, e no circuito de rua do Anhembi (SP), entre 2010 e 2013.

A primeira delas, em 1996, marcou a chegada da Indy ao Brasil e foi vencida pelo piloto brasileiro André Ribeiro, etapa que acompanhei de perto em Jacarepaguá.

Contudo, o histórico da categoria em território brasileiro mostra que a realização desse tipo de evento envolve uma equação complexa.

Estima-se que a taxa para sediar uma etapa varie entre US$ 5 milhões e US$ 15 milhões, com custo total podendo ultrapassar US$ 20 a 30 milhões.

Viabilidade esportiva

Do ponto de vista esportivo, a pergunta inicial é simples: Goiânia comporta a Indy?

Em princípio, sim.

A Indy disputa provas em autódromos permanentes, circuitos de rua e ovais. Goiânia é um circuito permanente, recentemente reformado e capaz de receber eventos internacionais de alto nível.

O fato de a comitiva ter visitado as instalações indica que o autódromo entrou no radar como possibilidade técnica.

Há sinais claros a favor.

A infraestrutura foi requalificada recentemente. Há também experiência operacional com evento internacional de grande porte.

Além disso, o autódromo volta a ser percebido como ativo capaz de receber espetáculos dessa grandeza de forma recorrente.

Mas há fatores de cautela.

A Indy tem exigências próprias. A categoria está há anos fora do Brasil, e o histórico local mostra dificuldades em experiências anteriores.

A síntese direta é que Goiânia é viável, mas todo o processo ainda está em fase inicial.

Viabilidade econômica

Até porque, se a análise esportiva aponta possibilidade, a econômica é mais sensível.

O principal argumento a favor está no precedente recente.

A MotoGP reuniu cerca de 148 mil espectadores e movimentou cifras expressivas na economia local.

Evidente que isso não garante a repetição do sucesso, mas mostra capacidade de atrair público e gerar fluxo econômico.

Contudo, o histórico da Indy no Brasil recomenda cautela.

Eventos anteriores envolveram custos elevados e dificuldades de sustentação. O cancelamento de uma etapa que seria realizada em Brasília, em 2015, é exemplo recente disso.

Trazer a Indy pode fazer sentido, desde que o investimento seja compatível com o retorno.

É dentro desse cenário que se insere a possibilidade de Goiânia.

A Indy não chega como o maior campeonato do mundo, mas como um produto consolidado, com história e capacidade de projeção.

É isso que está sendo analisado. Mas não significa que o caminho esteja livre.

Trazer o espetáculo envolve custos elevados e negociações complexas.

O momento ainda é de avaliação.

Indy e MotoGP: aproximações e diferenças

É neste quadro — e por causa disso — que a comparação com a MotoGP surge naturalmente, mas precisa ser feita com exatidão.

Ambas são marcas internacionais relevantes, exigem estrutura e funcionam como instrumentos de projeção.

Mas existem diferenças importantes.

Apesar dos contrastes, a MotoGP já demonstrou impacto em Goiânia. Agora pode ser a vez da Indy fazer o mesmo.

É necessário ter em mente que a própria realização do evento da categoria ainda está em fase de negociação.

Mesmo assim, há um dado objetivo em tudo isso, que é o fato de que Goiânia passou a ser considerada como sede viável para eventos internacionais.

O que virá depende de negociação e viabilidade.

Mas o movimento já está feito.

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