A Meta pode decidir o que o Brasil pode ver?
25 setembro 2026 às 11h33

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Sob o argumento de ser uma empresa privada, a Meta parece acreditar que pode fazer o que quiser com o debate público. Bloqueia contas, restringe conteúdos e derruba vídeos sem, muitas vezes, explicar claramente quais regras foram violadas. Quando questionada, basta recorrer às palavras mágicas: algoritmo e regras que só ela conhece.
O argumento é conveniente. Para combater notícias falsas, violência e conteúdos criminosos, as big techs dizem ser impossível fiscalizar tudo: são bilhões de publicações, milhões de usuários. Mas, quando decidem atingir determinada conta ou vídeo, essa suposta incapacidade desaparece. O algoritmo encontra, identifica, pune e, não raro, deixa o usuário sem saber exatamente o que fez de errado.
E não se trata de aceitar uma rede social sem regras. Trata-se de perguntar quem fiscaliza quem tem o poder de definir essas regras.
Nenhuma indústria seria autorizada a usar a própria escala como desculpa para não controlar seus produtos. Uma fábrica de molho de tomate não poderia colocar pedaços de animais dentro das latas e dizer que são milhões de unidades produzidas diariamente. Uma plataforma de transporte não poderia permitir que sequestradores se passassem por motoristas alegando que existem milhares de cadastros.
Por que as redes sociais deveriam ser diferentes?
A questão fica ainda mais grave quando o poder da plataforma alcança o processo eleitoral. Uma empresa estrangeira pode interferir no alcance de discursos, campanhas e candidatos brasileiros, muitas vezes sem oferecer uma explicação transparente sobre seus critérios.
Imagine uma plataforma chinesa suspendendo a propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro e dizendo apenas: “Você violou nossas regras”. Sem explicar qual regra, qual conteúdo ou como recorrer. Haveria indignação — e com razão.
Então, por que seria aceitável quando a empresa é americana? A Meta pode ser privada. O debate democrático brasileiro, não.
Algoritmos não são forças da natureza. São sistemas criados, configurados e administrados por pessoas. Por isso, quando uma plataforma decide o que milhões podem publicar, assistir ou divulgar, a pergunta não deveria ser apenas o que o algoritmo permite.
É preciso perguntar quem programou o algoritmo, quais critérios utiliza e, principalmente, o que a Meta não quer que você veja.


