Geração anos 60/70 x geração Z: quem é realmente mais forte emocionalmente?
04 maio 2026 às 07h25

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Colaboração de Mylenna Scheidegger
A ideia de que crianças das décadas de 60 e 70 eram mais fortes emocionalmente permanece como uma narrativa social persistente, frequentemente sustentada por memórias afetivas e por um certo desconforto com as fragilidades contemporâneas. No entanto, quando essa percepção é examinada à luz da história da psicologia e confrontada com relatos mais aprofundados das experiências vividas, o que se revela não é uma superioridade emocional, mas uma forma específica de organização psíquica moldada por contextos marcados por autoridade, limitação afetiva e baixa validação emocional.
Para compreender esse cenário, é necessário retornar ao início do século XX, quando Sigmund Freud formulou as bases da psicanálise e estabeleceu que o desenvolvimento psíquico se estrutura a partir do conflito entre impulsos internos e normas sociais. Nesse modelo, a infância é o espaço privilegiado de formação do superego, instância que internaliza a autoridade e regula o comportamento por meio da repressão, da culpa e do medo. Em contextos familiares mais rígidos, como aqueles predominantes nas décadas de 60 e 70, essa internalização tende a ocorrer de forma mais coercitiva, com pouca abertura para negociação emocional.
As entrevistas realizadas confirmam esse padrão. A psicóloga e neuropsicóloga Raquel Magalhães aponta que o desenvolvimento emocional depende fundamentalmente da qualidade da interação com figuras de cuidado. Quando essa interação é limitada ou pouco responsiva, a criança não deixa de se desenvolver, mas passa a organizar seu funcionamento psíquico a partir de estratégias adaptativas que privilegiam a contenção emocional. Em vez de elaborar sentimentos, aprende-se a controlá-los ou ocultá-los.
Essa leitura ganha maior profundidade com as contribuições de Donald Winnicott, que ao longo do século XX deslocou o foco da repressão para a qualidade do ambiente. Para Winnicott, o desenvolvimento saudável depende de um ambiente suficientemente bom, capaz de sustentar a espontaneidade da criança. Quando esse ambiente falha, surge o chamado “falso self”, uma organização psíquica baseada na adaptação às expectativas externas. O indivíduo aprende a funcionar socialmente, mas à custa de um distanciamento de sua experiência emocional autêntica.
É nesse ponto que a noção de “força emocional” atribuída às gerações passadas começa a se desfazer. O silêncio emocional, frequentemente interpretado como maturidade, pode ser compreendido como um efeito direto de ambientes em que a expressão de sentimentos não encontrava acolhimento. A criança aprende a não chorar, a não questionar, a não demonstrar fragilidade — não porque tenha elaborado essas emoções, mas porque não havia espaço para elas.
Entre mito e desenvolvimento: o que a neurociência diz sobre a “força” emocional
A ideia de que gerações passadas eram mais fortes emocionalmente encontra resistência quando analisada a partir da psicologia do desenvolvimento. Para a psicóloga e neuropsicóloga Raquel Magalhães, esse discurso ignora um ponto central: o desenvolvimento humano não acontece de forma isolada, mas depende diretamente das relações e do ambiente. A chamada “força” de outras épocas, nesse sentido, não pode ser compreendida sem considerar o contexto em que essas crianças cresceram.
“É um mito falar que as crianças das décadas de 60 e 70 eram mais fortes”, afirma a especialista. Segundo ela, o que havia era uma maior exposição à negligência emocional e física, especialmente no campo afetivo. Em um ambiente com pouca validação emocional, ausência de diálogo e uso frequente de punição, muitas crianças aprenderam a suprimir sentimentos e a se adaptar ao sofrimento como parte natural da vida.
Esse processo, no entanto, não deve ser confundido com desenvolvimento emocional saudável. “Uma coisa é desenvolver estratégias para sobreviver ao mundo, outra coisa é desenvolver regulação emocional saudável”, explica. A diferença é fundamental: enquanto a sobrevivência exige adaptação imediata, a regulação emocional envolve compreensão, elaboração e integração das experiências.
Do ponto de vista neuropsicológico, essa ausência de suporte tem efeitos diretos. A criança precisa de uma figura responsiva para construir segurança emocional — base que permite explorar o mundo com confiança. Sem isso, o que se observa é o oposto: aumento de ansiedade, insegurança e dificuldades sociais. O cérebro, desde cedo, depende dessas respostas de cuidado para organizar suas funções emocionais.

Diante desse cenário, Raquel aponta que o desafio atual não está em reproduzir modelos do passado, mas em encontrar um equilíbrio entre afeto e limite. “Autoritarismo não funciona. Permissividade também não é legal”, afirma. Para ela, o desenvolvimento saudável passa por um modelo que combine cuidado emocional com limites claros — uma construção que exige não apenas mudança na educação das crianças, mas também na forma como os próprios adultos lidam com suas emoções.
A psicoterapeuta Chris Reynol reforça essa interpretação ao observar, na clínica, que muitos adultos carregam partes de sua experiência emocional “trancadas” desde a infância. São vivências que não puderam ser simbolizadas e que permanecem ativas, influenciando padrões de comportamento, especialmente em situações de crise ou vulnerabilidade. “Partes autênticas da criança que não foram aceitas acabam sendo ‘trancadas’ dentro dela — e isso se transforma em um núcleo de dor que acompanha a vida inteira”, relatou Chris em entrevista ao Jornal Opção.
“A gente trabalha com adultos justamente para acessar essa criança que continua viva dentro deles, mas da qual se desconectaram ao longo da vida”, explica a psicoterapeuta.
No entanto, reduzir esse período a um cenário exclusivamente repressivo seria uma simplificação inadequada. As entrevistas também evidenciam aspectos positivos, especialmente no que se refere à autonomia e à vida comunitária. A convivência com a família ampliada, a liberdade de circulação no espaço público e a construção de vínculos sociais fora do núcleo doméstico aparecem como elementos estruturantes dessa infância.

O relato de Renara Scheidegger sintetiza essa ambivalência. Ao mesmo tempo em que descreve uma infância marcada por liberdade e interação social, também aponta para relações familiares rígidas, especialmente no que diz respeito à autoridade paterna e à dificuldade de expressão emocional. Essa coexistência entre autonomia prática e limitação afetiva revela que o desenvolvimento psíquico não pode ser analisado de forma linear.
A criança das décadas de 60 e 70 podia ser funcionalmente independente, capaz de lidar com desafios concretos desde cedo, mas emocionalmente restrita. Essa combinação produziu sujeitos adaptados às exigências externas, mas frequentemente desconectados de suas próprias experiências internas. A chamada “força”, nesse contexto, emerge menos como um indicador de maturidade emocional e mais como um sinal de adaptação a ambientes onde sentir — e demonstrar — nem sempre era permitido.
A transformação contemporânea: do controle à exaustão psíquica
A partir da segunda metade do século XX, a compreensão do desenvolvimento emocional passa por uma inflexão importante com a contribuição de John Bowlby e a formulação da teoria do apego. Diferentemente das abordagens centradas na disciplina ou na repressão, Bowlby demonstra que a segurança emocional se constrói a partir da presença consistente de figuras de cuidado responsivas. O vínculo, e não apenas a norma, torna-se o eixo central do desenvolvimento.
Essa mudança teórica acompanha transformações sociais mais amplas, que se intensificam nas últimas décadas. Se antes o sofrimento psíquico estava associado à repressão, como descrito por Freud, a contemporaneidade apresenta uma configuração distinta. O filósofo Byung-Chul Han descreve essa transição ao apontar a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho, na qual o controle deixa de ser exercido por instâncias externas e passa a ser internalizado pelo próprio indivíduo.
Nesse novo cenário, o sujeito não é apenas obediente — ele se torna responsável por se otimizar continuamente. A exigência não vem mais apenas de fora, mas de dentro. Essa mudança produz uma forma diferente de sofrimento: não mais centrada na repressão, mas no esgotamento. A sensação de insuficiência, a necessidade constante de produtividade e a dificuldade de estabelecer limites claros criam um estado permanente de tensão.
A análise de Zygmunt Bauman complementa esse quadro ao descrever a chamada modernidade líquida, caracterizada pela instabilidade das relações e pela fragilidade das estruturas sociais. Em um contexto em que vínculos são mais transitórios e menos previsíveis, a construção de referências emocionais consistentes torna-se mais difícil.
Essa transformação aparece de forma concreta nas entrevistas. Renara, ao refletir sobre sua própria infância, afirma não se sentir segura para oferecer aos filhos a mesma liberdade que teve. A percepção de risco, amplificada pelo fluxo constante de informações, redefine os limites da autonomia infantil. O espaço público, antes associado à liberdade, passa a ser percebido como ameaça.
Ao mesmo tempo, há um avanço significativo no reconhecimento da importância da vida emocional. Diferentemente das gerações anteriores, há hoje maior incentivo à expressão de sentimentos, à escuta e à validação das experiências internas. No entanto, essa abertura ocorre em um contexto de instabilidade e alta exigência, o que gera uma nova forma de tensão: a dificuldade de sustentar emocionalmente aquilo que agora pode ser dito.
A contribuição do neurocientista Sidarta Ribeiro permite compreender os efeitos dessa configuração no funcionamento do cérebro. Seus estudos indicam que o equilíbrio psíquico depende de condições como sono adequado, vínculos estáveis e tempo para elaboração simbólica. A sociedade contemporânea, marcada por hiperconectividade e aceleração, compromete esses três pilares, mantendo o organismo em estado constante de ativação.
Esse estado contínuo de alerta dificulta a regulação emocional, prejudica a consolidação da memória e aumenta a vulnerabilidade a transtornos como ansiedade e depressão. O cansaço descrito por Byung-Chul Han, portanto, não é apenas uma metáfora filosófica, mas um fenômeno com base neurobiológica.
A psicoterapeuta Chris Reynol observa que, nesse contexto, experiências emocionais não elaboradas tendem a emergir com maior intensidade na vida adulta. A fragilidade dos vínculos contemporâneos dificulta a construção de espaços de elaboração, fazendo com que o sujeito permaneça preso a padrões que já não respondem às demandas atuais.
“Aquilo que foi aceito na infância vira uma máscara — e, com o tempo, deixa de ser algo verdadeiro para se tornar uma obrigação pesada”.

Ao comparar as gerações, torna-se evidente que não se trata de uma oposição entre força e fraqueza, mas de diferentes formas de adaptação a contextos históricos distintos. As gerações das décadas de 60 e 70 lidaram com a repressão emocional e a ausência de escuta; as gerações atuais enfrentam a sobrecarga, a instabilidade e a autoexigência.
Em ambos os casos, o desenvolvimento psíquico se dá em condições imperfeitas, exigindo estratégias que deixam marcas. A diferença está na visibilidade dessas marcas: antes mais silenciosas, hoje mais expostas — mas não necessariamente mais elaboradas. O desafio contemporâneo, portanto, não é apenas reconhecer o sofrimento, mas construir condições reais para sua elaboração, sem cair na idealização de um passado que, embora diferente, também foi atravessado por suas próprias limitações.
O resultado é um organismo constantemente ativado, operando em estado de alerta prolongado. Essa condição afeta a regulação emocional, dificulta a consolidação da memória e aumenta a vulnerabilidade a quadros de ansiedade e depressão. O cansaço descrito por Byung-Chul Han, portanto, ultrapassa o campo da filosofia e encontra respaldo na biologia: trata-se de um esgotamento que se inscreve tanto na experiência subjetiva quanto no funcionamento neural.
Nesse contexto, a leitura clínica apresentada pela psicoterapeuta Chris Reynol ganha especial relevância. Segundo ela, muitos indivíduos chegam à vida adulta carregando experiências emocionais que não puderam ser elaboradas na infância. Essas vivências permanecem ativas, organizando padrões de comportamento e sendo reativadas em momentos de crise. A fragilidade dos vínculos contemporâneos tende a intensificar esse processo, dificultando a construção de espaços de sustentação emocional capazes de promover elaboração e transformação.
Ao colocar essas dimensões em perspectiva, a comparação entre gerações deixa de ser uma disputa simplista entre força e fraqueza. O que se observa são formas distintas de adaptação a contextos históricos específicos. As gerações das décadas de 60 e 70 se desenvolveram sob a lógica da repressão e da autoridade, aprendendo a conter emoções em ambientes com baixa validação afetiva. Já as gerações contemporâneas crescem em um cenário de maior abertura emocional, mas também de intensa pressão, instabilidade e autoexigência.
Em ambos os casos, o desenvolvimento psíquico ocorre em condições imperfeitas, exigindo do sujeito estratégias de adaptação que deixam marcas duradouras. A diferença fundamental está na forma como essas marcas se manifestam. No passado, elas tendiam a permanecer silenciosas, incorporadas à estrutura da personalidade sem necessariamente serem nomeadas. No presente, tornam-se mais visíveis, mais discutidas e mais expostas — mas não necessariamente mais elaboradas.
Diante disso, a ideia de que uma geração foi mais forte do que a outra perde consistência. O que existe são diferentes formas de lidar com limites, pressões e ausências. Compreender essas diferenças não implica idealizar o passado nem patologizar o presente, mas reconhecer que cada período histórico produz suas próprias configurações de sofrimento — e, consequentemente, suas próprias formas de enfrentamento.
Entre adaptação e julgamento: o comportamento muda, não a força

A comparação entre gerações costuma cair em um lugar comum: a ideia de que os mais velhos seriam mais fortes, enquanto os mais jovens seriam mais frágeis. Mas, para quem cresceu em meio a tecnologia, informação constante e novas formas de relação, essa leitura começa a soar simplista. A análise comportamental propõe um outro caminho — menos moral e mais contextual — para entender essas diferenças.
“Dizer que as crianças de gerações passadas eram mais fortes provavelmente fazia sentido quando a sociedade estava alinhada com o que ‘ser forte’ significava naquelas épocas”, explica o especialista em behaviorismo Pedro Cotrim. Segundo ele, aquilo que hoje poderia ser visto como dificuldade emocional, antes era interpretado como virtude. “O que ontem podia parecer força, quando olhamos por uma lente de análise comportamental, era só o produto de um histórico de punição sistêmica e pouca validação emocional.”
Essa mudança de perspectiva ajuda a entender também por que práticas antigas, como a punição, ainda são defendidas por parte da sociedade. “Punir funciona”, afirma Cotrim. Mas ele faz uma ressalva importante: “ela produz supressão do comportamento e gera sentimentos e comportamentos indesejados, como mentiras, esquivas, medo e ansiedade”. Ou seja, o efeito imediato pode dar a impressão de controle, mas o custo emocional aparece no longo prazo — algo que muitas gerações anteriores carregam, mesmo sem nomear.
Se o passado era marcado por repressão, o presente traz um cenário completamente diferente. O ambiente contemporâneo, especialmente para os jovens, é definido por excesso de estímulos, recompensas rápidas e mudanças nas relações familiares. “Hoje temos uma grande densidade de reforço imediato… quase nenhuma exposição à privação”, explica Cotrim. Para ele, isso não significa piora, mas transformação: “o ambiente não necessariamente piorou o comportamento das crianças, mas mudou a forma com que elas interagem com o mundo”.
Dentro dessa lógica, comparar gerações como se uma estivesse certa e a outra errada perde o sentido. “O que é certo ou errado é apenas o que está adaptado ao ambiente”, afirma o especialista. Ele aponta que pessoas criadas em contextos de escassez tendem a tolerar mais adversidade, enquanto aquelas que crescem em ambientes mais abertos desenvolvem maior capacidade de expressão emocional. No fim, o comportamento não é uma questão de força ou fraqueza, mas de adaptação às condições disponíveis — e o erro está justamente em transformar isso em julgamento moral.

