Dias por uma cidade
12 agosto 2026 às 18h17

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Se apaixonar por uma cidade. Assim defino minha viagem a Buenos Aires, na Argentina.
E quando isso aconteceu? Caminhando por uma rua arborizada de Palermo; topando com uma livraria pelo caminho; tomando meu espresso com calma, acompanhado de uma medialuna; apreciando a belíssima arquitetura da cidade ou simplesmente quando eu percebi que já não estava apenas conhecendo a cidade: estava gostando demais dela? Não sei, talvez tenha sido tudo isso junto.
Até hoje, nunca havia viajado para um país ou cidade que me fizesse pensar em mudar de Goiânia. Mesmo que isso provavelmente nunca vá acontecer, gosto de brincar com os “e se” da vida.
Até hoje.
Então fui para Buenos Aires.
Ela é frequentemente chamada de uma das cidades mais literárias do mundo. E não à toa. É difícil caminhar por lá sem encontrar uma livraria ou sebo. Ou, ainda melhor, um café com livros.
É a cidade de Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares, Silvina Ocampo, Alejandra Pizarnik, Samanta Schweblin e Mariana Enriquez. Escritores tão diferentes entre si, mas que de alguma maneira escreveram a partir de Buenos Aires. Essas autoras que possuem narrativas meio surreais, caóticas e tão fantasticamente latinas.
Eu, que sempre verei o mundo pelos livros, caminhei por Buenos Aires e foi difícil não sentir essa atmosfera dos livros desses escritores.
Borges e sua presença até física no Café La Biela, onde passou tantas manhãs ao lado de Bioy Casares. Fiquei pensando nesse homem que ficou progressivamente cego e, ainda assim, se tornou diretor da Biblioteca Nacional, e como acho essas contradições da vida bonitas: alguém para quem os livros também foram uma forma de enxergar o mundo, perdendo justamente a visão.
E eu, tantos anos depois, sentada ao lado da mesa que eles ocuparam um dia, tomando meu café e tentando imaginar as conversas que aqueles dois podem ter tido. Fiquei emocionada demais.
Bioy Casares ainda me fez atravessar o Cemitério da Recoleta quase inteiro em busca de seu túmulo, meio discreto e nada fantástico, ao contrário da sua literatura.
Cortázar, por sua vez, apesar de ter nascido em Bruxelas passou a juventude na Argentina, e fez do Café London City seu principal local de escrita de “Os prêmios”.
E talvez isso que tenha me encantado e que torne Buenos Aires tão literária: não só pelos escritores que nasceram lá e que fizeram dali seu local de inspiração e escrita, mas a sensação bonita e poética que a literatura cabe em qualquer mesa, esquina, café.
Porque uma das coisas que mais me encantaram na Argentina foi justamente essa ideia da tradição do café com calma, que acredito ser tão essencial para mim quanto à leitura. Ali, não é só “tomar um café”.
É sentar. Ler o jornal. Uma revista. Um livro.
Conversar sobre política, futebol argentino, literatura. Encontrar um amigo. Jogar conversa fora e ficar três horas à mesa sem que isso pareça desperdício de tempo. O encantamento que me trouxe a ideia de que o tempo pode sim, ser uma forma de luxo.
Nesses pequenos intervalos de tempo, a gente até se ilude que a vida é boa, calma, e cabe em um espresso com a deliciosa medialuna, esse croissant mais doce e macio.
Buenos Aires é uma cidade que te convida a conhecê-la sem pressa: andando por ela a pé, parando em um de seus inúmeros cafés, escolhendo alguma leitura latino-americana nas várias livrarias ou sebos pelo caminho.
É uma cidade para andar. E eu andei muito. Mais até do que planejei para ter tempo de escrever.
Para viajar, sou metódica. Gosto de roteiros, horários, de saber onde vou estar e o que quero conhecer. Mas com Buenos Aires fui pouco a pouco deixando a cidade decidir um pouco por mim. E ela sabia mais do que eu.
Entrei em livrarias que não estavam no roteiro. Descobri sebos por acaso. Vi cafés que não estavam nas minhas listas. Mudamos caminhos porque uma rua parecia mais bonita. E foi uma delícia.
Entre todos esses lugares, algumas livrarias merecem ser mais lembradas.
A El Ateneo Grand Splendid é considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo. Funciona dentro de um antigo teatro, e realmente é exuberante, esplêndida, como o próprio nome diz.
Mas, para mim, faltou alguma coisa. Faltou alma de uma livraria. Aquela magia e essência meio difícil de explicar que existe nas livrarias de rua. O encantamento que uma livraria deve carregar, com livros de curadoria, afeto, com cara e jeito que foi escolhido para estar ali, naquela prateleira.
E então veio a Eterna Cadencia.
Cheia, com estantes até o teto, uma charmosa escada — que sonho ter uma assim na Palavrear, quem sabe? —, um acervo incrível (Clarice Lispector em espanhol), e uma decoração tão delicada que dava vontade de morar.
Pedi que embrulhassem o livro do Bioy Casares que comprei para presente. E que bonito embrulho. Assim como o da Palavrear, o embrulho é de papel craft, mas o deles possui uma charmosa arte, com autores estampados.
Depois, fui conhecer o sebo Alberto Casares. E que delícia.
Pequeno, afetivo, charmoso, único, como toda livraria de rua é.
Tive que me segurar para não chorar. A beleza dos livros raros, antigos. O cheiro inebriante do papel é algo que realmente fascina, extasia.
Gosto de sair das livrarias de rua com algo que me faça lembrar elas. Da Eterna Cadencia, levei “Guirnalda con amores”, de Adolfo Bioy Casares. Na Alberto Casares, uma das primeiras edições de “Ficciones”, de Jorge Luis Borges.
Mas em comum, todas as livrarias que entrei, a literatura argentina é prioridade na exposição, na curadoria e nas indicações dos livros.
E fiquei pensando em como cada livraria é, no fundo, uma espécie de retrato de cada livreiro que a construiu. Cada livreiro escolhe o que colocar na vitrine, o que deixar na altura dos olhos, o que empilhar, o que recomendar.
E isso faz uma boa livraria: uma cidade inteira infiltrada pelo olhar de alguém. E como Buenos Aires me fez pensar na Palavrear. Como toda viagem, voltei com um bloquinho cheio de ideias para ela.
E como toda viagem, também fui com um caderno para escrever. Só consegui cumprir em um dia.
Engraçado, que essa foi à viagem em que eu mais imaginei que escreveria. Eu me via sentada em um café, de preferência dentro de uma livraria ou com vista para a rua, escrevendo sobre tudo que estava vendo.
Mas não consegui.
Fiquei mais preocupada em andar, em olhar, em descobrir. Em ver do que escrever e ler.
Em uma cidade que, mesmo no frio, me convidava a caminhar, explorar cada canto, apreciar a beleza dos bosques e da arquitetura, não sobrou muito tempo para sentar e colocar tudo em palavras.
Buenos Aires também me mostrou um modo de vida que me encanta. A cidade é grande, urbana, elegante, movimentada, mas existe nela uma espécie de desaceleração que me lembrou um pouco aquilo que gosto tanto em Goiânia e que alimenta meu bairrismo: essa mistura contraditória entre capital e interior, entre cidade moderna e uma vida que ainda tenta guardar algum espaço para a conversa.
Eu gosto da cidade em que nasci. Gosto de Goiânia e desse jeito tão particular que ela tem de ser capital e, ao mesmo tempo, conservar alguma coisa de cidade do interior. Gosto do seu sossego, da sua modernidade, das suas contradições.
Mas Buenos Aires me ensinou que é possível amar uma cidade sem precisar permanecer nela, apenas se entregar por alguns dias talvez já seja uma forma de pertencimento.
Talvez tudo isso tenha me feito apaixonar por Buenos Aires. Não foi apenas pelos livros, (embora eles sejam sempre a minha porta de entrada); não foi apenas pelos cafés, (embora eu tenha amado a ideia de uma cidade que trata o café como um acontecimento); não foram apenas as livrarias, os sebos, os escritores, os bosques, a arquitetura ou as ruas.
Foi à soma de se apaixonar por uma cidade.


