O reaproveitamento de água tem se tornado uma alternativa para reduzir o consumo de recursos hídricos em atividades industriais. Em Hidrolândia, na Região Metropolitana de Goiânia, uma indústria de laticínios utiliza a água residual gerada durante a produção, após tratamento, para irrigar áreas de pastagem. O volume reaproveitado chega a cerca de 1 milhão de litros por ciclo de irrigação.

A iniciativa é mantida pela Marajoara Laticínios desde 2018 e também inclui o aproveitamento de resíduos orgânicos gerados durante o tratamento dos efluentes. O material é destinado a propriedades rurais de produtores de leite cadastrados pela empresa e utilizado no solo.

O processo começa dentro do parque industrial, onde a água residual da produção é encaminhada para uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE). Após passar por diferentes etapas de tratamento, parte do volume segue por tubulações até uma área de pastagem localizada a aproximadamente um quilômetro da fábrica.

No local, cerca de 600 aspersores distribuem a água tratada pela área. Segundo a empresa, o sistema opera com vazão aproximada de 75 mil litros por hora e pode permanecer em funcionamento durante períodos de 12 horas.

Ao final de um ciclo, aproximadamente 1 milhão de litros podem ser reaproveitados na irrigação. A água contribui para a manutenção da pastagem e, depois de absorvida pelo solo, parte pode retornar ao lençol freático.

Tratamento também gera biomassa

O diretor-geral da Marajoara, Vinícius Junqueira, explica que uma das tecnologias utilizadas no tratamento é a flotação por ar dissolvido (FAD), processo que auxilia na separação de partículas e resíduos presentes no efluente.

Além da água tratada, o procedimento gera uma biomassa orgânica. “É gerada uma biomassa orgânica que é rica em nutrientes que são importantes para o solo”, afirma Junqueira.

Anteriormente, segundo o diretor, esse material era encaminhado para uma propriedade destinada à compostagem. Após estudos sobre a possibilidade de utilização no solo, a empresa passou a distribuí-lo para propriedades rurais cadastradas.

A biomassa é transportada por caminhões-pipa e aplicada em áreas de pastagem utilizadas pelos produtores parceiros. Com isso, resíduos gerados durante a atividade industrial passam a ter uma nova destinação dentro da cadeia produtiva.

Indústria de alimentos demanda grandes volumes de água

A busca por alternativas de reaproveitamento ganha importância diante do volume de água utilizado pelo setor industrial. Conforme o Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, elaborado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a indústria está entre os maiores consumidores de recursos hídricos do país.

Dentro da atividade industrial, a fabricação de alimentos está entre os segmentos que mais demandam água, utilizada em diferentes etapas, desde o processamento até a higienização de equipamentos e instalações.

O desperdício também permanece como um dos desafios para a gestão dos recursos hídricos no Brasil. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) apontam perdas de bilhões de metros cúbicos de água na distribuição no país.

Nesse cenário, o reaproveitamento permite diminuir a necessidade de utilização de água nova em atividades que podem ser realizadas com recursos previamente tratados, como a irrigação.

Projeto funciona desde 2018

De acordo com a Marajoara, o sistema de tratamento e reaproveitamento foi objeto de avaliação técnica da área ambiental do governo de Goiás. Em 2021, a iniciativa também recebeu reconhecimento nacional na área de meio ambiente.

Além de reduzir o descarte de água residual, o sistema permite direcionar o recurso tratado para uma atividade diretamente afetada pela estiagem em Goiás: a manutenção das pastagens.

A iniciativa cria ainda uma conexão entre a produção industrial e propriedades rurais fornecedoras de leite, que recebem tanto a água destinada à irrigação quanto a biomassa resultante do tratamento dos efluentes.

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