Em Goiás, eleição de novo grão-mestre da Maçonaria movimenta bastidores do poder

Políticos, empresários, juízes, médicos e outros agentes de elevada posição social e ligados à Maçonaria aguardam ansiosos para saber quem será o próximo líder da Grande Loja de Goiás

Fachada da Grande Loja do Estado de Goiás, no Setor Jaó / Foto: Ton Paulo

Os municípios goianos se preparam para escolher nas urnas, em outubro deste ano, os nomes que ocuparão as cadeiras nas prefeituras e câmaras municipais ao redor do Estado. Pré-candidatos a prefeito e vereador já se movimentam para conquistar a atenção e o voto do eleitor goiano, mas, além do pleito a que todos estão acostumados, existe um outro em Goiás que se desenrola um pouco mais discretamente, apesar de, nos bastidores, ter tanta relevância e poder de influência quanto às eleições municipais. É com a eleição para o novo grão-mestre da Grande Loja Maçônica do Estado de Goiás (Gleg) que muitos empresários, juízes, médicos e, é claro, políticos, estão atentos no momento. A votação que decidirá o novo grande líder da Gleg se aproxima, e dois candidatos já trabalham para tentar garantir seus nomes na cadeira sob o ‘olho da providência’.

Prevista para ocorrer no dia 21 de abril deste ano, a votação que vai eleger o novo grão-mestre – título no topo da hierarquia maçônica dentro da Grande Loja – pelos próximos três anos, tempo que dura o mandato, tem sido um dos grandes assuntos nos bastidores do poder em Goiás. A “sociedade fraterna discreta”, tal qual referida pelos próprios maçons, tem representantes nos mais diversos segmentos: jurídico, médico, político, artístico e empresarial. O próprio Pedro Ludovico Teixeira, médico e interventor federal tido como principal responsável pela criação da capital Goiânia, foi um proeminente maçom, iniciado na Loja Luz e Caridade de Uberlândia, Minas Gerais.

Dois notáveis maçons de Goiás estão na corrida eleitoral maçônica, e deverão passar pelo crivo de mais dos quase 4 mil maçons em todo o Estado de Goiás, distribuídos em 129 lojas. São eles o ex-promotor de Justiça e advogado, Tito Amaral, e o médico ortopedista e ex-vereador do PTB, Ruy Rocha. Os dois contam com grande prestígio no meio jurídico e político, assim como dentro da Maçonaria, e a disputa promete ser acirrada. Cada um dos candidatos conta com um vice, chamado de grão-mestre adjunto. Os maçons Mário Martins e Carlos Medeiros integram as chapas de Tito e Rocha, respectivamente.

No que tange à experiência como grão-mestre da Gleg – uma imponente construção no Setor Jaó repleta de símbolos alusivos à cultura grega e egípcia, além de imagens tradicionais da Maçonaria como o esquadro e o compasso -, Rocha conta com um “currículo” invejável. O médico e maçom foi alçado ao cargo por quatro vezes, o que totalizam 12 anos de comando da Grande Loja de Goiás. Segundo ele, o que o leva a pleitear mais uma vez o mais alto grau maçônico é o “chamamento da comunidade maçônica”. “Meu objetivo será, principalmente trabalhar muito para fortalecer a Grande Loja de Goiás, para a união da família maçônica, obedecendo à risca os preceitos da ordem maçônica. Estou atendendo a um chamamento da comunidade da Maçonaria”, disse.

Eleito grão-mestre por quatro vezes, Ruy Rocha concorre novamente / Foto: Arquivo pessoal

Apesar da notória experiência no grau de grão-mestre, uma das críticas que surgiram no meio maçônico à candidatura de Rocha é a “necessidade de renovação” na Grande Loja. Uma vez que o médico ostentou o título por impressionantes quatro vezes, um argumento que ganhou força em prol da candidatura de Tito foi o de que o espaço deveria ser dado ao ex-promotor em nome de uma gestão nova e renovada. O discurso é sustentado pelo próprio atual grão-mestre, Adolfo Valadares.

De acordo com o atual líder da Grande Loja, seu apoio à chapa de Tito e Mário está firmado. “Meu voto é para o Tito e Mário, porque fizeram parte da minha gestão e acho que a questão da renovação é importante pra sobrevivência de qualquer instituição. A outra chapa já deu a sua contribuição. Temos que dar oportunidade para outras gerações”, declarou.

Para Rocha, o argumento não é válido, uma vez que, segundo ele, “renovação se trata de novas ideias”, e não de tempo à frente do grau de grão-mestre. “Me considero novo de novo, renovado. Renova-se com ideias, ações. Isso é renovação. Vamos fazer com que as gerações futuras encontrem um mundo muito melhor que o nosso”, finaliza.

Já Tito Amaral, que além de advogado também já foi titular da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento de Goiás, se mostra confiante quanto à eleição e, segundo ele, o pleito está praticamente garantido. O candidato, cuja proposta para a Grande Loja inclui preservação das conquistas dos últimos anos, também diz que buscará avanços da inserção da Maçonaria no mundo moderno, “sem descurar das tradições e conquistas do passado”. “Vamos mostrar o muito que já foi feito e o quanto ainda podemos fazer pela modernização de nossas relações humanas e maçônicas”, completa.

Tito Amaral, candidato a grão-mestre, já foi titular da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento de Goiás / Foto: Divulgação

A Maçonaria e a escolha de seus líderes

“Maçonaria não é religião, e nem seita. É uma filosofia de vida, uma instituição que prega o bem da humanidade”. Assim define o grão-mestre da Gleg, Adolfo Ribeiro Valadares. O maçom explica que a Grande Loja pode ser comparada a um Estado, e, como todo Estado, passa por um processo democrático para a escolha de seus dirigentes.

Existem duas obediências da Maçonaria, que são: a Grande Loja e o Grande Oriente. Valadares faz uma comparação, e conta que, se a Maçonaria fosse uma religião, as obediências seriam como “ramificações” do mesmo segmento religioso. O processo eleitoral que se desenrola agora é feito para escolher o novo líder da Grande Loja. Para se candidatar, o maçom deve atender às seguintes exigências: ter, no mínimo, sete anos de vivência maçônica; ter sido o presidente de sua respectiva loja e contar com bons antecedentes e boa reputação.

As eleições para grão-mestre ocorrem de três em três anos. Todo o processo eleitoral é organizado e conduzido pelo Tribunal de Justiça Maçônico, semelhante ao civil. No dia da votação, 21 de abril deste ano, urnas serão distribuídas nas lojas maçônicas – que equivalem às seções eleitorais – e os membros da fraternidade escolherão um entre os dois candidatos que concorrem ao título supremo.

Após isso, os resultados são enviados simultaneamente para a Grande Loja, que faz a contabilização e anuncia o vencedor. Em caso de um possível empate, vence aquele que for o mais velho. O nome escolhido é, então, empossado no dia 13 de junho, às 16h. Valadares conta que a cerimônia de posse do novo grão-mestre é um evento solene que conta com a presença de autoridades e personalidades importantes do Estado de Goiás e do Brasil. “É uma cerimônia muito bonita, formal. Estarão presentes aqui o governador [de Goiás], o prefeito [de Goiânia], deputados, senadores, e grão-mestres de várias partes do Brasil que vêm para poderem participar do evento”, revela.

O grão-mestre esclarece que o Tribunal de Justiça Maçônico é formado por maçons os quais ele considera de alto nível intelectual. Segundo ele, são professores universitários, juízes de direitos, advogados, e outros tipos de profissionais que gozam de prestígio da sociedade. “Aqui temos uma elite de pessoas do bem e preparadas intelectualmente”, pondera Valadares.

Ele indica que está satisfeito como o curso do processo eleitoral, que ainda está em fase de campanha. Neste período, os candidatos podem pedir votos para seus “irmãos”, como se referem uns aos outros. Segundo o grão-mestre, o processo está correndo de forma “natural e democrática”. “Não vejo nada de animosidade, nada de anormal. E nem defendo que haja essa questão de rivalidade entre os irmãos. Não pode ter”.

“Aqui não tem pobre”, diz grão-mestre em relação aos integrantes da Maçonaria

Uma das questões que sempre intrigaram o indivíduo leigo que vê a Maçonaria do “lado de fora” é o alto poder aquisitivo de seus membros. O boato de que “para ser maçom, é preciso ser rico” sempre correu, mas esse boato, de acordo com o próprio grão-mestre da Maçonaria, é totalmente verídico.

Segundo Valadares, quando um membro da Maçonaria decide convidar um homem para integrar a fraternidade, sua condição financeira é levada em conta. Ele explica que isso ocorre porque a instituição é formada por pessoas que devem ajudar os menos favorecidos, e é preciso ter uma estrutura financeira para tal. “Aqui não tem pobre. Não tem. Porque aqui precisamos de pessoas que possam ajudar financeiramente, e não ser ajudadas”, conta.

Para o grão-mestre, o fato de o convite para a fraternidade ser feito apenas para homens que tenham boa situação financeira se dá, também, para que o membro não se sinta desconfortável e impotente ao constatar que ele não pode realizar doações e atos de caridade assim como os demais membros. “Nós não vamos convidar uma família para que ela prejudique os próprios interesses dela. A gente não quer essa questão de discriminação social”, resume.

Além de boa posição social, para ser membro da Maçonaria, de acordo com Valadares, há ainda outros requisitos que devem ser preenchidos. Segundo ele, se for casado, o homem deve ter permissão da esposa. É dela que parte o aval para que o marido ingresse na fraternidade caso seja considerado apto. Além disso, o indivíduo deve contar com uma conduta exemplar. Uma passagem pela polícia, um processo na Justiça, seja ele cível ou criminal, ou mesmo uma infração eleitoral podem desqualificar o sujeito para ser um irmão maçom. De acordo com o grão-mestre, o homem deve ter “uma conduta limpa, ética e correta”.

Atual grão-mestre da Gleg, Adolfo Valadares posa ao lado de um busto feito em sua homenagem, na Loja Maçônica Mahatma Racy, em Goiânia / Foto: Arquivo pessoal

Por último e não menos importante, para pertencer à Maçonaria, o homem precisa acreditar em Deus – independente de como O chame. Valadares revela que existem na fraternidade membros das mais variadas religiões: católicos, evangélicos, judeus, budistas, espíritas. Crer em uma força superior é critério indiscutível. “Nós chamamos de O Grande Arquiteto”, relata o grão-mestre.

O grão-mestre conta ainda que Maçonaria busca evitar se envolver em questões políticas. Entretanto, Valadares destaca sua influência e importância no meio em questão, e cita nomes de representantes e apoiadores eleitos na sociedade civil. “Todo ano, temos na Alego, por parte do governo do Estado e da Câmara Municipal de Goiânia, uma homenagem ao Dia do Maçom, que é o dia 20 de agosto. E temos também nossos representantes. Temos aí o Coronel Adailton [deputado estadual pelo Progressistas], a Dra. Cristina, nossa forte apoiadora [vereadora e pré-candidata à Prefeitura de Goiânia pelo PL], temos vários”, conta.

Ele destaca que a Grande Loja do Estado de Goiás dispõe, atualmente, de reconhecimento internacional – mérito obtido em sua gestão, segundo o próprio. “Nós hoje somos reconhecidos pelas maçonarias da Inglaterra e da França, berços da fraternidade, algo que eu consegui. Antes, era como se existíssemos mas não tivéssemos nossa ‘carteira de identidade’, era assim”, comemora. Valadares conta que chegou a ser convidado para uma conferência mundial de maçons que vai ocorrer este ano em Israel, dos dias 30 de maio a 2 de junho. “Fui convidado e estarei lá, ao lado das outras potências.

Mulheres na Maçonaria

Um requisito indispensável para ser convidado à Maçonaria é ser do gênero masculino. A exigência é alvo de curiosidade há séculos, uma vez que, mesmo com o avanço do tempo e das organizações filosóficas e religiosas, a fraternidade se manteve firme nesse posicionamento. As origens dessa tradição remonta à Idade Média, quando a Maçonaria era formada por trabalhadores braçais como pedreiros. O próprio nome “maçom” deriva do termo “maçon”, que quer dizer “pedreiro”, em francês.

Uma vez que, na época, tal tipo de trabalho era exercido exclusivamente por homens, o costume se manteve e, até os dias de hoje, as mulheres – ou cunhadas, como são chamadas pelos demais membros – são impedidas de participar das reuniões regulares. Entretanto, a entrada do sexo feminino na Maçonaria não é um sonho impossível para aquelas que nutrem desejo de serem irmãs na fraternidade.

Valadares explica que, no futuro, há uma grande possibilidade da mulher passar a ser aceita nos círculos maçônicos, e não só seus maridos. Ele revela há, atualmente, até movimentos ao redor do mundo dentro da Maçonaria que pregam a inclusão de mulheres. “Existe uma corrente de discussão em nível mundial da participação da mulher. Pela minha idade, eu acho sim que, futuramente, a mulher vai participar da Maçonaria”, reflete.

Enquanto a revolução feminina não ocorre, existem outros meios pelos quais a mulher pode participar, mesmo que indiretamente, da Maçonaria. Além das reuniões fechadas apenas para homens maçons, são realizadas também aquelas destinadas à inclusão da família do irmão maçom, incluindo as mulheres. Além disso, a fraternidade possui uma vertente voltada para jovens mulheres, de 12 a 20 anos, denominada Filhas de Jó. Segundo o grão-mestre da Grande Loja, essa sociedade tem como objetivo moldar o caráter das jovens que, normalmente, são filhas dos irmãos maçons, instruindo-as e direcionando-as para os estudos, o amor ao próximo, o respeito aos pais e a ética. A versão masculina das Filhas de Jó é a Ordem Demolay, também voltada para jovens que tenham entre 12 e 21 anos incompletos.

Questionado sobre o intrigante “grande segredo da Maçonaria”, o grão-mestre Adolfo Valadares esboça um sorriso, e responde: “Tenho 33 anos de Maçonaria. Já exerci todos os cargos maçônicos. Aqui não tem segredos, não pode ter segredos. Nossas reuniões não chegam a ser fechadas, elas são apenas discretas. Não sei de segredo algum, o segredo que nós temos aqui, é que aquilo que uma mão dá, que a outra não veja”, finaliza.

 

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