As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acendem um sinal de alerta para a economia de Goiás. O professor e economista Einstein Paniago afirma que o impacto sobre Goiás tende a ser “relevante, porém administrável” no cenário estadual, mas ressalta que os efeitos podem ser severos em regiões com forte concentração produtiva. Embora a maior parte da pauta exportadora do Estado tenha sido preservada pelas listas de exceção, ele avalia que alguns setores estratégicos e municípios altamente dependentes do comércio com o mercado americano poderão enfrentar dificuldades nos próximos meses.

Segundo ele, Goiás exportou US$ 13,4 bilhões em 2025, dos quais US$ 641 milhões tiveram como destino os Estados Unidos, o equivalente a 4,8% das vendas externas do Estado. Segundo levantamentos da Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços, cerca de 85% do valor das exportações goianas destinadas aos Estados Unidos permaneceu fora da nova cobrança. Paniago destaca que “não há uma crise generalizada”, mas alerta que a média estadual esconde situações locais bastante delicadas.

Açúcar orgânico demanda preocupação

O setor sucroenergético aparece como o mais vulnerável. Goiatuba e Goianésia concentram parte significativa da produção brasileira de açúcar orgânico destinada aos Estados Unidos, mercado que remunera um produto de alto valor agregado e difícil substituição. De acordo com o especialista, o problema vai além da tarifa. Como se trata de um nicho específico, encontrar novos compradores exige certificações, logística própria e tempo para abrir mercados.

Paniago observa que uma eventual perda de contratos poderá reduzir margens de lucro, desacelerar investimentos e atingir toda a cadeia econômica, envolvendo produtores rurais, transportadoras, oficinas, fornecedores e o comércio local. “São municípios onde o efeito pode ser muito maior do que os números estaduais indicam”, resume. Na avaliação de Paniago, uma guerra comercial prolongada tende a produzir efeitos primeiro sobre o caixa das empresas e, posteriormente, sobre investimentos e geração de empregos.

Professor e economista, Einstein Paniago | Foto: Divulgação

O professor lembra que Goiás encerrou 2025 com 3,87 milhões de pessoas ocupadas e uma taxa de desemprego de apenas 3,9%, uma das menores da série histórica. Esse cenário oferece maior capacidade de absorção do choque, mas não elimina riscos para municípios fortemente especializados. Segundo ele, caso as restrições comerciais persistam, empresas podem adiar ampliações industriais, reduzir compras de equipamentos e rever contratações temporárias. “A maior ameaça hoje é a incerteza”, afirma.

Retaliação exige cautela

Para o economista, uma eventual resposta brasileira precisa ser conduzida com equilíbrio. Ele avalia que medidas de reciprocidade podem fortalecer a posição do país nas negociações internacionais, desde que sejam seletivas e proporcionais. O especialista alerta que uma retaliação ampla poderia elevar os custos de medicamentos, máquinas, equipamentos industriais e tecnologias importadas, com reflexos para empresas e consumidores goianos. “Reciprocidade deve servir como instrumento de negociação, não como reação emocional”, defende.

Além da atuação diplomática e do questionamento das tarifas na Organização Mundial do Comércio (OMC), Paniago considera fundamental acelerar a diversificação dos destinos das exportações goianas. Paniago avalia que Europa, Ásia, Oriente Médio, América Latina e África representam oportunidades importantes, mas ressalta que conquistar novos mercados exige planejamento, inteligência comercial, investimentos em certificações e fortalecimento das práticas de compliance.

Na avaliação do professor, a disputa comercial evidencia a necessidade de reduzir a dependência de poucos compradores internacionais sem abrir mão da competitividade. Para ele, Goiás reúne condições para superar o momento, desde que combine apoio aos setores mais atingidos, abertura de novos mercados e segurança jurídica para investidores. “O caminho é agir com prudência, fortalecer a competitividade e proteger as cadeias produtivas mais expostas”, conclui.

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