Exército usa “doutrinação antiesquerda” em prova para alunos de sua tropa de elite, diz site

O The Intercept Brasil teve acesso a documentos que mostram que, 40 anos após fim das guerrilhas, a maior das Forças Armadas ainda vê movimentos sociais como inimigos

Homem do Exército Brasileiro em treinamento | Foto: CCS/Exército

O Exército Brasileiro teria realizado em 2020 uma simulação em que os postulantes a integrar sua tropa de elite lutaram contra uma organização armada clandestina fictícia. O inimigo imaginário seria uma dissidência de um tal “Partido dos Operários”, o “PO, que, na simulação, seria responsável por recrutar e treinar militantes do “MLT”, sigla para o Movimento de Luta pela Terra, também imaginado pelos criadores do exercício militar.

O relato foi obtido pelo repórter Rafael Moro Martins, do The Intercept Brasil. Os documentos que descrevem o exercício foram entregues ao site por uma fonte que pediu para não ser identificada, por medo de retaliações. A Operação Mantiqueira foi realizada em novembro do ano passado, em Piquete (SP), cidade com menos de 15 mil habitantes localizada no Vale do Paraíba e próxima à divisa com Minas Gerais e Rio de Janeiro, a 206 quilômetros da capital paulista. A cidade também é local de uma das mais antigas unidades da Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), estatal vinculada ao Exército.

Em seu texto, Moro Martins infere que “o teor do exercício a que os oficiais do Exército submetem candidatos às suas Forças Especiais deixa claro que, passados quase 40 anos desde a redemocratização, a maior das três Forças Armadas não apenas segue a enxergar movimentos sociais e políticos de esquerda como inimigos: ela também está sendo treinada para combatê-los”.

Segundo a reportagem, participaram da Operação Mantiqueira sargentos de carreira e oficiais do Exército que eram alunos do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOpEsp), localizado em Niterói (RJ). Foi a última atividade do curso que serve como vestibular para o ingresso nas Forças Especiais. Em 2020, segundo a fonte que entregou os documentos ao Intercept, de uma turma de quase 40 alunos, 17 foram aprovados para trabalhar no Batalhão de Forças Especiais (BFEsp), sediado em Goiânia.

O repórter disse ter apresentado os documentos a dois pesquisadores que detêm amplo conhecimento do universo militar e a um alto oficial da reserva, que pediu para não ser identificado, também pelo temor de represálias. Os três os consideraram autênticos.

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