Ex-prefeito de Araguapaz denuncia vereadores por suposta extorsão

Documentos mostram teriam pedido R$ 290 mil para arquivar um processo de impeachment contra a prefeita Márcia Bernardino, sua esposa

Ex-prefeito gravou encontro com vereadores que cobraram valores para arquivar impeachment da prefeita de Araguapaz | Foto: Reprodução Processual

O ex-prefeito de Araguapaz (GO), José Segundo Rezende Júnior, esteve na redação do Jornal Opção nesta quarta-feira, 28, para relatar que entregou à Polícia Civil alguns vídeos e áudios em que cinco vereadores supostamente cobram dele a quantia de R$ 290 mil para arquivar um processo de impeachment contra sua esposa e ex-prefeita da cidade, Márcia Bernardino Rezende (MDB) — que teve mandato cassado.

As primeiras tentativas de uma suposta extorsão se deram em fevereiro deste ano, quando a Câmara Municipal de Araguapaz recebeu o primeiro pedido de impeachment contra Márcia Bernardino, oferecido por Jonas Souza da Rocha, ex-prefeito da cidade e suposto adversário político.

Em 10 de junho, a presidência da Câmara Municipal recebeu o pedido e decidiu pelo prosseguimento do processo. No mesmo dia, José Júnior conta que os parlamentares realizaram o sorteio para composição da comissão que analisaria o impeachment. Foram sorteados três integrantes: Pedro da Silva Souza (DEM) como presidente, Egnaldo José de Carvalho (PSDB) como relator e Frederico Antonio Monteiro (PHS) como membro titular.

A partir da instalação da comissão, cinco vereadores teriam começado a procurar José Júnior para cobrar propina a fim de arquivar o processo contra sua esposa. Antes da primeira votação em plenário que decidiria pelo afastamento da prefeita Márcia Bernardino, seu esposo teria realizado o pagamento parcelado: dois cheques de R$ 70 mil, cinco de R$ 60 mil, um de R$ 25 mil e um de R$ 40 mil. Todos suspensos depois que o processo foi efetivamente arquivado.

Segundo José, ao saber que não receberiam o pagamento dos cheques, os vereadores instauraram um segundo processo de impeachment contra a prefeita. Novamente os mesmos parlamentares envolvidos no processo teriam voltado a procurar o ex-prefeito para uma cobrança mais rigorosa dos valores, segundo relatos de José Rezende Júnior.

De um encontro marcado em seu apartamento em Goiânia, o ex-prefeito gravou um vídeo em que aparecem os vereadores narrando os bastidores do processo na Câmara Municipal e acertando novas formas de pagamento. Segundo imagens do vídeo, o vereador Egnaldo José de Carvalho (PSDB), relator do impeachment, narra que ganhou do vice-prefeito de Araguapaz, Gabriel do Espanhol (PP), um carro e R$ 50 mil para tocar o processo na Câmara.

O Jornal Opção teve acesso aos áudios gravados pelo ex-prefeito José Júnior e entregues na Polícia Civil. Os documentos foram submetidos análise de autenticidade pelo perito Marcos Augusto Monteiro, que, segundo a denúncia, analisou as gravações e atestou integridade e autenticidade das vozes, não constatando nenhum tipo de adulteração.

No primeiro áudio, o vereador Frederico Antonio Monteiro pede R$ 290 mil a José Júnior. Estavam presentes no encontro o vereador Célio Ferreira Nunes, Egnaldo José e Pedro da Silva.

Frederico: Chega mais nos duzentos e noventa e lá, e se precisar, nós completamos…
Júnior: Aí eu não dou conta, aí é quase trezentos mil… Eu não dou conta…
Aí a gente inteira um pouquinho do nosso, se o doutor precisar… Você autoriza o Célio, agora se o doutor precisar, não quiser… fica nos duzentos e cinquenta e cinco…

Trecho da conversa gravada entre o ex-prefeito e vereadores | Foto: Reprodução processual

Numa segunda conversa gravada, fica acertado que o dinheiro seria entregue em um saco plástico e guardado debaixo da cama do vereador Derci Francisco Pereira. O ex-prefeito sugere um depósito na conta de um conhecido do vereador, mas logo a sugestão é esfriada com medo de que o dinheiro seja rastreado.

José Rezende Júnior afirma que nunca pagou nenhum valor do qual foi pedido e que tentou “enrolar o máximo possível” para fazer as gravações e entregá-las à Polícia Civil. Os vereadores foram procurados na noite de quarta-feira, 28, mas não localizados.

O ex-prefeito relata que o vereador Derci Pereira teria sugerido locais para esconder o dinheiro. Outro vereador, Frederico Monteiro teria dito que “vai sumir com a parte dele em Goiânia”.

A denúncia de José Júnior ressalta que “mesmo sabendo que incorriam nos crimes de corrupção passiva e extorsão qualificada, uniram-se os requeridos [vereadores] para solicitar quantia certa do requerente, sem temer a possibilidade de serem descobertos, com a certeza da impunidade prosseguiram no feito acreditando que o requerente [José Júnior] seria de mesma índole e cederia suas extorsões”.

A reportagem entrou em contato com o vereador Célio Ferreira, que não se posicionou até esta publicação. Os demais não foram encontrados. O espaço está aberto para manifestação.

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