A última pesquisa de intenção de voto para presidente da República do instituto AtlasIntel, divulgada em 28 de abril, mostra o atual chefe do Executivo federal, Lula da Silva, do PT, empatado nos cenários de segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro, do PL, mas liderando nos cenários de primeiro turno, mesmo que com uma margem menor em comparação com levantamentos anteriores.

De toda forma, o retrato da AtlasIntel repete uma tendência que vem desde que Flávio Bolsonaro foi anunciado por seu pai, o ex-presidente Jair, como o candidato da direita bolsonarista: a polarização Lula x Bolsonaro segue viva, mesmo oito anos após a eleição de Jair, em 2018, quando o então deputado federal quebrou uma longa sequência de eleições nas quais o PT foi exitoso. Fala-se aqui de quatro eleições consecutivas, com dois mandatos de Lula, que agora está no terceiro, e um mandato e meio de Dilma Rousseff.

Contudo, enquanto a esquerda mantém como único nome o de Lula, justamente o que lidera as intenções de voto, a direita tenta propor outras alternativas para quebrar a divisão entre petistas e bolsonaristas, mesmo que muitos desses nomes tenham tido, em um passado não muito distante, ligação direta com a base bolsonarista e seus representantes.

Entre eles, Renan Santos, do Missão Brasil, que se apresenta como um radical outsider da política; o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que a cada dia tem se radicalizado mais e, aparentemente, tenta passar a imagem de um bolsonarista mais raiz do que os próprios Bolsonaros; e o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que, ao contrário de Zema, trilha desde o início seu próprio caminho, com uma pré-candidatura que se descola cada vez mais do bolsonarismo e mira o eleitor de centro e centro-direita cansado da polarização.

Acontece que a aparente indestrutibilidade dessa divisão nacional, como se o país tivesse passado a operar em um modelo semelhante ao dos Estados Unidos, Democratas versus Republicanos, pode ser fruto da falta de percepção de outros nomes viáveis para a disputa e da baixa visibilidade desses candidatos, algo que eles, pelo menos em parte, já parecem ter percebido.

Abertos a propostas

Em entrevista à revista Veja, o cientista político e escritor Antonio Lavareda, conhecido por sua expertise em comportamento eleitoral e marketing político, foi questionado sobre os números frequentemente registrados nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que mostram, invariavelmente, Lula e Flávio Bolsonaro polarizados, com os outros pré-candidatos a grande distância.

“Olhar hoje para as pesquisas é, em grande medida, olhar para algo aparente”, respondeu o cientista, acrescentando haver dados que apontam que 43% dos eleitores admitem que ainda podem mudar de voto.

Lavareda acrescentou: “Isso ocorre porque outros candidatos ainda têm baixa lembrança entre os eleitores, o que reforça artificialmente a polarização”. Em outras palavras, Lula e Flávio lideram as pesquisas porque são os mais lembrados, e não necessariamente porque têm a preferência final do eleitorado.

O dado trazido por Lavareda faz referência à pesquisa Genial/Quaest divulgada em meados de março, que mostrou que 56% dos eleitores já têm voto definido para presidente, enquanto 43% afirmam que podem mudar de ideia.

Entre os pré-candidatos, Lula da Silva é o que tem maior vantagem: 67%. Outros 31% dizem que podem mudar o voto e 2% não souberam ou não responderam. Já com relação a Flávio, segundo o levantamento, 63% se consideram decididos a votar nele, enquanto 36% afirmam que podem mudar a escolha. 1% não soube ou não respondeu.

Em entrevista ao Jornal Opção, o mestre e doutor em Ciência Política, consultor eleitoral e estrategista político Josimar Gonçalves fez coro a Lavareda e afirmou que a leitura do momento eleitoral brasileiro faz sentido quando se observa o funcionamento real das campanhas eleitorais, especialmente em cenários ainda distantes do dia da votação.

Para Gonçalves, autor do livro Foco no Voto, é importante chamar atenção para o fato de que as pesquisas do momento mostram mais a lembrança do que uma decisão consolidada. “No caso de Lula e Flávio Bolsonaro, ambos têm altíssima visibilidade nacional. Um como presidente, outro como herdeiro político de um ex-presidente, além de possuírem bases eleitorais estruturadas e identificáveis. Penso que este momento cria uma aparência de definição, mas não um cenário consolidado.”

“O ponto mais importante da análise é que a polarização atual é inflada pela visibilidade”, diz Gonçalves | Foto: Reprodução/Instagram

O cientista político destaca também que esse cenário de volatilidade, com mais de 40% dos eleitores abertos a mudar o voto, beneficia pré-candidatos em busca de espaço na direita moderada, como o próprio Caiado.

Segundo ele, “o ponto mais importante da análise é que a polarização atual é inflada pela visibilidade, e candidatos menos conhecidos aparecem menos nas pesquisas não por rejeição, mas por baixa exposição”. E emendou: “Nomes como Caiado têm espaço para crescer à medida que a campanha avança. No caso, ele tende a disputar justamente o eleitor que não está ideologicamente fechado.”

Josimar Gonçalves aponta que esse cenário abre duas leituras para a pré-campanha de Ronaldo Caiado. Uma delas mostra um risco, com uma base eleitoral ainda frágil. A outra apresenta “uma enorme oportunidade de eleitores em disputa”. “Caso Caiado consiga aumentar seu conhecimento nacional e apresentar uma narrativa competitiva, pode conquistar o voto do eleitor antipolarização”, avaliou.

Nomes como Caiado têm espaço para crescer à medida que a campanha avança

“Outro fator interessante é a rejeição no momento de decisão do voto. Curiosamente, tanto Lula quanto Flávio carregam rejeições altas, em torno de 45% em alguns levantamentos, o que limita o crescimento e abre espaço para terceiros”, pontuou.

Já o professor universitário e cientista político Guilherme Carvalho aponta Lula como o pré-candidato com maior consistência de voto, considerando as pesquisas divulgadas até o momento, mas ressalta que o cenário só ficará mais claro quando os nomes dos candidatos estiverem definidos e os debates começarem.

No entanto, Carvalho destaca a importância dos 43% de não definidos que podem mudar o jogo. “A gente tem que olhar esse número dentro de cada uma das candidaturas. Lula tem a maior consistência. Flávio Bolsonaro tem uma consistência um pouco menor. A oscilação desses dois dá o tom do trabalho que os candidatos de centro-direita e centro-esquerda terão para conquistar esse eleitor, que não é nem um bolsonarista consistente nem um lulista consistente. São votos em disputa, que só vão se definir de fato mais adiante”, explica.

Sobre o ex-governador de Goiás, o cientista político prevê que o trabalho dele neste momento “é justamente tentar identificar quem é esse eleitor e fazer um trabalho consistente para alcançá-lo e fazê-lo mudar de opinião, saindo de um voto conhecido para um voto menos conhecido, mas que adere mais às suas expectativas.”

Guilherme Carvalho, cientista político | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

“Independentes” no comando?

“Então, por exemplo, entre os eleitores que buscam um voto antipetista, a questão central é quem consegue apresentar uma plataforma mais consistente nessa direção. Por outro lado, há também o eleitor que procura um voto antibolsonarista, que geralmente dá mais peso a propostas na área econômica, menos a pautas de valores e mais a medidas concretas e tangíveis”, pontua Carvalho, que aponta esse como o primeiro fator que pode levar um eleitor a mudar de opinião.

“Se o Caiado conseguir demonstrar maior viabilidade, seja para o eleitor antipetista ou para o antibolsonarista, especialmente em comparação com o que seus adversários estão propondo, ele pode, sim, reverter votos”, conclui.

A oscilação desses dois dá o tom do trabalho que os candidatos de centro-direita e centro-esquerda terão para conquistar esse eleitor, que não é nem um bolsonarista consistente nem um lulista consistente

Um levantamento da Genial/Quaest divulgado no mês passado trouxe outro dado que torna mais claro o cenário volátil da chamada falsa polarização. De acordo com o instituto, a maioria dos eleitores se considera independente: 32%.

Os de direita não bolsonarista vêm logo depois, com 21%, enquanto os lulistas são 19% e os de esquerda não lulista aparecem com 14%. Bolsonaristas são apenas 12%, enquanto 2% não souberam ou não responderam.

A região Sul, ainda de acordo com a pesquisa, concentra a maior parcela de independentes, com 34%. No Nordeste, eles somam 32%, mesmo patamar dos lulistas convictos na região.

Pesquisa Genial/Quaest, divulgada em abril deste ano | Foto: Reprodução

No Sudeste, também lideram com 32%, seguidos pela direita não bolsonarista. Já no Norte e Centro-Oeste, somam os mesmos 32%, abrindo 10 pontos de vantagem sobre o segundo grupo mais expressivo, a direita não bolsonarista.

A pesquisa dá ainda mais força à tese de que, apesar de mais barulhentos e visíveis, lulistas e bolsonaristas podem não ser tão numerosos quanto se imagina, o que deixa ainda mais aberto um espaço a ser ocupado pelo chamado meio termo.

Batendo em Chico e Francisco

Desde que assumiu sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, Ronaldo Caiado (PSD) adota um discurso antipolarização, em tom crítico ao que chama de extremos da política. O ex-governador, no entanto, parece ter deixado de lado a busca pela posição de terceira via, focando no eleitorado que tende à direita moderada.

Em entrevista concedida à imprensa no mês passado, Caiado não poupou críticas ao PT. Segundo ele, “o PT governou o país por 18 anos e o que trouxe foi algo que decepcionou muito o brasileiro”. “O Brasil deixou de ser referência internacional, deixou de crescer, deu espaço para a criminalidade e o narcotráfico. Um partido que acumula uma frequência de escândalos, corrupção, enriquecimento ilícito e baixa qualidade em educação e segurança pública, sem dar ao cidadão o mínimo de condições de desenvolver sua própria atividade”, avaliou.

O pessedista, no entanto, também não poupou críticas à gestão de Jair Bolsonaro, figura à qual se considera alinhado ideologicamente e que hoje banca seu filho Flávio Bolsonaro como pré-candidato a presidente e, automaticamente, adversário de Caiado.

Sem citar diretamente o nome do filho do ex-presidente, mas fazendo referência indireta ao histórico de questionamentos do clã Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro e aos métodos científicos de prevenção durante a pandemia do coronavírus, Caiado se disse um entusiasta do debate e um democrata na essência.

“Eu não contesto resultado. Resultado de urna eu sempre respeitei e acolhi. Você nunca me viu contestando voto, nunca me viu contestando a ciência. Você me viu, não com discursos, mas com ações para garantir a segurança pública no meu estado. Me viu com ações, tendo a educação em primeiro lugar no Ideb”, destacou.

O ex-governador ainda alfinetou: “O PT teve cinco mandatos. Estava no quarto e perdeu para o PL. Se o PL tivesse feito uma boa gestão, o PT não teria sido eleito em 2022”.

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