Saiba quem são os “43%” que podem ditar o rumo da eleição presidencial
03 maio 2026 às 16h13

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A última pesquisa de intenção de voto para presidente da República do instituto AtlasIntel, divulgada em 28 de abril, mostra o atual chefe do Executivo federal, Lula da Silva, do PT, empatado nos cenários de segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro, do PL, mas liderando nos cenários de primeiro turno, mesmo que com uma margem menor em comparação com levantamentos anteriores.
De toda forma, o retrato da AtlasIntel repete uma tendência que vem desde que Flávio Bolsonaro foi anunciado por seu pai, o ex-presidente Jair, como o candidato da direita bolsonarista: a polarização Lula x Bolsonaro segue viva, mesmo oito anos após a eleição de Jair, em 2018, quando o então deputado federal quebrou uma longa sequência de eleições nas quais o PT foi exitoso. Fala-se aqui de quatro eleições consecutivas, com dois mandatos de Lula, que agora está no terceiro, e um mandato e meio de Dilma Rousseff.
Contudo, enquanto a esquerda mantém como único nome o de Lula, justamente o que lidera as intenções de voto, a direita tenta propor outras alternativas para quebrar a divisão entre petistas e bolsonaristas, mesmo que muitos desses nomes tenham tido, em um passado não muito distante, ligação direta com a base bolsonarista e seus representantes.
Entre eles, Renan Santos, do Missão Brasil, que se apresenta como um radical outsider da política; o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que a cada dia tem se radicalizado mais e, aparentemente, tenta passar a imagem de um bolsonarista mais raiz do que os próprios Bolsonaros; e o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que, ao contrário de Zema, trilha desde o início seu próprio caminho, com uma pré-candidatura que se descola cada vez mais do bolsonarismo e mira o eleitor de centro e centro-direita cansado da polarização.
Acontece que a aparente indestrutibilidade dessa divisão nacional, como se o país tivesse passado a operar em um modelo semelhante ao dos Estados Unidos, Democratas versus Republicanos, pode ser fruto da falta de percepção de outros nomes viáveis para a disputa e da baixa visibilidade desses candidatos, algo que eles, pelo menos em parte, já parecem ter percebido.
Abertos a propostas
Em entrevista à revista Veja, o cientista político e escritor Antonio Lavareda, conhecido por sua expertise em comportamento eleitoral e marketing político, foi questionado sobre os números frequentemente registrados nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que mostram, invariavelmente, Lula e Flávio Bolsonaro polarizados, com os outros pré-candidatos a grande distância.
“Olhar hoje para as pesquisas é, em grande medida, olhar para algo aparente”, respondeu o cientista, acrescentando haver dados que apontam que 43% dos eleitores admitem que ainda podem mudar de voto.
Lavareda acrescentou: “Isso ocorre porque outros candidatos ainda têm baixa lembrança entre os eleitores, o que reforça artificialmente a polarização”. Em outras palavras, Lula e Flávio lideram as pesquisas porque são os mais lembrados, e não necessariamente porque têm a preferência final do eleitorado.

O dado trazido por Lavareda faz referência à pesquisa Genial/Quaest divulgada em meados de março, que mostrou que 56% dos eleitores já têm voto definido para presidente, enquanto 43% afirmam que podem mudar de ideia.
Entre os pré-candidatos, Lula da Silva é o que tem maior vantagem: 67%. Outros 31% dizem que podem mudar o voto e 2% não souberam ou não responderam. Já com relação a Flávio, segundo o levantamento, 63% se consideram decididos a votar nele, enquanto 36% afirmam que podem mudar a escolha. 1% não soube ou não respondeu.
Em entrevista ao Jornal Opção, o mestre e doutor em Ciência Política, consultor eleitoral e estrategista político Josimar Gonçalves fez coro a Lavareda e afirmou que a leitura do momento eleitoral brasileiro faz sentido quando se observa o funcionamento real das campanhas eleitorais, especialmente em cenários ainda distantes do dia da votação.
Para Gonçalves, autor do livro Foco no Voto, é importante chamar atenção para o fato de que as pesquisas do momento mostram mais a lembrança do que uma decisão consolidada. “No caso de Lula e Flávio Bolsonaro, ambos têm altíssima visibilidade nacional. Um como presidente, outro como herdeiro político de um ex-presidente, além de possuírem bases eleitorais estruturadas e identificáveis. Penso que este momento cria uma aparência de definição, mas não um cenário consolidado.”

O cientista político destaca também que esse cenário de volatilidade, com mais de 40% dos eleitores abertos a mudar o voto, beneficia pré-candidatos em busca de espaço na direita moderada, como o próprio Caiado.
Segundo ele, “o ponto mais importante da análise é que a polarização atual é inflada pela visibilidade, e candidatos menos conhecidos aparecem menos nas pesquisas não por rejeição, mas por baixa exposição”. E emendou: “Nomes como Caiado têm espaço para crescer à medida que a campanha avança. No caso, ele tende a disputar justamente o eleitor que não está ideologicamente fechado.”
Josimar Gonçalves aponta que esse cenário abre duas leituras para a pré-campanha de Ronaldo Caiado. Uma delas mostra um risco, com uma base eleitoral ainda frágil. A outra apresenta “uma enorme oportunidade de eleitores em disputa”. “Caso Caiado consiga aumentar seu conhecimento nacional e apresentar uma narrativa competitiva, pode conquistar o voto do eleitor antipolarização”, avaliou.
Nomes como Caiado têm espaço para crescer à medida que a campanha avança
“Outro fator interessante é a rejeição no momento de decisão do voto. Curiosamente, tanto Lula quanto Flávio carregam rejeições altas, em torno de 45% em alguns levantamentos, o que limita o crescimento e abre espaço para terceiros”, pontuou.
Já o professor universitário e cientista político Guilherme Carvalho aponta Lula como o pré-candidato com maior consistência de voto, considerando as pesquisas divulgadas até o momento, mas ressalta que o cenário só ficará mais claro quando os nomes dos candidatos estiverem definidos e os debates começarem.
No entanto, Carvalho destaca a importância dos 43% de não definidos que podem mudar o jogo. “A gente tem que olhar esse número dentro de cada uma das candidaturas. Lula tem a maior consistência. Flávio Bolsonaro tem uma consistência um pouco menor. A oscilação desses dois dá o tom do trabalho que os candidatos de centro-direita e centro-esquerda terão para conquistar esse eleitor, que não é nem um bolsonarista consistente nem um lulista consistente. São votos em disputa, que só vão se definir de fato mais adiante”, explica.
Sobre o ex-governador de Goiás, o cientista político prevê que o trabalho dele neste momento “é justamente tentar identificar quem é esse eleitor e fazer um trabalho consistente para alcançá-lo e fazê-lo mudar de opinião, saindo de um voto conhecido para um voto menos conhecido, mas que adere mais às suas expectativas.”

“Independentes” no comando?
“Então, por exemplo, entre os eleitores que buscam um voto antipetista, a questão central é quem consegue apresentar uma plataforma mais consistente nessa direção. Por outro lado, há também o eleitor que procura um voto antibolsonarista, que geralmente dá mais peso a propostas na área econômica, menos a pautas de valores e mais a medidas concretas e tangíveis”, pontua Carvalho, que aponta esse como o primeiro fator que pode levar um eleitor a mudar de opinião.
“Se o Caiado conseguir demonstrar maior viabilidade, seja para o eleitor antipetista ou para o antibolsonarista, especialmente em comparação com o que seus adversários estão propondo, ele pode, sim, reverter votos”, conclui.
A oscilação desses dois dá o tom do trabalho que os candidatos de centro-direita e centro-esquerda terão para conquistar esse eleitor, que não é nem um bolsonarista consistente nem um lulista consistente
Um levantamento da Genial/Quaest divulgado no mês passado trouxe outro dado que torna mais claro o cenário volátil da chamada falsa polarização. De acordo com o instituto, a maioria dos eleitores se considera independente: 32%.
Os de direita não bolsonarista vêm logo depois, com 21%, enquanto os lulistas são 19% e os de esquerda não lulista aparecem com 14%. Bolsonaristas são apenas 12%, enquanto 2% não souberam ou não responderam.
A região Sul, ainda de acordo com a pesquisa, concentra a maior parcela de independentes, com 34%. No Nordeste, eles somam 32%, mesmo patamar dos lulistas convictos na região.

No Sudeste, também lideram com 32%, seguidos pela direita não bolsonarista. Já no Norte e Centro-Oeste, somam os mesmos 32%, abrindo 10 pontos de vantagem sobre o segundo grupo mais expressivo, a direita não bolsonarista.
A pesquisa dá ainda mais força à tese de que, apesar de mais barulhentos e visíveis, lulistas e bolsonaristas podem não ser tão numerosos quanto se imagina, o que deixa ainda mais aberto um espaço a ser ocupado pelo chamado meio termo.
Batendo em Chico e Francisco
Desde que assumiu sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, Ronaldo Caiado (PSD) adota um discurso antipolarização, em tom crítico ao que chama de extremos da política. O ex-governador, no entanto, parece ter deixado de lado a busca pela posição de terceira via, focando no eleitorado que tende à direita moderada.
Em entrevista concedida à imprensa no mês passado, Caiado não poupou críticas ao PT. Segundo ele, “o PT governou o país por 18 anos e o que trouxe foi algo que decepcionou muito o brasileiro”. “O Brasil deixou de ser referência internacional, deixou de crescer, deu espaço para a criminalidade e o narcotráfico. Um partido que acumula uma frequência de escândalos, corrupção, enriquecimento ilícito e baixa qualidade em educação e segurança pública, sem dar ao cidadão o mínimo de condições de desenvolver sua própria atividade”, avaliou.
O pessedista, no entanto, também não poupou críticas à gestão de Jair Bolsonaro, figura à qual se considera alinhado ideologicamente e que hoje banca seu filho Flávio Bolsonaro como pré-candidato a presidente e, automaticamente, adversário de Caiado.
Sem citar diretamente o nome do filho do ex-presidente, mas fazendo referência indireta ao histórico de questionamentos do clã Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro e aos métodos científicos de prevenção durante a pandemia do coronavírus, Caiado se disse um entusiasta do debate e um democrata na essência.
“Eu não contesto resultado. Resultado de urna eu sempre respeitei e acolhi. Você nunca me viu contestando voto, nunca me viu contestando a ciência. Você me viu, não com discursos, mas com ações para garantir a segurança pública no meu estado. Me viu com ações, tendo a educação em primeiro lugar no Ideb”, destacou.
O ex-governador ainda alfinetou: “O PT teve cinco mandatos. Estava no quarto e perdeu para o PL. Se o PL tivesse feito uma boa gestão, o PT não teria sido eleito em 2022”.
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