“Estamos vendo que vai ter justiça”, diz mãe de Nathaly Rodrigues após CEI dos Fios Soltos pedir indiciamento de presidente da Equatorial
30 setembro 2026 às 16h47

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Raunner Vinícius Soares e João Paulo Alexandre
A Comissão Especial de Inquérito (CEI) dos Fios Soltos pediu o indiciamento do presidente da Equatorial Goiás, Lener Silva Jayme, por possível omissão relevante, falha de governança e tolerância com ocupações irregulares. A informação foi adiantada pelo Jornal Opção nesta terça-feira, 29. A decisão foi bem recebida pela família de Nathaly Rodrigues. A mãe da jovem, Daiane do Nascimento, afirma que o resultado a deixou satisfeita porque “está vendo que vai ter justiça”.
Segundo ela, apesar da dor de perder a filha após uma descarga elétrica, em setembro do ano passado, as conclusões apresentadas pela comissão representam uma expectativa de responsabilização pela morte da adolescente. “A dor ainda está recente, mas, no fim, a gente está satisfeito. Por quê? Porque a gente está vendo que vai ter justiça. Tem que ter justiça.”
Segundo Daiane, a morte da filha não pode ser considerada uma fatalidade, já que havia condições de impedir que a jovem perdesse a vida. “Como foi falado, não foi um acidente. Eles mataram ela, tiraram a vida dela.”
De acordo com o presidente da CEI, Coronel Urzêda (PL), caberá ao Ministério Público avaliar os elementos reunidos durante a investigação e decidir sobre eventuais medidas na esfera criminal. “Primeiramente, o indiciamento do CEO da Equatorial, com responsabilidade criminal e administrativa. Lógico que é uma sugestão nossa para o Ministério Público, que é o detentor da ação penal. Também [buscamos] a responsabilização das outras empresas para que elas possam integrar esse processo e torná-lo mais seguro”, destaca.
Coronel Urzêda destacou ainda que Lener Jayme chegou a recorrer à Justiça para não ser obrigado a comparecer novamente aos trabalhos da comissão. Mesmo reconhecendo que a medida estava dentro do direito do executivo, a CEI pretendia colher um novo depoimento para esclarecer pontos da primeira oitiva. “É um direito. Ele entrou [com o pedido], já tinha sido ouvido na primeira vez, e a gente queria dirimir algumas dúvidas que existiam, na verdade, sobre o que ele falou.”
Urzêda diz que houve divergências entre as informações apresentadas pelo executivo durante o depoimento e o que teria sido constatado posteriormente pela CEI. Entre as questões estava a assistência que teria sido oferecida à família de Nathaly após a morte da adolescente, afirmação que, segundo o parlamentar, não correspondia à realidade. “Ele mentiu nessa CEI quando disse, por exemplo, que todo suporte jurídico, psicológico e financeiro foi oferecido para a família. Nem o caixão essa empresa pagou para a família da Nathaly.”
Em nota ao Jornal Opção a Equatorial Goiás afirmou que prestou esclarecimentos à CEI em depoimento presencial de aproximadamente três horas e por meio de respostas escritas. A companhia ressaltou que o relatório não formaliza indiciamento criminal da distribuidora ou de seu diretor-presidente, nem estabelece responsabilidade pela prática de crime. Segundo a empresa, o documento recomenda apurações pelos órgãos competentes e condiciona eventual indiciamento à comprovação de condutas individuais.
Sobre a morte de Nathaly Rodrigues, a distribuidora afirmou que a ocorrência envolveu a rede elétrica e teve dinâmica distinta das irregularidades em cabos de telecomunicações. Segundo a companhia, um laudo da Polícia Científica aponta que o episódio ocorreu em contexto de evento climático severo, com fortes ventos e danos em diferentes pontos de Goiânia.
A Equatorial também destacou que a regulamentação do compartilhamento de postes estabelece responsabilidades específicas para a distribuidora e as empresas de telecomunicações. Afirmou, ainda, que analisará o relatório e continuará fornecendo informações aos órgãos responsáveis pelas apurações.
Relatório
Segundo o relatório final, o laudo pericial da eletroplessão confirmou que a morte da adolescente ocorreu em uma via pública alagada devido ao contato com um cabo de alumínio energizado que havia se rompido da rede elétrica. A comissão entendeu que, como detentora e administradora dos postes, a Equatorial recebe remuneração pelo compartilhamento e tem o dever regulatório de gerir, aprovar projetos, fiscalizar e notificar irregularidades.
Segundo o documento, a Equatorial apenas emitia notificações e não completava o ciclo de “notificação, fiscalização, penalidade e remoção efetiva do risco”, além de se negar a remover cabos irregulares sob a justificativa de que a medida poderia afetar os serviços.
O relatório destacou ainda a responsabilidade direta das operadoras de telecomunicações em manter suas redes dentro das normas técnicas e remover a fiação ociosa ou desativada. Também foi constatada a proliferação de empresas clandestinas e a falta de controle rigoroso sobre as terceirizadas que realizam serviços de campo e deixam restos de cabeamento nos postes.

O documento apontou ainda que não havia fiscalização específica em andamento por parte da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sobre os fios soltos em Goiânia. A concessionária também teria deixado de acionar formalmente os mecanismos regulatórios de resolução de conflitos para a remoção da fiação irregular.
O relatório também elaborou a minuta do Código Municipal de Ordenamento da Fiação Urbana – Nathaly Rodrigues do Nascimento, com o objetivo de consolidar leis municipais dispersas, criar protocolos permanentes de fiscalização e punição e definir fluxos de emergência. Além disso, foi defendida a implantação gradual e planejada de fiação subterrânea em áreas prioritárias e novos empreendimentos.
“A médio e longo prazo, isso vai ser resolvido, até porque esse Código de Fiação Aérea vai trazer muita coisa, muito benefício para a cidade de Goiânia”, destacou Coronel Urzêda.

Para além do pedido de indiciamento, a comissão também encaminhou as conclusões ao Ministério Público e à Polícia Civil para subsidiar os inquéritos sobre acidentes, mortes, com atenção especial ao caso de Nathaly, e situações de exposição da população a perigo direto.
Também foi solicitado à Aneel e à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que instaurem procedimentos de fiscalização específicos contra a distribuidora e as empresas de telecomunicações que operam irregularmente em Goiânia. A CEI pediu ainda a apuração de possíveis crimes de furto de energia, dano à infraestrutura e exercício irregular de atividade por operadoras clandestinas.
O caso
A adolescente Nathaly Rodrigues, de 17 anos, morreu em 23 de setembro de 2025 após receber uma descarga elétrica provocada por um fio da rede de energia que se rompeu durante o temporal que atingiu Goiânia naquele dia. Em decorrência do caso, três funcionários da Equatorial foram indiciados pela Polícia Civil por homicídio culposo pela morte da adolescente.
Eles também foram indiciados por lesão corporal culposa pelos ferimentos causados ao operador de máquinas Wil Robson dos Reis, que também sofreu uma descarga elétrica, mas sobreviveu. Ele teve queimaduras de segundo grau.
NOTA À IMPRENSA
A Equatorial Goiás informa que prestou esclarecimentos à Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara Municipal de Goiânia em oitiva presencial, com duração de aproximadamente três horas, e por meio de respostas escritas e manifestações complementares encaminhadas aos autos, de forma técnica, transparente e colaborativa.
Após o acolhimento integral do relatório na audiência pública realizada nesta quarta-feira (30), a companhia esclarece que o documento não formaliza indiciamento criminal da distribuidora ou de seu diretor-presidente, nem estabelece responsabilidade pela prática de qualquer crime. O relatório recomenda encaminhamentos aos órgãos competentes para apuração e condiciona eventual indiciamento à comprovação de condutas individuais. Essas recomendações não equivalem a indiciamento policial, denúncia criminal ou condenação.
A distribuidora analisará formalmente o relatório e seus fundamentos e continuará prestando esclarecimentos e disponibilizando as informações técnicas pertinentes a todos os órgãos destinatários dos encaminhamentos. A companhia apresentará suas manifestações nos procedimentos cabíveis, demonstrando as providências adotadas e a observância das obrigações legais e regulatórias aplicáveis.
Quanto ao compartilhamento de postes, a Equatorial Goiás reafirma que a regulamentação estabelece atribuições específicas para a distribuidora e para as empresas de telecomunicações, inclusive quanto à instalação, identificação, manutenção e regularização dos cabos. A companhia seguirá colaborando com os órgãos públicos e os demais agentes envolvidos nas ações relacionadas à infraestrutura.
Em relação ao acidente envolvendo Nathaly Rodrigues, a companhia ressalta que a ocorrência envolve a rede elétrica e possui dinâmica distinta das irregularidades em cabos de telecomunicações. O episódio foi submetido à apuração das autoridades competentes, às quais foram fornecidos esclarecimentos e informações técnicas. Conforme laudo elaborado pela Polícia Científica, o acidente ocorreu em contexto de evento climático severo que atingiu Goiânia, com fortes ventos e danos registrados em diferentes pontos da cidade.
A Equatorial Goiás reafirma seu compromisso com a segurança da população, a transparência e o cumprimento da regulamentação aplicável.
Leia também: CEI dos Fios Soltos pode pedir indiciamento de presidente da Equatorial Goiás em relatório final


