Economistas explicam: gastos públicos, guerra e inflação mantêm pressão sobre os juros mesmo com queda da Selic
23 junho 2026 às 11h04

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O aumento de gastos públicos do governo brasileiro, parte deles fora dos limites do arcabouço fiscal, somado ao cenário de incerteza provocado pelos conflitos no Oriente Médio, piorou a percepção de risco do mercado financeiro. A principal preocupação é com a trajetória da dívida pública. Quando investidores veem maior risco fiscal, passam a exigir remuneração maior para financiar o governo. Essa exigência aparece nos juros futuros, negociados na B3, e influencia as expectativas para a taxa Selic.
O país vive dois cenários diferentes em curso. De um lado, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu, na última semana, a Taxa Selic para 14,25% ao ano. De outro, o mercado financeiro segue projetando juros elevados por mais tempo, com previsão de Selic em 14% ao fim de 2026, segundo boletim Focus do Banco Central.
O Copom reconhece que o cenário econômico se deteriorou desde o encontro anterior. O documento cita ainda a inflação acima da meta, expectativas desancoradas, mercado de trabalhao resiliente, incertezas no cenário internacional e preocupação com a política fiscal. Para o BC, a perda de disciplina fiscal e as dúvidas sobre a estabilização da dívida pública podem elevar a taxa de juros necessária para controlar a inflação.
Como são feitas as projeções e o que elas indicam
O economista André Luiz Braga explica que o Banco Central e mercado financeiro usam metodologias semelhantes para projetar o mercado futuro, embora o BC tenha mais informações para a tomada de decisões. Segundo ele, quando há piora nas expectativas de longo prazo, o mercado tende a se proteger.
“A metodologia é igual para todos. Tanto o Banco Central quanto o mercado financeiro usam a mesma metodologia. A grande diferença é que o Banco Central tem um pouco mais de informação que o mercado”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.
Para Braga, a combinação entre conflito no Oriente Médio, ano eleitoral e aumento de gastos públicos ajuda a explicar a elevação das projeções para os juros. “Quando tem uma expectativa ruim de longo prazo, um certo grau de incerteza para algumas variáveis, isso faz com que o mercado tente se prevenir”, avalia.
O economista também relaciona o cenário fiscal à circulação maior de dinheiro na economia. Segundo ele, em ano eleitoral, o governo tende a ampliar despesas e estimular programas com impacto direto sobre a renda e o consumo. Esse movimento pode aquecer a demanda e dificultar a queda da inflação.
Para Braga, a combinação entre conflito no Oriente Médio, ano eleitoral e aumento de gastos públicos ajuda a explicar a elevação das projeções para os juros. “Quando tem uma expectativa ruim de longo prazo, um certo grau de incerteza para algumas variáveis, isso faz com que o mercado tente se prevenir”, avalia.
O economista também relaciona o cenário fiscal à circulação maior de dinheiro na economia. Segundo ele, em ano eleitoral, o governo tende a ampliar despesas e estimular programas com impacto direto sobre a renda e o consumo. Esse movimento pode aquecer a demanda e dificultar a queda da inflação.
“Por ser um ano eleitoral, você acaba tendo um despejo maior de fluxo de dinheiro na economia. Isso tende, em certo grau, a aumentar um pouco a inflação, por causa da circulação maior de dinheiro”, diz Braga.
País não suporta taxa de juros elevada
A avaliação do economista Rodolfo Gomes ao Jornal Opção é semelhante. Para ele, o BC tem interesse em reduzir os juros para aliviar a economia, mas enfrente limites impostos pela inflação, cenário externo e a necessidade de manter o Brasil atrativo para investidores estrangeiros. “O Banco Central quer reduzir taxa de juros por uma questão de economia mesmo. O Brasil já não aguenta mais uma taxa de juros de 14%, 15% por muito mais tempo”, afirma Rodolfo.
Segundo ele, juros elevados por período prolongado já afetam setores sensíveis ao crédito, como o agronegócio, e ajudam a explicar o aumento de dificuldades financeiras em empresas. Ao mesmo tempo, uma redução forte da Selic poderia provocar saída de capital estrangeiro, especialmente se outros países continuarem pagando juros considerados atrativos em relação ao risco.
“Se o Brasil reduz taxa de juros nesse momento, o dinheiro sai do Brasil. O investidor olha o risco e o retorno e compara com Estados Unidos, Argentina ou qualquer outro país”, afirma.
Na avaliação de Rodolfo, os gastos públicos também têm impacto direto sobre as expectativas. “Gasto público realmente puxa muito a percepção de inflação mais longa, mais alta por mais tempo. Um governo que gasta muito, consequentemente, tende a ter inflação e juros mais altos”, diz.
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