Falhas na gestão reduzem rentabilidade da pecuária brasileira
03 maio 2026 às 17h54

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Apesar de liderar o ranking do comércio mundial, com mais de 230 milhões de cabeças de gado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil ainda enfrenta um entrave dentro das porteiras: a falta de gestão eficiente em parte das propriedades de pecuária de corte.
Especialistas apontam que, embora o setor tenha avançado em áreas como genética, nutrição e tecnologia, muitos produtores ainda tomam decisões com base apenas na experiência prática, sem controle de custos ou indicadores de desempenho. O resultado é um descompasso entre produção e lucro.
Nos últimos anos, ferramentas digitais, como aplicativos e softwares, passaram a fazer parte da rotina no campo. Ainda assim, a simples adoção dessas tecnologias não garante melhores resultados. “O produtor até registra dados, mas ainda administra a fazenda de forma operacional”, afirma Layla Salles, especialista em gestão do agronegócio pela Fundação Getulio Vargas e em produção de ruminantes pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Segundo ela, transformar dados em decisões é o que torna a atividade mais rentável.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também aponta a ausência de controle de custos como um dos principais gargalos da pecuária nacional. Mesmo com forte presença no mercado internacional, muitas propriedades têm dificuldade em ampliar o lucro final.
A pressão econômica, por sua vez, tem aumentado. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indicam que as oscilações no preço da arroba e dos insumos exigem respostas rápidas dos produtores, algo que depende diretamente do domínio sobre os números da propriedade.
Na prática, alguns produtores já buscam alternativas para melhorar a gestão. A pecuarista Kátia Marina, por exemplo, tem investido na capacitação da equipe como estratégia para aumentar a eficiência. “Estou investindo em treinamentos para garantir que os colaboradores recebam informações relevantes e sejam preparados para desempenhar suas funções com eficiência”, afirma.
Esse movimento de profissionalização também tem impulsionado o surgimento de iniciativas voltadas à gestão no campo. Empresas como a Berrante Gestão Pecuária atuam com foco em estratégia, tecnologia, capacitação e acompanhamento das propriedades. “O grande desafio não é apenas produzir bem, mas gerir com clareza e direção”, diz o CEO Kennedy Alves.
Produtores que adotaram esse modelo relatam ganhos no controle e na tomada de decisão. É o caso de André Pinto e Nilton Pinto, que passaram a acompanhar dados da fazenda em tempo real após a implantação de ferramentas de gestão. Segundo eles, a mudança trouxe mais previsibilidade e eficiência à operação.
Em um cenário de custos elevados e margens pressionadas, especialistas são unânimes: a gestão deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica para a sustentabilidade da pecuária brasileira. Produzir bem continua sendo essencial, mas, sozinho, já não garante resultado no fim das contas.
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