Problemas de visão não diagnosticados podem comprometer o desempenho escolar de crianças, provocar dificuldades de leitura e gerar comportamentos que podem ser confundidos com transtornos como TDAH e dislexia. Ao Jornal Opção, o presidente da Sociedade Goiana de Oftalmologia (SGO), Leiser Franco, alertou para a importância de investigar a saúde ocular diante de dificuldades persistentes na escola e destacou evidências de que a correção visual pode ter reflexos no aprendizado.

O oftalmologista citou um ensaio clínico randomizado realizado com 2.304 estudantes no qual crianças que precisavam de correção passaram por exames e receberam óculos. Segundo Franco, o estudo identificou melhora no desempenho de leitura no primeiro ano, embora o benefício não tenha permanecido estatisticamente significativo após dois anos.

Para o especialista, o resultado também demonstra que identificar o problema não é suficiente. É necessário garantir diagnóstico, tratamento e acompanhamento ao longo do desenvolvimento da criança.

“Uma política pública eficiente não deveria terminar na triagem. O modelo ideal é triar, encaminhar, realizar exame oftalmológico, fornecer correção óptica quando necessária e acompanhar”, afirmou.

Problema visual pode parecer desatenção

Entre as alterações que mais podem comprometer o desenvolvimento escolar, Franco cita erros refrativos não corrigidos, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, além de anisometropia, ambliopia e estrabismo.

Os impactos variam conforme a condição. Na miopia, por exemplo, a criança pode apresentar dificuldade para enxergar o quadro. A hipermetropia pode exigir esforço constante para atividades de perto, provocando cansaço visual, dor de cabeça e dificuldade para manter a leitura. Já o astigmatismo pode causar visão borrada ou distorcida.

“Uma criança pode ter inteligência e capacidade de aprendizagem absolutamente normais, mas estar recebendo uma informação visual inadequada para executar tarefas escolares”, explicou.

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Presidente da SGO, Leiser Franco, explica a detecção de doenças visuais em sala de aula  | Foto: Divulgação

Segundo Franco, crianças nem sempre percebem ou conseguem comunicar que estão enxergando mal. Por isso, mudanças de comportamento podem ser uma das primeiras manifestações percebidas por familiares e professores.

Aproximar excessivamente o rosto do livro ou caderno, apertar os olhos, inclinar a cabeça, fechar um dos olhos, perder repetidamente a linha durante a leitura, ter dificuldade para copiar o quadro, esfregar os olhos, apresentar dor de cabeça ou cansaço depois de atividades de perto e evitar leituras prolongadas estão entre os sinais de alerta.

TDAH, dislexia e autismo

O presidente da SGO ressalta que uma alteração visual pode produzir comportamentos semelhantes aos observados em crianças com TDAH, dislexia ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas não é responsável por causar essas condições.

“Uma criança que não enxerga adequadamente pode perder o interesse pela leitura, abandonar tarefas, olhar para outros lugares, aproximar-se muito do papel ou apresentar irritabilidade e baixa tolerância às atividades escolares. Para quem observa de fora, isso pode parecer desatenção”, explicou.

Uma criança que lê lentamente por uma dificuldade visual também pode, inicialmente, levantar suspeita de transtorno específico de aprendizagem.

Por isso, Franco chama atenção para o risco de conclusões precipitadas.

“O risco está nos dois extremos: diagnosticar TDAH ou dislexia sem antes verificar visão e audição, ou atribuir uma verdadeira dislexia, TDAH ou TEA simplesmente a um problema ocular. Por isso, diante de dificuldade escolar persistente, a avaliação deve ser multidisciplinar”, afirmou.

O médico também faz uma distinção importante entre capacidade visual e habilidade de leitura.

“Enxergar bem não significa necessariamente ler bem. A visão fornece a informação; a leitura exige que o cérebro reconheça letras, associe grafemas aos fonemas, desenvolva fluência e extraia significado do texto.”

Assim, se uma alteração ocular for corrigida e as dificuldades continuarem, outras causas devem ser investigadas. Na dislexia, por exemplo, Franco explica que a questão central está relacionada principalmente ao processamento da linguagem, e não aos olhos.

Professores podem identificar primeiros sinais

O assunto foi abordado durante palestra ministrada por Franco a professores da Rede de Inclusão e Atendimento Educacional Especializado (AEE) da Rede Municipal de Educação de Goiânia. O encontro, realizado durante as ações do Agosto Azul, tratou da identificação de alterações que podem prejudicar o aprendizado.

Para o oftalmologista, os professores ocupam uma posição estratégica por acompanharem diariamente as crianças durante atividades que exigem leitura, escrita e visão a diferentes distâncias.

“Esse profissional percebe aquela criança que tem dificuldade no aprendizado. A partir dessa identificação, ele pode direcionar ao coordenador de ensino ou falar com a própria família. Um despertar para que esse paciente seja avaliado não só nas questões visuais, mas também nas auditivas e neurológicas, se houver”, pontuou.

CMEI educação infantil em Goiânia | Foto: Divulgação

Apesar disso, Franco ressalta que identificar sinais não significa fazer um diagnóstico.

“O professor tem um papel extraordinariamente importante como observador, não como diagnosticador”, afirmou ao Jornal Opção.

A recomendação é comunicar os comportamentos observados à família e sugerir uma avaliação profissional, evitando atribuir previamente uma condição à criança.

Diagnóstico tardio pode deixar sequelas

A atenção à saúde ocular é especialmente importante nos primeiros anos porque o sistema visual passa por um período de intensa maturação e plasticidade cerebral.

Segundo Franco, quanto mais cedo forem identificadas condições como ambliopia, estrabismo significativo, anisometropia e catarata, maiores são as possibilidades de recuperação.

“Quando o diagnóstico é muito tardio, podemos perder parte dessa plasticidade e a criança permanecer com redução visual definitiva”, alertou.

Criança em consulta oftalmológica | Foto: Reprodução

Embora crianças mais velhas e até adolescentes possam apresentar melhora em determinados casos de ambliopia após tratamento, os melhores resultados tendem a ocorrer quando a intervenção é precoce.

O problema não se restringe à saúde ocular. O tempo sem diagnóstico pode coincidir justamente com uma das fases mais importantes da formação escolar.

“Uma criança pode passar anos importantes da alfabetização enxergando inadequadamente antes que alguém perceba o problema”, destacou.

Teste do olhinho não é suficiente

Outro alerta do especialista é para a falsa sensação de segurança depois de um resultado normal no teste do olhinho. O exame realizado nos primeiros dias de vida é essencial, mas não substitui avaliações posteriores.

“O teste do olhinho é fundamental, mas não substitui as avaliações visuais posteriores. Ele busca principalmente alterações importantes presentes no início da vida; não foi desenvolvido para detectar todos os erros refrativos, ambliopia ou alterações que surgirão posteriormente”, explicou.

Teste do olhinho | Foto: Reprodução

De acordo com o protocolo apresentado pelo oftalmologista, o teste deve ser realizado nas primeiras 72 horas de vida e repetido durante os exames de rotina no primeiro ano. Entre 6 e 12 meses, a recomendação é realizar uma avaliação oftalmológica completa. Dos 3 aos 5 anos, a criança deve passar por pelo menos um exame completo, com atenção à acuidade visual, ao estrabismo e à ambliopia.

“Existe um espaço importante entre ‘passou no teste do olhinho’ e ‘está enxergando adequadamente para ser alfabetizado’”, resumiu.

Professores relatam impacto na rotina escolar

Para a gerente de Inclusão da Secretaria Municipal de Educação (SME), Lliana Gusmão, aproximar educação e saúde ajuda os profissionais a reconhecer comportamentos que merecem investigação.

“A palestra de hoje foi fundamental, porque a educação e a saúde andam juntas. Quando o professor compreende como a nossa visão é formada e como ela participa da consolidação do conhecimento, fica melhor preparado e treinado para estar atento aos sinais de que há um problema a ser acompanhado”, afirmou.

A professora Maria Aparecida de Oliveira, que atua no atendimento especializado da SME, destacou que comportamentos como evitar atividades de leitura podem servir de alerta.

“Eu saio daqui hoje com uma nova bagagem, renovada, porque a palestra trouxe informações técnicas valiosas de saúde ocular para podermos compreender nuances dentro de sala”, disse.

Já a professora Marta França destacou que gestos aparentemente simples podem revelar dificuldades. Franzir os olhos ou esfregá-los repetidamente durante uma atividade de leitura, por exemplo, são comportamentos que podem justificar uma conversa com a família e uma avaliação especializada.

Para Franco, esse olhar conjunto entre escola, família e profissionais de saúde é fundamental para evitar que uma dificuldade visual passe despercebida justamente durante os anos decisivos para o desenvolvimento e a alfabetização.

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