Funcionários usam IA no trabalho e podem expor dados da empresa sem perceber; entenda os riscos
25 setembro 2026 às 17h32

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Ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, como ChatGPT e Gemini, já entraram na rotina de trabalhadores para escrever textos, resumir documentos, analisar informações e produzir conteúdos. A facilidade, porém, trouxe um novo problema para as empresas: funcionários podem inserir dados de clientes, contratos, informações financeiras e até estratégias internas nessas plataformas sem saber exatamente como o conteúdo será processado.
O risco aumenta quando o uso ocorre por iniciativa do próprio trabalhador, sem regras estabelecidas pela empresa. Embora a tecnologia possa agilizar tarefas, o compartilhamento de informações internas com ferramentas externas pode envolver questões de proteção de dados, segurança da informação, confidencialidade e até responsabilidade sobre o material produzido.
Dados pessoais de clientes e funcionários, documentos financeiros, contratos, estratégias comerciais, projetos ainda não divulgados e informações protegidas por acordos de confidencialidade estão entre os conteúdos que exigem maior cuidado.
As condições de armazenamento, processamento e utilização das informações não são necessariamente iguais em todas as plataformas e podem variar conforme a ferramenta, o tipo de conta e as configurações adotadas. Por isso, avaliar previamente o que pode ou não ser compartilhado passa a fazer parte dos cuidados necessários no ambiente profissional.
LGPD também entra na discussão
O advogado trabalhista Lucas Aguiar alerta que o uso da inteligência artificial no trabalho também precisa ser observado sob a perspectiva da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Segundo ele, o simples fato de uma informação estar disponível digitalmente não autoriza sua transferência para qualquer sistema.
“Empresas que lidam com dados pessoais precisam considerar finalidade, necessidade, segurança, governança e demais requisitos aplicáveis ao tratamento dessas informações”, explica.
Na prática, um funcionário que copia dados de um cliente ou trechos de documentos internos e os insere em uma ferramenta de IA pode estar transferindo informações para um ambiente externo à empresa. O risco dependerá do conteúdo compartilhado, das configurações utilizadas e das políticas da plataforma.
Por isso, a orientação é evitar a inserção de informações sensíveis, confidenciais ou pessoais em ferramentas que não tenham sido previamente autorizadas e avaliadas pela empresa.
IA pode apresentar informações que não existem
A proteção dos dados não é o único ponto de atenção. Sistemas de inteligência artificial generativa também podem produzir informações incorretas com aparência de verdade, fenômeno conhecido como “alucinação”.
Isso significa que uma resposta bem escrita e aparentemente fundamentada não é necessariamente correta. A ferramenta pode apresentar dados inexistentes, atribuir informações a fontes que nunca as publicaram ou chegar a interpretações equivocadas.
“Um texto pode conter uma estatística inexistente, uma referência que não foi publicada, uma interpretação jurídica equivocada ou uma informação aparentemente convincente, mas incorreta”, alerta Aguiar.
O problema ganha dimensão maior quando o material produzido pela IA é incorporado diretamente a relatórios, contratos, pareceres, comunicações com clientes ou outros documentos profissionais sem conferência.
Quem responde pelo que a IA produziu?
A utilização da inteligência artificial não transfere automaticamente para a ferramenta a responsabilidade pelas informações empregadas no ambiente profissional.
“A responsabilidade pelo conteúdo utilizado profissionalmente não desaparece porque uma máquina participou de sua elaboração”, afirma o advogado.
Segundo Aguiar, uma eventual análise de responsabilidade pode considerar fatores como quem autorizou o uso da tecnologia, quais informações foram fornecidas ao sistema, de que maneira o conteúdo produzido foi utilizado e quais mecanismos de segurança e revisão foram adotados.
No ambiente trabalhista e empresarial, também podem existir consequências quando o uso inadequado da tecnologia provoca prejuízos a clientes ou terceiros. Dependendo das circunstâncias, o empregador pode responder por atos praticados pelo funcionário durante o exercício de suas atividades profissionais.
A possibilidade reforça a necessidade de as empresas definirem previamente como a inteligência artificial pode ser incorporada ao trabalho, em vez de permitir que cada funcionário estabeleça individualmente seus próprios critérios.
Empresas precisam estabelecer limites
Uma política interna pode determinar quais ferramentas são autorizadas, quais tipos de dados não podem ser compartilhados, em quais situações a IA pode ser utilizada e quando o conteúdo precisa passar por revisão humana antes de ser usado.
O treinamento dos funcionários também é apontado como parte desse processo. Além de conhecer as ferramentas, os trabalhadores precisam compreender os riscos relacionados à proteção de dados, à confidencialidade e à confiabilidade das respostas produzidas pelos sistemas.
“Não basta entregar um manual ao trabalhador e esperar que ele saiba diferenciar uma utilização segura de uma situação de risco”, afirma Aguiar.
Para o advogado, o desafio não está em impedir a utilização da inteligência artificial, mas em estabelecer limites para que os ganhos de produtividade não sejam acompanhados por novos riscos jurídicos e de segurança.
Nesse cenário, a adoção da IA deixa de ser apenas uma decisão individual do funcionário e passa a exigir das empresas regras claras sobre como, quando e para quais atividades a tecnologia pode ser utilizada.
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